Renato Thibes


Redator, lemense e são-paulino, movido a música, cinema e café.

Rami Malek (Freddie Mercury) e Gwilym Lee (Brian May) em cena do filme de Bryan Singer. Foto: Divulgação / 20th Century Fox

OPINIÃO EM PAUTA
‘Bohemian Rhapsody’: quando a camisa da banda entorta varal

A cinebiografia de Freddie Mercury e memórias afetivas grandiloquentes dividem espaço em mais um registro dissonante

Postado em 19/11/2018 por

No futebol, a expressão “camisa que entorta varal” se refere a time grande, tradicional e cheio de história, cuja camisa é considerada “pesada”. Isso quer dizer que ela praticamente entra em campo sozinha, decide jogos só com suas cores e seu distintivo, provoca respeito imediato. Por exemplo: a final da Libertadores entre River e Boca está arrebentando varais por toda a América do Sul.

O conceito pode muito bem ser aplicado no meio musical para se referir a bandas mundialmente famosas que lotam estádios e arrastam milhares de fãs por onde passam. São monstros sagrados cada vez mais raros, mas aquele varal improvisado que o pessoal estende na rua para vender a camiseta da banda ainda entorta bastante por aí. Aproveite enquanto Paul McCartney e os Rolling Stones ainda estão vivos.

Fui ao cinema ver Bohemian Rhapsody, a recém-lançada cinebiografia do Freddie Mercury, cercado de baixas expectativas geradas por críticas negativas. Cinebiografias, assim como adaptações de livros, são sempre um prato cheio para fãs terem do que reclamar. Elas jamais serão 100% fiéis, sempre vai faltar alguma coisa, sempre não foi bem assim que aconteceu, sempre é difícil entender que se trata de uma adaptação, de um filme com começo, meio e fim, e não de um retrato exato da vida real. Neste caso específico, o pessoal não perdoou nem o primeiro trailer lançado.

Não que o filme não tenha seus defeitos, ele é cheio de clichês de cinebiografias, além de soluções óbvias como usar Who Wants To Live Forever quando Freddie descobre ter AIDS. Brian May e Roger Taylor são produtores do filme, então muita coisa deve ter sido controlada ali. As drogas, por exemplo, ficaram em segundo plano. Mas a sexualidade do protagonista, que não aparecia no trailer, está toda lá.

Talvez entorpecido por tantas fake news conduzindo a trajetória do mundo na vida real, eu não ligo mais para o que é real ou não em uma adaptação cinematográfica. Eu simplesmente me deixo levar. E o filme do Bryan Singer me levou diretamente para um lugar que eu estava ignorando e que foi muito real: a minha própria infância.

O Queen foi a primeira banda da qual eu gostei na vida. Eu era criança nos anos 1980 e fui diretamente impactado por aquela fase mágica de Rock in Rio e Live Aid que o filme retrata tão bem. Aquele Rock in Rio que eu vi pela TV foi tão marcante que moldou não só o meu caráter musical, mas o de toda uma geração.

O Queen foi a maior banda de sua época e Freddie Mercury sabia comandar uma plateia de estádio como ninguém. Ele fazia o que queria com aquelas milhares de pessoas e eu sempre considerei isso algo que vai além do talento e do carisma. É um superpoder, um dom sobrenatural. Um magnetismo natural que líderes religiosos, políticos e todo mundo que tem por função controlar as massas sonham em ter. Os demais integrantes do Queen ajudavam bastante, como vemos na cena em que Brian May (Gwilym Lee) cria We Will Rock You. Ele queria dar ao público a chance de participar ativamente da música. A magia do Queen era essa: o público fazia parte do espetáculo.

Então foi o Queen que me fez gostar de banda grande, dessas que lotam estádio e param a cidade. Depois deles, eu iria me apaixonar pelo U2, outra banda que sempre soube dominar uma multidão. Curiosamente, naquele mesmo Live Aid em que o Queen se destacou como maior banda do mundo, o U2 se apresentava em franca ascensão, prestes a tomar o trono.

Todo meu respeito aos artistas menores, esses bravos guerreiros em suas jornadas pelos palcos acanhados e intimistas desse mundo. Espero continuar prestigiando vocês pelo resto da vida – até porque vai chegar o dia em que a idade não vai me permitir encarar a multidão de uma banda grande. Mas é ela, a banda grande, que faz o coração bater mais forte. Foi ela que, em tese, fez todo artista ainda desconhecido pegar um instrumento pela primeira vez. É ela que conduz milhares de pessoas ao mesmo culto, no mesmo ritmo, cantando a mesma canção.

