PAUTA
Informação e música em harmonia

Com apresentação de Elza Soares, Karol Conka lança ‘Ambulante’, seu segundo álbum

A rapper Karol Conka, que acaba de lançar o álbum ‘Ambulante’. Foto: Carlos Sales

Anunciado com o single de ‘Kaça’, novo trabalho reúne dez composições, todas produzidas pelo DJ Boss in Drama

Postado em 09/11/2018 por

Foi lançado nesta sexta-feira (9) em todas as plataformas digitais o novo álbum de Karol Conka. Intitulado Ambulante e editado pela Sony Music Brasil, o segundo trabalho autoral da rapper curitibana reúne dez faixas, Kaça, Bem-Sucedida, Vida Que Vale, Dominatrix, Suíte, Saudade, Desapego, Fumacê e Você Falou. Todas  as composições foram produzidas por Boss in Drama, codinome artístico do DJ e produtor Péricles Martins.

Música de trabalho de Ambulante, Kaça foi divulgada em videoclipe lançado no dia 11 de outubro. Veja abaixo

 

Em agosto de 2013, Karol Conka foi destaque no Estúdio Showlivre. Veja o show, na íntegra.

Leia abaixo o release de Ambulante, assinado por ninguém menos que Elza Soares. Ouça o álbum no Spotify

Original, sem cópia. 

Fiquei ali, parada por alguns minutos quando o disco terminou de tocar. Original, sem cópia. Era esse o eco dentro do meu peito, na minha cabeça. Eu não escutava os sons a volta, nem mesmo minha barulhenta Copacabana que eu via pela janela, nem o mar revolto. Original, sem cópia. Sem cópia. Minha esperança se encheu futuro nos segundos seguintes, depois do fim. Era um começo. 

Ambulante. Não existirá melhor nome para um álbum autêntico, coerente e de uma artista corajosa como a Karol Conka.

O ambulante é aquele que se joga ao mundo sem medo, sem pudor, levando suas andanças a todos, sem distinção, suprindo necessidades que até mesmo quem as tem desconhece. Essa obra é isso, cara. Um refresco pra quem tem sede e nem sabe que tem. É a bica do conteúdo que não faz distinção de quem vai beber. Está aí pronta pra servir ouvidos famintos em tempos de escassez de palavras. Boss in Drama é gênio e a mistura impensada é matadora. É manjericão com suco de uva, adoçado com batida marcante que cai como luva no potente discurso da Karol. 

No clipe eu vi Iansã vestida de Conka vestida de Oxum. Vi uma das irmãs Virgílio (adoro as duas), sufocando fora d’água, num balé agonizante, universal. Vi o oco abafado da voz de quem grita até pra surdo ouvir. Vi preta protagonizando, vi preto protagonista, vi meu povo preto contando um viés do cotidiano. 

Karol é com K, mas pode ser também com “O” de orgulho, com “R” de resistência, “F” de forte, de fama, de fome de mudar essa realidade dura que desenharam pra nós, no silêncio sorrateiro de quem vence, de quem contou nossa história por um prisma sujo durante décadas. A carne mais barata do mercado encareceu, minha gente. Esse disco da Karol ajuda a melhorar essa cotação, sem depender de cota pra isso. Mulher, preta, mãe, artista, brasileira, produzindo em alto nível um disco na sala de casa, no íntimo do seu mundo. Sonhei tanto com isso, lutei tanto por isso. Que orgulho. Motiva meu grito. 

Eu fui convidada para escrever o release desse trabalho. Decidi escrever sobre o quanto ele me emocionou. Vida longa à arte de Conka. 

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Música brasileira em alta velocidade: 15 canções sob duas e quatro rodas 

Roberto Carlos e parte de sua coleção de dodges Dart. No começo dos anos 1970, ele montou uma locadora, a Remys, que dispunha de 12 unidades do carrão. Foto: Reprodução / Roberto Carlos Oficial

Seleção inclui clássicos de Roberto Carlos e Raul Seixas, além de registros obscuros de Nonato Buzar, Jô Soares e Hareton Salvanini

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Do calhambeque de Roberto Carlos, passando pelo Mustang cor de sangue de Marcos Valle e o Fuscão pfeto de Almir Rogério, até chegar ao Camaro amarelo de Bruno Caliman (autor do sucesso gravado pela dupla Munhoz & Mariano), a paixão do brasileiro por automóveis frequentemente povoa o imaginário da nossa riquíssima música popular.

