Marcelo Pinheiro


Jornalista, editor-chefe do site do Showlivre.com. Colecionador de discos de 7, 10 e 12 polegadas, nas horas vagas ataca de dublê de disc jockey e músico amador

Roberto Carlos e parte de sua coleção de dodges Dart. No começo dos anos 1970, ele montou uma locadora, a Remys, que dispunha de 12 unidades do carrão. Foto: Reprodução / Roberto Carlos Oficial

Música brasileira em alta velocidade: 15 canções sob duas e quatro rodas 

Seleção inclui clássicos de Roberto Carlos e Raul Seixas, além de registros obscuros de Nonato Buzar, Jô Soares e Hareton Salvanini

Postado em 09/11/2018 por

Do calhambeque de Roberto Carlos, passando pelo Mustang cor de sangue de Marcos Valle e o Fuscão pfeto de Almir Rogério, até chegar ao Camaro amarelo de Bruno Caliman (autor do sucesso gravado pela dupla Munhoz & Mariano), a paixão do brasileiro por automóveis frequentemente povoa o imaginário da nossa riquíssima música popular.

Na antevéspera de mais uma edição do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, com o britânico Lewis Hamilton já consagrado como pentacampeão, a reportagem do Showlivre apresenta a seguir uma seleção de 15 canções, todas dos anos 1960 e 1970, que envolvem carrões, velocidade e até metáforas automobilísticas.

Hareton Salvanini – KM 110 (1971)
Lançada em um compacto duplo da gravadora Amplisom e embalado com a capa psicodélica de Wagner Nogueira, KM 110 é uma canção de letra existencialista (asfalto, farol / um carro a fugir / pensando em voltar / no caminho de ir) e a orquestração sempre primorosa do maestro paulista Hareton Salvanini. Com arranjo vocal do grupo Scala Som, o compacto foi produzido pelo Movimento Evolução de Teatro e Arte, o META.

 


Os Caçulas – A Moça do Karmann Ghia Vermelho (1969)
Enaltecendo o clássico sedan da Volkswagen, a composição de Tom Gomes teve arranjo do “Guitarreiro” Luiz Wagner, parceiro de Gomes na deliciosa Novos Planos Para o Verão d’Os Diagonais, e foi interpretada pelo quarteto vocal os Caçulas, formado por Álvaro “Alvinho” Damasceno, Vera Lúcia Carvalho, Yara Coelho e Mário Marcos.

 


Zé Roberto – Lotus 72D (1973)
Um dos compactos mais raros e caros do Brasil, Lotus 72D, como antecipa o título, é um samba-rock em homenagem ao primeiro campeonato mundial de automobilismo conquistado por Emerson Fittipaldi em 1972. Com forte influência do suingue de Jorge Ben Jor, a composição de José Roberto tem arranjo preciso do maestro Severino Filho, com destaque para as irresistíveis frases de metais.

 


Marcos Valle & Azymuth – Fittipaldi Show (1973)
Tema de abertura do documentário O Fabuloso Fittipaldi, de Roberto Farias, Fittipaldi Show, composição de Marcos Valle e Novelli, marca também o encontro de Marcos com o trio Azymuth (parceria que culminou no estupendo Previsão do Tempo),  então formado pelo saudoso José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan “Mamão” Conti. Com a poderosa cozinha de Alex e Mamão segurando o groove, Zé Roberto e Marcos tem caminho livre para viajarem no cruzamento de pianos (acústico e elétrico), sintetizadores e órgão Hammond (veja também um vídeo de Emerson pilotando um Ford Maverick em Interlagos ).

 


Nonato e Seu Conjunto – Fitipaldiando (1974)
Composição de Oberdan Oliveira, guitarrista solo do conjunto do pianista e maestro maranhense Raimundo Nonato Rodrigues Araújo, com vocais de Walter, arranjo do próprio Nonato e direção musical do maestro Leo Peracchi, Fittipaldiando, a despeito do título, fala mesmo é de alta velocidade sob duas rodas.

 


Jô Soares – O Volks do Ronaldo (1963)
Composição de Jô Soares e Marcos Cezar, o hoje raro compacto simples com as músicas O Vampiro e O Volks do Ronaldo foi lançado pela Farroupilha Discos como um “hully gully”, como antecipa o texto impresso no selo do lado B do disquinho.