Por isso, a sequência de Bohemian Rhapsody no Live Aid com Rami Malek imitando os trejeitos de Freddie Mercury como um fã na frente do espelho diante de uma plateia ensandecida recriada em computador me emocionou tanto quanto os melhores shows que vi esse ano. Não me lembro de ter visto, no cinema, uma representação tão honesta da catarse provocada por um grande show ao vivo. Ao final da minha sessão, a plateia aplaudiu.

Trata-se de um filme que deve ser visto no cinema, em tela grande, do tamanho que o Queen merece. Meu primeiro filme no cinema foi o campeão de bilheteria E.T., minha primeira banda do coração foi o Queen, então desconfio que serei eternamente refém dos maiores espetáculos da Terra. Muito grato por ter vivido essa época e iniciado minha trajetória de fã com experiências tão grandiosas.

John Cusack, em cena do filme ‘Alta Fidelidade’, de Stephen Frears. Foto: Divulgação / Touchstone Pictures

OPINIÃO EM PAUTA
O last.fm é a única rede social que importa

Com os parâmetros de pesquisa do site, você tem resultados surpreendentes sobre a própria biografia. Top 5 de músicas mais ouvidas nos últimos 13 anos, alguém arrisca?

Postado em 15/10/2018 por

Imagine uma rede social onde só se fala de música. Onde os relacionamentos se formam a partir da compatibilidade do gosto musical. Todo mundo sabe o que o outro costuma ouvir. É raro ter uma briga, no geral são apenas pequenas discordâncias musicais. Não tem ninguém discutindo religião, futebol ou política. Familiares permanecem unidos, mesmo que o tio ouça gospel e o sobrinho Sepultura (na verdade, duvido que seu tio esteja lá, o que é ainda melhor). Imagine um mundo onde a paz sonhada por John Lennon reina soberana. Esse mundo existe. É o last.fm.

O serviço foi criado em 2002 – dois anos antes do Orkut, para você ter uma ideia. Mas foi só em 2005 que eu entrei na minha rede social favorita de todos os tempos, mesmo que naquela época a expressão “rede social” ainda nem fosse usada.

avatar O last.fm é a única rede social que importa

Me add… Foto: Reprodução

Como o last.fm é uma rede social de nicho com funções muito peculiares, permita-me explicar. A sua principal funcionalidade é o scrobbler, uma ferramenta que registra a música que você ouviu no computador, smartphone ou em qualquer dispositivo com o plug-in ou o app do last.fm instalado e ativo. Essas informações compiladas geram um banco de dados de infinitas possibilidades, com tabelas dos mais variados tipos e lindos rankings com seus artistas, músicas e álbuns mais ouvidos no período que você quiser.

Com criatividade, curiosidade e algum tempo livre, você define os parâmetros de pesquisa e tem resultados surpreendentes sobre a sua própria biografia. Por exemplo: eu consigo saber quais músicas eu mais ouvi durante cada Copa do Mundo. Ou que artistas me consolaram naquele período triste em que meu penúltimo relacionamento caminhava para o seu destino final. O único defeito do last.fm é ainda não ter, ele mesmo, pensado nessas possibilidades. Eu adoraria receber relatórios completamente idiotas com informações desse tipo.

Nos primórdios, era tudo muito rudimentar e os scrobbles eram atualizados apenas uma vez por semana. Eu ficava esperando ansiosamente essa atualização, em mais uma daquelas agonias formadoras de caráter que a atual geração mimada jamais terá que suportar, como o download de mp3 em conexão discada e o mertiolate que ardia. Hoje está tudo muito mais fácil, você ouve a música e o scrobble já está lá, em tempo real.

Além dos rankings particulares, é possível acompanhar no last.fm a própria evolução da tecnologia. Em 2006, meu primeiro ano completo no site, eu tive 5.459 scrobbles que provavelmente vieram do Winamp do meu computador de casa. Hoje todos os meus dispositivos estão scrobbleando. Com o Spotify do smartphone com o plug-in já incorporado, virou covardia. Tirando a música que toca no vagão do metrô ou na rádio do supermercado, tudo que eu ouço está registrado ali. Em 2017, foram 23.145 scrobbles.