Na antevéspera de mais uma edição do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, com o britânico Lewis Hamilton já consagrado como pentacampeão, a reportagem do Showlivre apresenta a seguir uma seleção de 15 canções, todas dos anos 1960 e 1970, que envolvem carrões, velocidade e até metáforas automobilísticas.

Hareton Salvanini – KM 110 (1971)
Lançada em um compacto duplo da gravadora Amplisom e embalado com a capa psicodélica de Wagner Nogueira, KM 110 é uma canção de letra existencialista (asfalto, farol / um carro a fugir / pensando em voltar / no caminho de ir) e a orquestração sempre primorosa do maestro paulista Hareton Salvanini. Com arranjo vocal do grupo Scala Som, o compacto foi produzido pelo Movimento Evolução de Teatro e Arte, o META.

 


Os Caçulas – A Moça do Karmann Ghia Vermelho (1969)
Enaltecendo o clássico sedan da Volkswagen, a composição de Tom Gomes teve arranjo do “Guitarreiro” Luiz Wagner, parceiro de Gomes na deliciosa Novos Planos Para o Verão d’Os Diagonais, e foi interpretada pelo quarteto vocal os Caçulas, formado por Álvaro “Alvinho” Damasceno, Vera Lúcia Carvalho, Yara Coelho e Mário Marcos.

 


Zé Roberto – Lotus 72D (1973)
Um dos compactos mais raros e caros do Brasil, Lotus 72D, como antecipa o título, é um samba-rock em homenagem ao primeiro campeonato mundial de automobilismo conquistado por Emerson Fittipaldi em 1972. Com forte influência do suingue de Jorge Ben Jor, a composição de José Roberto tem arranjo preciso do maestro Severino Filho, com destaque para as irresistíveis frases de metais.

 


Marcos Valle & Azymuth – Fittipaldi Show (1973)
Tema de abertura do documentário O Fabuloso Fittipaldi, de Roberto Farias, Fittipaldi Show, composição de Marcos Valle e Novelli, marca também o encontro de Marcos com o trio Azymuth (parceria que culminou no estupendo Previsão do Tempo),  então formado pelo saudoso José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan “Mamão” Conti. Com a poderosa cozinha de Alex e Mamão segurando o groove, Zé Roberto e Marcos tem caminho livre para viajarem no cruzamento de pianos (acústico e elétrico), sintetizadores e órgão Hammond (veja também um vídeo de Emerson pilotando um Ford Maverick em Interlagos ).

 


Nonato e Seu Conjunto – Fitipaldiando (1974)
Composição de Oberdan Oliveira, guitarrista solo do conjunto do pianista e maestro maranhense Raimundo Nonato Rodrigues Araújo, com vocais de Walter, arranjo do próprio Nonato e direção musical do maestro Leo Peracchi, Fittipaldiando, a despeito do título, fala mesmo é de alta velocidade sob duas rodas.

 


Jô Soares – O Volks do Ronaldo (1963)
Composição de Jô Soares e Marcos Cezar, o hoje raro compacto simples com as músicas O Vampiro e O Volks do Ronaldo foi lançado pela Farroupilha Discos como um “hully gully”, como antecipa o texto impresso no selo do lado B do disquinho.

 


Ronie Cord – Rua Augusta (1964)
Legítimo clássico do rock brasileiro, Rua Augusta foi composta pelo pai de Ronnie Cord, o maestro Hervé Cordovil. A letra, apinhada de exageros, como subir a rua Augusta a 120 kmh e seguir ao Anhangabaú a 130, parar na contramão e cruzar sinal vermelho, é um fiel retrato do espírito contestador que seduziu meninos e meninas para o universo da Jovem Guarda.

 


Eduardo Araújo – O Bom (1967)
Outro clássico do rock brazuca que dispensa comentários, O  Bom abre a primeira estrofe falando de um certo carro vermelho cujo dono ignora o uso do espelho para se pentear.