 


Ronie Cord – Rua Augusta (1964)
Legítimo clássico do rock brasileiro, Rua Augusta foi composta pelo pai de Ronnie Cord, o maestro Hervé Cordovil. A letra, apinhada de exageros, como subir a rua Augusta a 120 kmh e seguir ao Anhangabaú a 130, parar na contramão e cruzar sinal vermelho, é um fiel retrato do espírito contestador que seduziu meninos e meninas para o universo da Jovem Guarda.

 


Eduardo Araújo – O Bom (1967)
Outro clássico do rock brazuca que dispensa comentários, O  Bom abre a primeira estrofe falando de um certo carro vermelho cujo dono ignora o uso do espelho para se pentear.

 


Tom Zé – Não Buzine Que eu Estou Paquerando (1968)
Um dos destaques do primeiro álbum de Tom Zé, Grande Liquidação (leia sobre, na coluna Quintessência), Não Buzine Que eu Estou Paquerando tem um impagável narrador que se apresenta como alguém que vive em um tempo diferente (“sei que seu relógio está sempre lhe acenando”, diz o refrão) pelo fato de estar circulando pela cidade e, da janela de seu carro, flerta com as garotas que flanam pelas calçadas.

 


Os Mutantes – Dune Buggy
Pintado com as cores da bandeira norte-americana, o buggy Kadron dos Mutantes foi tema de uma inspirada composição do álbum Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, lançado em 1972. Com mais de mil cavalos de força – claro, um exagero –, Dune Buggy fica ainda mais envenenado quando, acidentalmente, é abastecido com um combustível, digamos, lisérgico.

 


Franco – A 80km/h
Morto recentemente aos 70 anos, o cantor, compositor e produtor Franco Scornavacca foi reduzido ao epíteto “pai dos KLB”, o trio dos irmãos Kiko, Leandro e Bruno, que fez sucesso na transição dos anos 1990 para os 2000. Franco, no entanto, foi um dos principais expoentes do samba-rock enquanto gênero musical nos anos 1970. Com sucessos como Rock Enredo e Rock do Rato, em 80km/h ele também versa sobre a velocidade como metáfora para uma vida urgente.

 


Nonato Buzar – 100 milhas (1970)
Maranhense de Itapicuru, então radicado no Rio de Janeiro o cantor, compositor e arranjador Nonato Buzar iniciou sua carreira no legendário Beco das Garrafas. Depois, criou o cultuado grupo A Turma da Pilantragem. No final dos anos 1960 e no começo da década seguinte, assinou composições para trilhas sonoras de novelas e filmes. 100 Milhas, faixa que também versa sobre um jeito veloz de encarar a vida, foi originalmente lançada em versão instrumental na trilha do filme O Donzelo, de Stefan Wohl, inteiramente composta por Nonato. Também em 1970, no álbum Temas de Novelas, a música ganhou letra.

 


Raul Seixas – Ouro de Tolo (1973)
Uma das letras mais contundentes do Maluco Beleza, Ouro de Tolo é também marcada por forte carga existencialista, simbolizada na insatisfação de seu personagem que, a despeito de ter tido sorte e ter comprado um Corcel 1973, entre outras conquistas materiais, não consegue encontrar graça ou contentamento na própria vida.

 


Made in Brazil – Gasolina (1978)
Rockão do Made in Brazil, lançado no álbum Pauliceia Desvairada (1978) e composto por Oswaldo Vecchione e Tony Babalu, Gasolina tem o hilário refrão “Não vou mais comprar um Rolls Royce / O dinheiro não vai dar, não vai dar pra comprar gasolina”. Da pesada!

 


Roberto Carlos – O Calhambeque (1964)
Um dos primeiros e mais famosos sucessos do Rei Roberto, O Calhambeque é, na verdade, uma versão de Road Hog, lançada por John D. Loudermilk, dois anos antes, em 1962. Demérito algum para a versão, que se tornou um clássico da Jovem Guarda.

 


Marcos Valle – Mustang Côr de Sangue (1969)
Faixa-título de um dos álbuns mais emblemáticos de Marcos Valle, Mustang Côr de Sangue escancara a alienação desenfreada do consumismo, por meio de um dos símbolos máximos da sociedade capitalista, o automóvel. “A questão social, industrial, não permite que eu seja fiel / na vitrine um Corcel cor de mel”, diz a letra de Paulo Sergio Valle, fiel escudeiro do irmão na maioria das composições deste e de outras joias da discografia de Marcos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cantor e compositor Tom Zé no Festival de MPB da Record de 1968. Foto: Record / Divulgação