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2018 loading… Foto: Reprodução / Last FM

Vale alertar que o last.fm é uma rede social não tão social assim. Tem lá o inbox para mensagens privadas, para você receber inusitados spams de simpáticas bandas do norte da Noruega. Tem lá o shoutbox para mensagens abertas, onde você pode mandar um “oi sumida, curtindo um Exalta?” e é só. Não é um site muito propício para o stalker tradicional. Foto, só tem a pequenina do avatar. O que importa são as músicas. Quando você conhece alguém ali, é por meio delas. E aí entra o grande trunfo, que é a lista de neighbours, os vizinhos que têm o gosto musical similar ao seu. Um prato cheio para novas amizades e, por que não, novos crushs. Afinal, ter uma super compatibilidade musical vale mais que qualquer match em app de paquera.

Como a rede não faz muita questão de ser social, você pode criar suas próprias ferramentas de interação. Em 2009, inventei uma corrente para trocar CD-Rs com amigos. Funcionava assim: você gravava um CD com suas top tracks (ou com a top track de cada um de seus top artists) e enviava para o correio para um amigo que teria que retribuir a gentileza. Foi uma época muito bonita por lá. Agora que o last.fm está integrado ao Spotify, qualquer um desses rankings se torna uma playlist. Basta abrir a página do ranking, clicar no play da primeira faixa e deixar rolar.

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Meu top 5 desses 13 anos, agora com o botão de play do Spotify. Foto: Reprodução / Last FM

Eu tenho o costume de comemorar no twitter quando algum artista atinge a marca do milésimo scrobble, feito Pelé comemorando o milésimo gol. Também fico trocando o modo de exibição dos tops no meu perfil. Atualmente está no modo anual, pois considero um recorte mais preciso de quem eu sou no momento, mas cada um escolhe seu critério. Pessoas mais desapegadas costumam deixar apenas o top da última semana, por exemplo.

Tem muitas outras funções no last.fm, como rádio de recomendações e agenda de shows. A versão paga tem ainda mais informações, gráficos e tabelas, mas a versão gratuita já é uma beleza. Eu adoraria que outras redes similares proporcionassem tanta informação de graça. O Letterboxd chega perto no registro de filmes, mas não oferece, por exemplo, um ranking dos meus diretores mais assistidos. O GoodReads tem lá seu ranking de escritores mais lidos, mas não vai muito além disso. O TV Time, coitado, apanha feio de todos os outros no registro dos nossos queridos seriadinhos. Ele mostra a quantidade de horas que eu já gastei na vida vendo séries, uma informação que é apenas deprimente.

O last.fm é diferente. Acessar meu perfil por lá tem uma função terapêutica. É um pequeno oásis no meio dessa bagunça que virou a internet. Um lugar calmo e agradável onde meus artistas favoritos estão sempre me esperando. Tudo parece fazer sentido. Se aqueles álbuns estão ali, naquela ordem, é porque eu os coloquei ali. São dados que dizem mais sobre qualquer pessoa do que uma selfie.

Eu gostaria de ter uns rankings desses da vida toda, com Balão Mágico no top 50, mas infelizmente não existia internet quando eu nasci. Ainda assim, 13 anos é bastante tempo e eu considero um privilégio poder listar os artistas, as músicas e os álbuns que mais ouvi nesse período com uma margem de erro insignificante. Espero que o last.fm dure muito e continue por aqui quando eu morrer, com uma inteligência artificial atualizando meu perfil com as músicas que certamente eu estaria ouvindo se ainda estivesse vivo, feito algum episódio de Black Mirror. Minhas músicas favoritas, eis um rastro digital que eu adoraria deixar me representando na posteridade.

Detalhe da capa de Resistence is Futile, o mais recente álbum da banda Manic Street Preachers. Foto: Divulgação / Columbia

OPINIÃO EM PAUTA
O que o Brasil tem a aprender com o Manic Street Preachers

“Para compreender seu país, você deve compreender a si mesmo.” (“Misguided Missile”, 2014)

Postado em 04/10/2018 por

Em abril deste ano, a banda galesa Manic Street Preachers lançou seu 13º álbum, “Resistance is Futile”. O trabalho foi  influenciado, entre outras coisas, pelo recente Brexit que abalou o Reino Unido. “É um álbum inspirado pelas pessoas e pelo espírito humano, mas também reflete os sentimentos de desamparo sentidos por muitos no cenário político atual”, disse o baixista e compositor Nicky Wire ao Independent.

“Há muitos dedos sendo apontados hoje, um choque de opiniões”, completa Wire. “Parece que a democracia foi ultrapassada pela histeria digital.” A essa altura do campeonato é meio impossível que você não tenha sido atingido por esse clima, essa ansiedade geral causada por um debate político a cada dia menos democrático. Então você sabe do que ele está falando.