 


Tom Zé – Não Buzine Que eu Estou Paquerando (1968)
Um dos destaques do primeiro álbum de Tom Zé, Grande Liquidação (leia sobre, na coluna Quintessência), Não Buzine Que eu Estou Paquerando tem um impagável narrador que se apresenta como alguém que vive em um tempo diferente (“sei que seu relógio está sempre lhe acenando”, diz o refrão) pelo fato de estar circulando pela cidade e, da janela de seu carro, flerta com as garotas que flanam pelas calçadas.

 


Os Mutantes – Dune Buggy
Pintado com as cores da bandeira norte-americana, o buggy Kadron dos Mutantes foi tema de uma inspirada composição do álbum Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, lançado em 1972. Com mais de mil cavalos de força – claro, um exagero –, Dune Buggy fica ainda mais envenenado quando, acidentalmente, é abastecido com um combustível, digamos, lisérgico.

 


Franco – A 80km/h
Morto recentemente aos 70 anos, o cantor, compositor e produtor Franco Scornavacca foi reduzido ao epíteto “pai dos KLB”, o trio dos irmãos Kiko, Leandro e Bruno, que fez sucesso na transição dos anos 1990 para os 2000. Franco, no entanto, foi um dos principais expoentes do samba-rock enquanto gênero musical nos anos 1970. Com sucessos como Rock Enredo e Rock do Rato, em 80km/h ele também versa sobre a velocidade como metáfora para uma vida urgente.

 


Nonato Buzar – 100 milhas (1970)
Maranhense de Itapicuru, então radicado no Rio de Janeiro o cantor, compositor e arranjador Nonato Buzar iniciou sua carreira no legendário Beco das Garrafas. Depois, criou o cultuado grupo A Turma da Pilantragem. No final dos anos 1960 e no começo da década seguinte, assinou composições para trilhas sonoras de novelas e filmes. 100 Milhas, faixa que também versa sobre um jeito veloz de encarar a vida, foi originalmente lançada em versão instrumental na trilha do filme O Donzelo, de Stefan Wohl, inteiramente composta por Nonato. Também em 1970, no álbum Temas de Novelas, a música ganhou letra.

 


Raul Seixas – Ouro de Tolo (1973)
Uma das letras mais contundentes do Maluco Beleza, Ouro de Tolo é também marcada por forte carga existencialista, simbolizada na insatisfação de seu personagem que, a despeito de ter tido sorte e ter comprado um Corcel 1973, entre outras conquistas materiais, não consegue encontrar graça ou contentamento na própria vida.

 


Made in Brazil – Gasolina (1978)
Rockão do Made in Brazil, lançado no álbum Pauliceia Desvairada (1978) e composto por Oswaldo Vecchione e Tony Babalu, Gasolina tem o hilário refrão “Não vou mais comprar um Rolls Royce / O dinheiro não vai dar, não vai dar pra comprar gasolina”. Da pesada!

 


Roberto Carlos – O Calhambeque (1964)
Um dos primeiros e mais famosos sucessos do Rei Roberto, O Calhambeque é, na verdade, uma versão de Road Hog, lançada por John D. Loudermilk, dois anos antes, em 1962. Demérito algum para a versão, que se tornou um clássico da Jovem Guarda.

 


Marcos Valle – Mustang Côr de Sangue (1969)
Faixa-título de um dos álbuns mais emblemáticos de Marcos Valle, Mustang Côr de Sangue escancara a alienação desenfreada do consumismo, por meio de um dos símbolos máximos da sociedade capitalista, o automóvel. “A questão social, industrial, não permite que eu seja fiel / na vitrine um Corcel cor de mel”, diz a letra de Paulo Sergio Valle, fiel escudeiro do irmão na maioria das composições deste e de outras joias da discografia de Marcos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agendão da Semana: SP recebe shows de Roberta Campos e Daniel

Johnny Hooker, Di Melo e Joyce Moreno com Alfredo Del-Penho são outros destaques dos próximos dias

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Roberta Campos
Cantora apresenta um show em formato intimista e diferenciado, com seu violão e o cello caudaloso de Yaniel Matos.
11 de novembro, 20h
Bourbon Street
R. dos Chanés, 127 – Moema, São Paulo – SP
R$ 65 a R$ 80

Joyce Moreno e Alfredo Del-Penho
Músicos lançam álbum em homenagem a Sidney Miller.
13 de novembro, 19h
Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073 – Bela Vista, São Paulo – SP
Entrada gratuíta