OPINIÃO EM PAUTA
‘Grande Liquidação’: no primeiro álbum de Tom Zé, o paradoxo de um Brasil primitivo e industrial

Lançado em 1968, o primeiro LP do músico baiano nascido em Irará é retrato fidedigno de um País controverso, proporcionalmente afeito a avanços e retrocessos

Postado em 08/11/2018 por

No retrovisor da história da música popular brasileira, meio século atrás, 1968 foi um ano e tanto. Circunscrevendo somente a produção de três artistas emblemáticos, porque exemplificam o efeito atemporal daqueles dias mágicos para nossa música – dias, por outro lado, equivalentemente sombrios para milhares ou milhões de brasileiros conscientes e/ou engajados em transformar a realidade aguda então vivida no País –  foi em 1968 que: Gilberto Gil lançou seu álbum tropicalista e começou a esboçar as teias radicais de seu terceiro título, o LP, também epônimo, que marcou a despedida do bom baiano e de seu conterrâneo, o mano Caetano, antes de partirem do Patropi para o exílio em Londres, trabalho essencial e informalmente conhecido como Cérebro Eletrônico (1969); no mesmo ano, 1968, no também epônimo álbum de estreia da banda, os Mutantes afirmaram sua genialidade na composição de trio, devidamente insinuada no apoio das manifestações de grandeza de pares luminares como o próprio Gil, Caetano e Gal Costa; também em 1968, coadjuvante de luxo da trupe tropicalista – tema que será devidamente tratado neste quinto episódio da agora rediviva coluna Quintessência (leia os textos anteriores) –, Tom Zé lançou o estupendo Grande Liquidação, sua estreia fonográfica, não por acaso, lançada pelo selo pernambucano Rozenblit/Mocambo (e vejamos, pois, os porquês deste “não por acaso”).

Quando, em 1965, pela primeira vez, Tom Zé veio a São Paulo para integrar o elenco do espetáculo teatral Arena Canta Bahia, de Augusto Boal, acompanhado dos amigos Gal, Bethânia, Gil e Caetano, o novo-baiano, nativo da pequena Irará, então vivia espécie de amizade colorida com uma conterrânea que, tempos depois, tornar-se-ia uma das maiores divas da nascente MPB.

“Gal e eu, a gente tinha um namoro meio atrapalhado. O dia em que ela me chamava pra sair era uma festa, porque eu nem tinha direito de chamá-la pra sair. Um dia ela disse: ‘Tom, vamos fazer umas compras na cidade? (a ‘cidade’ mencionada por Gal, nas aspas de Tom, era como a maioria da população periférica e nordestina então chamava o centro de São Paulo)’. Ela vestia uma calça comprida de casimira, daquelas calças de filme de Hollywood dos anos 1940, e eu estava com Gal na rua, todo mundo bulindo com ela, daí eu falei: ‘Pô, sou um homem de merda mesmo, não é?! Já sou acanhado pra diabo, daí estou aqui com a moça e todo mundo bole com ela?!’. Gal não era conhecida, não era nem Gal Costa, ainda era Gracinha. Depois de muito sofrimento uma senhora teve a caridade de chamar a gente no fundo de uma loja e falar: ‘Minha filha, moça direita não sai de calça comprida em São Paulo. Quem sai de calça comprida em São Paulo é prostituta!’. Foi aí que a gente compreendeu tudo”, disse Tom, em uma entrevista que fiz com ele para a extinta revista Brasileiros, publicada na edição 26, de setembro de 2009 (leia, na íntegra).

Mesmo retratando um episódio remoto, de 1965, o depoimento reproduzido acima antecipa a notória capacidade de Tom Zé de se travestir em espécie de repórter ou cronista das contradições que constituem o imaginário do Brasil rural e urbano tão bem representado em suas composições. Três anos depois, enaltecido como artífice de um movimento vanguardista no ambiente da música brasileira, o Tropicalismo, e campeão do Festival de MPB da Record com a cirúrgica composição São São Paulo, Tom Zé, a despeito de ser relegado a um papel secundário e diametralmente oposto ao sucesso experimentado por seus pares, encontra refúgio na emblemática gravadora pernambucana criada pelo gigante José Rozenblit e afirma a magnitude de seu talento com uma das obras mais concisas e provocativas do período, o álbum Grande Liquidação.