É preciso lembrar que o Manics começou punk lá nos anos 1980, usou as maquiagens e os figurinos do glam (Wire ainda usa), se inspirou no grunge, flertou com o hard rock, surfou na onda gostosa do britpop e nos últimos anos passou também pelo rock eletrônico, sem nunca deixar de lado um forte posicionamento político de esquerda. Mesmo entre as bandas mais politizadas do mainstream, não é qualquer uma que tem uma música chamada “The Masses Against the Classes”, por exemplo. Os problemas da classe trabalhadora, as injustiças sociais e o combate ao fascismo sempre fizeram parte do seu repertório de maneira bem pouco sutil. Seguindo a milenar tradição dos artistas de protesto, eles sempre estiveram dispostos a transmitir uma mensagem e a ensinar alguma coisa. Há quem ache isso chato. Eu considero apenas necessário. É um dos papéis essenciais da arte registrar o momento no qual ela foi concebida. E nosso mundo não se resume a amorzinho, festa e pegação, infelizmente.

A primeira lição a ser aprendida: artistas que se posicionam e compram brigas são sempre mais interessantes.

Antes de comentar um “então vai pra Cuba!” cheio de raiva, saiba você que eles já foram. Em 2001, o Manics foi a primeira banda de rock ocidental a tocar por lá em mais de 2 décadas. Os galeses foram acusados de abraçar Fidel Castro num dia e gravar com Kylie Minogue no outro, mas esse tipo de incoerência irônica faz parte da sua trajetória. Um dia, dando os primeiros passos na cena alternativa local, eles prometeram encerrar a carreira depois de vender 16 milhões de álbuns. Uma promessa jamais cumprida, ainda bem. Quem acompanha essa carreira sabe que o próprio título do novo disco, “resistir é inútil”, não é de coração. Esses caras podem estar desiludidos, como todos nós, mas estão bem longe de desistir da luta.

 

Segunda lição: promessas e bravatas, no geral, são vazias. Mas discurso, postura e atitude podem durar para sempre.

As letras do Manics sempre beberam nas fontes de poetas, filósofos, escritores e conflitos históricos variados, de grandes acontecimentos globais a regionais que a gente nem imagina terem existido. Obviamente, ninguém é obrigado a decifrar isso tudo, mas uma consulta rápida à wikipedia dá um sabor todo especial a algumas músicas. Por exemplo: o hino “If You Tolerate This Your Children Will Be Next” tem um verso poderoso retirado do livro “Miners Against Fascism” de Hywel Francis, sobre mineiros galeses que lutaram a Guerra Civil Espanhola na década de 1930: “se eu posso atirar em coelhos, eu posso atirar em fascistas”. Ou seja, são pessoas comuns, trabalhadores da classe operária partindo para a briga.

 

Terceira lição: todo mundo deve lutar pelo futuro dos seus filhos.

A música, que está completando 20 anos mais atual do que nunca, faz parte do álbum “This is My Truth, Tell Me Yours” (“Esta é a minha verdade, me conte a sua”), uma frase que poderia fazer parte de qualquer discussão política hoje em dia. São palavras de Aneurin “Nye” Bevan, um político de esquerda que marcou época no País de Gales na primeira metade do século XX até renunciar ao cargo de Ministro do Trabalho quando viu a verba dos programas sociais ser realocada para o rearmamento do país. Todo mundo tem um vizinho doido pra ter um revólver que acha que o Bolsa Família só serve pra sustentar vagabundo.

 

Quarta lição: em tempos de tantas mentiras e valores invertidos, a minha verdade pode ser bem diferente da sua.

Outro dia, aqui no Brasil, perdemos um patrimônio histórico de valor incalculável graças a nossa própria incompetência. Se não prestamos atenção nem na nossa própria história, seria pedir demais que prestássemos atenção nas histórias dos outros. Ainda mais nas histórias do País de Gales, que nem é dos nossos destinos turísticos preferidos. Mas o Brasil tem pelo menos um bom motivo para ter empatia pelo Manics: o amor pelo futebol. A banda gravou o tema da seleção do País de Gales para a última Eurocopa, em 2016. A letra inclusive cita o Brasil, que eliminou os galeses na Copa de 58 e partiu o coração de toda a nação.