Daniel
Com a turnê Amores Seletivos, o cantor se apresenta no interior paulista.
14 de novembro, 19h30
Via Appia
Rodovia Dom Pedro I, km 123 – Granja Santo Antônio, Valinhos – SP
R$ 190 e R$ 290

Johnny Hooker
Espetáculo Coração contará com canções inéditas do novo álbum homônimo e sucessos de trabalho anterior do cantor pernambucano.
15 de novembro, 17h
Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer
Av. Pedro Álvares Cabral – Parque Ibirapuera, São Paulo – SP
Entrada gratuíta

Di Melo
Canotor, que é referência da black music brasileira, apresenta canções de seu novo disco, Di Melo no Estúdio Showlivre. O show conta com a participação da cantora Liniker.
15 de novembro, 18h30
Sesc Pompeia
R. Clélia, 93 – Água Branca, São Paulo – SP
R$ 6 a R$ 20

OPINIÃO EM PAUTA – ‘Grande Liquidação’: no primeiro álbum de Tom Zé, o paradoxo de um Brasil primitivo e industrial

O cantor e compositor Tom Zé no Festival de MPB da Record de 1968. Foto: Record / Divulgação

Lançado em 1968, o primeiro LP do músico baiano nascido em Irará é retrato fidedigno de um País controverso, proporcionalmente afeito a avanços e retrocessos

Postado em 08/11/2018 por

No retrovisor da história da música popular brasileira, meio século atrás, 1968 foi um ano e tanto. Circunscrevendo somente a produção de três artistas emblemáticos, porque exemplificam o efeito atemporal daqueles dias mágicos para nossa música – dias, por outro lado, equivalentemente sombrios para milhares ou milhões de brasileiros conscientes e/ou engajados em transformar a realidade aguda então vivida no País –  foi em 1968 que: Gilberto Gil lançou seu álbum tropicalista e começou a esboçar as teias radicais de seu terceiro título, o LP, também epônimo, que marcou a despedida do bom baiano e de seu conterrâneo, o mano Caetano, antes de partirem do Patropi para o exílio em Londres, trabalho essencial e informalmente conhecido como Cérebro Eletrônico (1969); no mesmo ano, 1968, no também epônimo álbum de estreia da banda, os Mutantes afirmaram sua genialidade na composição de trio, devidamente insinuada no apoio das manifestações de grandeza de pares luminares como o próprio Gil, Caetano e Gal Costa; também em 1968, coadjuvante de luxo da trupe tropicalista – tema que será devidamente tratado neste quinto episódio da agora rediviva coluna Quintessência (leia os textos anteriores) –, Tom Zé lançou o estupendo Grande Liquidação, sua estreia fonográfica, não por acaso, lançada pelo selo pernambucano Rozenblit/Mocambo (e vejamos, pois, os porquês deste “não por acaso”).

Quando, em 1965, pela primeira vez, Tom Zé veio a São Paulo para integrar o elenco do espetáculo teatral Arena Canta Bahia, de Augusto Boal, acompanhado dos amigos Gal, Bethânia, Gil e Caetano, o novo-baiano, nativo da pequena Irará, então vivia espécie de amizade colorida com uma conterrânea que, tempos depois, tornar-se-ia uma das maiores divas da nascente MPB.

“Gal e eu, a gente tinha um namoro meio atrapalhado. O dia em que ela me chamava pra sair era uma festa, porque eu nem tinha direito de chamá-la pra sair. Um dia ela disse: ‘Tom, vamos fazer umas compras na cidade? (a ‘cidade’ mencionada por Gal, nas aspas de Tom, era como a maioria da população periférica e nordestina então chamava o centro de São Paulo)’. Ela vestia uma calça comprida de casimira, daquelas calças de filme de Hollywood dos anos 1940, e eu estava com Gal na rua, todo mundo bulindo com ela, daí eu falei: ‘Pô, sou um homem de merda mesmo, não é?! Já sou acanhado pra diabo, daí estou aqui com a moça e todo mundo bole com ela?!’. Gal não era conhecida, não era nem Gal Costa, ainda era Gracinha. Depois de muito sofrimento uma senhora teve a caridade de chamar a gente no fundo de uma loja e falar: ‘Minha filha, moça direita não sai de calça comprida em São Paulo. Quem sai de calça comprida em São Paulo é prostituta!’. Foi aí que a gente compreendeu tudo”, disse Tom, em uma entrevista que fiz com ele para a extinta revista Brasileiros, publicada na edição 26, de setembro de 2009 (leia, na íntegra).