Veja Tom Zé defenedendo São São Paulo no Festival da Record

Espécie de tratado sobre um Brasil antagônico, ao mesmo tempo industrial e primitivo, Grande Liquidação versa, entre outros temas, sobre a falência farsante do projeto desenvolvimentista oportunamente tratado como Milagre Econômico, o suposto avanço industrial dos Dias de Chumbo supostamente legado pelo regime militar instaurado no País com o golpe civil-militar confirmado na calada da madrugada transitória do 31 de março para o 1° de abril de 1964, um “dia de 21 anos”, como bem pontuou o documentarista Camilo Tavares em seu longa-metragem obrigatório e assim intitulado.

No momento em que causava rebuliço no ambiente musical com o lançamento de seu Grande Liquidação, Tom, em resposta ao repórter Adones de Oliveira, do jornal Folha de S. Paulo, provoca, ao ser questionado se fazia música jovem ou se era um compositor de música popular brasileira.

“Por esta pergunta, que muitas vezes ouvi, fica parecendo que a música popular brasileira só pode ser velha, porque a música nova e atual não o seria. (…) Parece que é vedado aos compositores ‘brasileiros’ o ato ou a capacidade de renovar. Considerando isto, um falso dilema nos é imposto: ou seremos ‘velhos’ ou não seremos compositores brasileiros. Ora, eu nasci na minha época, sem ter idade, nos braços de 2 mil anos, e não quero herdar uma velhice precoce, nem a tentativa lírica e estéril de realizar os sonhos dos meus avós. Não quero o mundo nem a minha obra num passado de laço de fita, embalsamado por possíveis tradições musicais ou culturais de saudades perfumadas.”

Tom, escancaradamente, vende seu próprio peixe – entendedores entenderão! É claro, óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues, no depoimento ao repórter da Folha, ele parafraseia versos de 2001, canção de sua autoria gravada pelos Mutantes, e Quero Sambar, Meu Bem, esta última um dos mais emblemáticos temas de Grande Liquidação, álbum considerado por muitos pesquisadores acadêmicos e jornalistas afeitos ao tema como espécie de manifesto involuntário do Tropicalismo enquanto movimento musical. Letra devidamente reproduzida abaixo, para efeito de constatação dos caríssimos leitores de Quintessência que eventualmente a desconheçam.

Quero sambar, meu bem

Quero sambar também
Não quero é vender flores
Nem saudade perfumada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Mas eu não quero andar na fossa
Cultivando tradição embalsamada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Não quero é vender flores
Nem saudade perfumada

Quero sambar, meu bem
Quero sambar também
Mas eu não quero andar na fossa
Cultivando tradição embalsamada

Meu sangue é de gasolina
Correndo, não tenho mágoa
Meu peito é de sal de fruta
Fervendo no copo d´água”

As duas últimas quadras de Quero Sambar, Meu Bem resumem, de maneira exemplar, as intenções periféricas do som universal de Tom nesse álbum magistral, batizado, de forma sagaz, de Grande Liquidação; álbum somente possível para alguém que, naquele mesmo ano, cravou a sintética Parque Industrial no LP manifesto Tropicália ou Panis Et Circenses. Com síntese exemplar, estão nessas duas estrofes de Quero Sambar…, intenções épicas de Tom Zé – e não por acaso ele tem uma canção chamada Complexo de Épico . Estão também, nessas duas quadras, o ímpeto irrevogável do direito de sambar e, na cadência do samba torto de Tom, o direito empírico do brasileiro comum de se reconhecer.

Está também, na última das duas quadras de Quero Sambar…, o desejo inconfesso de transcender a sina de um País interditado pelo ímpeto de retrocesso que, a despeito da inconteste vocação para infinitas marchas à ré históricas, também é feito de gente que tem sangue de gasolina fervendo num copo d’água e de olhos abertos para o pára-brisas do futuro. Gente com pretensão evolutiva, que tampouco está contente em cultivar fossa ou tradição embalsamada. Gente como Tom Zé, que, da sabedoria monumental acumulada em seus 82 anos de vida, ainda nos brinda, nos palcos e nos estúdios, com a irreverência sagaz de sua grande música.

Ouçam a íntegra de Grande Liquidação – e fiquem de ouvidos em riste para intervenções geniais como Glória, Não Buzine Que eu Estou Paquerando, Curso Intensivo de Boas Maneiras e Namorinho de Portão.

Boas audições e até a próxima Quintessência!