Mas o futebol pode ter cicatrizes bem mais profundas que uma simples eliminação. Em 1989, 96 torcedores do Liverpool morreram pisoteados no Estádio Hillsborough, em Sheffield. O governo e as autoridades envolvidas culparam os próprios falecidos, ignorando a superlotação do estádio e seu péssimo estado de conservação. Coube ao Manics chamar a tragédia pelo nome certo, genocídio, na música “South Yorkshire Mass Murderer”, de 1998. O novo álbum resgata a história em “Liverpool Revisited”, que novamente faz justiça às vítimas, dizendo que todo o ódio que tentaram transferir aos mortos nunca foi a verdade.

Quinta lição: futebol e política se misturam, sim.

Já deu para perceber que os temas abordados se misturam, vão e voltam, alguns parecem que sempre estiveram por aí. No álbum de estreia, “Generation Terrorists” (1992), o Manics já criticava a objetificação feminina antes de virar modinha em “Little Baby Nothing”, que tinha nos vocais a participação de Traci Lords, famosa por ter começado uma carreira de atriz pornô aos 16 anos de idade. O primeiro single da banda, “Motown Junk”, falava de iconoclastia e batia não só na Motown, mas também em John Lennon. Futuramente, sobraria até pro Dalai Lama. O Manics nunca perdoou ninguém. Eu particularmente curto muito os versos da recente “The View from Stow Hill” no qual eles batem em “tweets equivocados” e no “triste facebook”. Essa revolta que serve de combustível para tantas músicas é uma das heranças de Richey Edwards, o poeta atormentado que foi o principal compositor da banda no começo da carreira.

É famoso o episódio em que um jornalista da NME questionou as reais intenções dos músicos e viu, como resposta, Edwards escrevendo “4 REAL” (“de verdade”) no braço com um estilete. Uma atitude que rendeu 17 pontos, ótimas fotos e o tipo de mitologia que todo adolescente roqueiro ama. Em 1995, com a também mitológica idade de 27 anos, Edwards simplesmente desapareceu. Acredita-se em suicídio, mas seu corpo nunca foi encontrado. A ausência do amigo adicionou uma certa melancolia a cada pedaço de música produzido pela banda desde então.

 

Sexta lição: melancolia com revolta é a melhor receita para se fazer boa música.

Em 1993, um jovem Edwards escrevia que “não tem nada de bom na minha cabeça, o mundo adulto levou tudo embora”. 20 anos depois, um Wire ainda mais adulto abria o álbum “Rewind the Film” com um lamento parecido: “eu não quero que meus filhos cresçam como eu”. No ano passado, desiludido com as eleições americanas, o Brexit e os rumos da própria esquerda que ele cresceu defendendo, o vocalista James Dean Bradfield disse à NME que se sentia um homem sem partido.

 

Sétima lição: seja qual for a sua ideologia, a autocrítica é fundamental.

Em 2018, a música “Distant Colours” veio para marcar este momento quando, desorientado, Bradfield canta que não consegue mais diferenciar a sua esquerda da sua direita. Um conflito que ele chama de “uma guerra fria para a mente”, talvez a melhor definição para o momento atual que o mundo atravessa. Foi-se o tempo em que era só escolher esquerda ou direita, a questão agora é muito mais moral. É sobre a sua própria consciência. E, enfim, sobre o mundo que vamos deixar para os nossos filhos. Ajuda o fato da música toda ser linda:

Em entrevista para a revista Clash, Bradfield explicou “Distant Colours” da seguinte maneira: “quando você chega a uma certa idade, você não pode mais fingir que não tem essa idade. Tudo se torna uma cor distante. Tudo se torna uma memória distante. Você começa a se desvincular da memória e se envolver com a realidade, e a realidade é tão fraturada que você fica sem nada”. A faixa “People Give In” abre o novo disco avisando que as pessoas se cansam, envelhecem, são esquecidas e vendidas, mas também declara que, apesar de tudo, as pessoas permanecem fortes. Não tenho dúvidas de que esses caras ainda sabem qual lado escolher.

 

Oitava lição: não é porque você está desiludido que vai escolher o caminho errado.

Apesar das boas críticas recebidas e da relevância temática, muito provavelmente “Resistance is Futile” não vai entrar nas listas de melhores do ano que você acompanha. Não rendeu nenhuma turnê mundial milionária. Não vai mudar o patamar da banda, tão respeitada na Europa, tão ignorada no Brasil. Ninguém vai se lembrar de trazê-los para o Lollapalooza. Os galeses continuarão suas vidas sem saber que depois de mais de 30 anos de carreira ainda têm muito a ensinar a um país tão conturbado e confuso como o nosso, mesmo que pouca gente por aqui esteja prestando atenção.

Fica o grito de socorro: please Manics, come to Brazil. Estamos precisando de toda ajuda possível.