Mesmo retratando um episódio remoto, de 1965, o depoimento reproduzido acima antecipa a notória capacidade de Tom Zé de se travestir em espécie de repórter ou cronista das contradições que constituem o imaginário do Brasil rural e urbano tão bem representado em suas composições. Três anos depois, enaltecido como artífice de um movimento vanguardista no ambiente da música brasileira, o Tropicalismo, e campeão do Festival de MPB da Record com a cirúrgica composição São São Paulo, Tom Zé, a despeito de ser relegado a um papel secundário e diametralmente oposto ao sucesso experimentado por seus pares, encontra refúgio na emblemática gravadora pernambucana criada pelo gigante José Rozenblit e afirma a magnitude de seu talento com uma das obras mais concisas e provocativas do período, o álbum Grande Liquidação.

Veja Tom Zé defenedendo São São Paulo no Festival da Record

Espécie de tratado sobre um Brasil antagônico, ao mesmo tempo industrial e primitivo, Grande Liquidação versa, entre outros temas, sobre a falência farsante do projeto desenvolvimentista oportunamente tratado como Milagre Econômico, o suposto avanço industrial dos Dias de Chumbo supostamente legado pelo regime militar instaurado no País com o golpe civil-militar confirmado na calada da madrugada transitória do 31 de março para o 1° de abril de 1964, um “dia de 21 anos”, como bem pontuou o documentarista Camilo Tavares em seu longa-metragem obrigatório e assim intitulado.

No momento em que causava rebuliço no ambiente musical com o lançamento de seu Grande Liquidação, Tom, em resposta ao repórter Adones de Oliveira, do jornal Folha de S. Paulo, provoca, ao ser questionado se fazia música jovem ou se era um compositor de música popular brasileira.

“Por esta pergunta, que muitas vezes ouvi, fica parecendo que a música popular brasileira só pode ser velha, porque a música nova e atual não o seria. (…) Parece que é vedado aos compositores ‘brasileiros’ o ato ou a capacidade de renovar. Considerando isto, um falso dilema nos é imposto: ou seremos ‘velhos’ ou não seremos compositores brasileiros. Ora, eu nasci na minha época, sem ter idade, nos braços de 2 mil anos, e não quero herdar uma velhice precoce, nem a tentativa lírica e estéril de realizar os sonhos dos meus avós. Não quero o mundo nem a minha obra num passado de laço de fita, embalsamado por possíveis tradições musicais ou culturais de saudades perfumadas.”

Tom, escancaradamente, vende seu próprio peixe – entendedores entenderão! É claro, óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues, no depoimento ao repórter da Folha, ele parafraseia versos de 2001, canção de sua autoria gravada pelos Mutantes, e Quero Sambar, Meu Bem, esta última um dos mais emblemáticos temas de Grande Liquidação, álbum considerado por muitos pesquisadores acadêmicos e jornalistas afeitos ao tema como espécie de manifesto involuntário do Tropicalismo enquanto movimento musical. Letra devidamente reproduzida abaixo, para efeito de constatação dos caríssimos leitores de Quintessência que eventualmente a desconheçam.

Quero sambar, meu bem

Quero sambar também
Não quero é vender flores
Nem saudade perfumada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Mas eu não quero andar na fossa
Cultivando tradição embalsamada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Não quero é vender flores
Nem saudade perfumada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Mas eu não quero andar na fossa
Cultivando tradição embalsamada

Meu sangue é de gasolina
Correndo, não tenho mágoa
Meu peito é de sal de fruta
Fervendo no copo d´água”

As duas últimas quadras de Quero Sambar, Meu Bem resumem, de maneira exemplar, as intenções periféricas do som universal de Tom nesse álbum magistral, batizado, de forma sagaz, de Grande Liquidação; álbum somente possível para alguém que, naquele mesmo ano, cravou a sintética Parque Industrial no LP manifesto Tropicália ou Panis Et Circenses. Com síntese exemplar, estão nessas duas estrofes de Quero Sambar…, intenções épicas de Tom Zé – e não por acaso ele tem uma canção chamada Complexo de Épico . Estão também, nessas duas quadras, o ímpeto irrevogável do direito de sambar e, na cadência do samba torto de Tom, o direito empírico do brasileiro comum de se reconhecer.

Está também, na última das duas quadras de Quero Sambar…, o desejo inconfesso de transcender a sina de um País interditado pelo ímpeto de retrocesso que, a despeito da inconteste vocação para infinitas marchas à ré históricas, também é feito de gente que tem sangue de gasolina fervendo num copo d’água e de olhos abertos para o pára-brisas do futuro. Gente com pretensão evolutiva, que tampouco está contente em cultivar fossa ou tradição embalsamada. Gente como Tom Zé, que, da sabedoria monumental acumulada em seus 82 anos de vida, ainda nos brinda, nos palcos e nos estúdios, com a irreverência sagaz de sua grande música.

Ouçam a íntegra de Grande Liquidação – e fiquem de ouvidos em riste para intervenções geniais como Glória, Não Buzine Que eu Estou Paquerando, Curso Intensivo de Boas Maneiras e Namorinho de Portão.

Boas audições e até a próxima Quintessência!

Sofrência e sertanejo dominam lista de mais tocadas no Brasil em outubro de 2018

A cantora e compositora Marílai Mendonça, líder de audições no Deezer em outubro de 2018. Foto: Divulgação / Marília Mendonça Oficial

Divulgada pelo aplicativo de streaming Deezer, seleção encabeçada por Marília Mendonça inclui hits de Felipe Araújo, MC Kevinho e Wesley Safadão

Postado em 07/11/2018 por

Pelo visto, o “Império da Sofrência” na música popular brasileira está longe de ruir. É o que atesta a lista divulgada pelo Deezer nesta quarta-feira (7) com as 20 faixas mais executadas no aplicativo de streaming durante outubro de 2018, mês que acaba se de se despedir.

Encabeçada por Ciumeira, o mais recente single da campeã de vendas Marília Mendonça, que também emplacou a balada Ausência, na 11ª posição, a seleção também inclui temas que, a despeito do gênero musical, demonstram unidade temática ao falar de ciúmes, dores-de-cotovelo e traições embebidas em porres homéricos.

Entre os destaques do mês, majoritariamente ligados ao universo do sertanejo, estão o funkeiro Mc Kevinho, que escalou a quarta posição com O Bebê, Zé Neto e Juliano, com Largado às Traças na sexta posição e o trio de irmãos Melim, que alcançou o nono posto com a faixa Meu Abrigo. Fechando a lista e representando a resistência do pagode, Ferrugem comparece com Pra Você Acreditar.

Confira abaixo a lista completa

Músicas mais tocadas no Brasil em outubro de 2018*

  1. Ciumeira, Marília Mendonça
  2. Atrasadinha, Felipe Araújo
  3. Notificação Preferida, Zé Neto e Cristiano
  4. O Bebê, MC Kevinho
  5. Ao Vivo e A Cores, Matheus e Kauan
  6. Largado às Traças, Zé Neto e Cristiano
  7. Quem Pegou, Pegou, Henrique e Juliano
  8. Só Pra Castigar, Wesley Safadão
  9. Meu Abrigo, Melim
  10. Status Que Eu Não Queria, Zé Neto e Cristiano
  11. Ausência, Marília Mendonça
  12. Juramento do Dedinho, Mano Walter
  13. Não Fala Não Pra Mim, Humberto e Ronaldo
  14. Propaganda, Jorge e Mateus
  15. Bebida na Ferida, Zé Neto e Cristiano
  16. Saudade Nível Hard, Yasmin Santos
  17. Romance Com Safadeza, Wesley Safadão
  18. Sapequinha, Lexa
  19. Coladinha em Mim, Gustavo Mioto
  20. Pra Você Acreditar, Ferrugem

 

MAIS
O Showlivre sempre prezou pela diversidade musical brasileira. Não por acaso, os fãs de sertanejo também têm espaço cativo na nossa grade de apresentações. Se você é um deles, confira abaixo cinco shows imperdíveis do nosso acervo.

Gustavo Mioto no Villa Country Showlivre (2018)

Thayná Bitencourt no Estúdio Showlivre (2018)

Marcos & Belutti no Estúdio Showlivre (2014)

Thaeme & Thiago no Estúdio Showlivre (2014)

Edson & Hudson no Estúdio Showlivre (2011)