A banda francisco, el hombre. Foto: Divulgação / Natura Musical

Em novo videoclipe, francisco, el hombre aborda o luto e defende a doação de orgãos

‘O Tempo é Sua Morada’, primeira canção revelada do segundo álbum da banda, fala de formas de superação e ressignificação da perda de entes queridos

Postado em 05/11/2018 por

Depois do sucesso de SOLTASBRUXA (2017), álbum de estreia da banda, a francisco, el hombre prepara agora seu segundo trabalho, previsto para ser lançado no começo de 2019 com apoio do projeto Natura Musical.

A espera dos fãs, no entanto, foi amenizada na última sexta-feira (2), com o lançamento do primeiro single do futuro álbum. Trata-se da canção O Tempo é Sua Morada, divulgada em um videoclipe com direção e roteiro da dupla Los Pibes, formada por Raphael Pamplona e Caio Amantini.

A escolha de 2 de novembro, o Dia de Finados, para o lançamento do videoclipe não foi casual, uma vez que a letra e a peça audiovisual abordam tema dos mais densos, o luto e o desafio de aprender a ressignificar esse difícil ritual de passagem.

Veja o clipe de O Tempo é Sua Morada

“A minha maior perda foi a da minha mãe e, desde 2011, tento escrever sobre ela de maneira positiva, mas sem muito sucesso. Ao celebrar a sua memória e trocar o ângulo das saudades, cheguei em um lugar de cura e a ferida cicatrizou”, conta Juliana Strassacapa, vocalista e percussionista da francisco el, hombre, também autora da letra de O Tempo é Sua Morada.

“Após muitas pesquisas, chegamos a conclusão de que a melhor maneira para falar sobre a ressignificação da morte seria mostrar que ela pode ser, ao mesmo tempo, o fim para uma pessoa e o começo para outra”, comenta o codiretor Raphael Pamplona.  “O vídeo trata da aceitação do personagem, que briga consigo o tempo todo. A sua luta é para lidar com o sofrimento que é a morte da sua esposa, deixando-a livre para ir embora”, completa Caio Amantini.

Com a trama narrada no videoclipe, a banda também sai em defesa da doação de órgãos como forma de amenizar a perda de entes queridos graças à perspectiva de que sua permanência simbólica pode habitar o corpo de outro ser humano que hoje luta por sua vida.

Em julho de 2017, pouco depois de lançar SOLTASBRUXA,  francisco, el hombre se apresentou no Estúdio Showlivre como destaque de um projeto em parceria com a revista Rolling Sonte.

Confira o show na integra

 

A cantora e compositora Cátia de França em peça promocional de ’20 Palavras ao Redor do Sol’, seu primeiro álbum. Foto: Divulgação / Epic

OPINIÃO EM PAUTA
As canções ‘queimadas de sol, negras e profundamente nordestinas’ de Cátia de França

‘20 Palavras ao Redor do Sol’, álbum de estreia da cantora, compositora e multi-instrumentista paraibana, é um arrebatamento de lirismo agreste e universal

Postado em 01/11/2018 por

Os adjetivos atribuídos ao cancioneiro singular da paraibana Cátia de França no título deste quarto episódio da agora rediviva coluna Quintessência (leia as reportagens anteriores), foram, na verdade, cunhados pela própria artista. Argumento sustentado em reportagem publicada na edição de março de 1980 da extinta revista Música. Em depoimento à repórter Elizabeth Costa, Cátia, sem o menor receio de soar cabotina, afirma que suas composições são “queimadas de sol, negras e profundamente nordestinas”.

Naquele momento de afirmação de seu talento arrebatador, depois de conquistar um público jovem atento à efervescente cena musical nordestina dos anos 1970 com seu primeiro álbum, o belíssimo 20 Palavras ao Redor do Sol, ninguém haveria de duvidar da legitimidade do depoimento de Cátia, espécie de trovadora dotada do dom alquímico de fundir tradição e modernidade, espécie de Bob Dylan em corpo feminino que decidiu dar umas bandas por nosso agreste armorial.

Lançado em 1979, 20 Palavras ao Redor do Sol foi editado pela Epic/CBS, multinacional que não hesitou em seguir a recomendação de uma nascente estrela de seu cast, um conterrâneo da artista paraibana estourado em todo Brasil, o cantor e compositor Zé Ramalho, que além de apadrinhar a amiga teve também carta branca para, ao lado de Carlos Alberto Sion (produtor de, entre outros, o próprio Zé, Amelinha Fagner e Pepeu Gomes), dirigir a produção do LP, item cada vez mais raro em sua edição original, hoje inflacionada em rodas de colecionismo.

Antes de falar do tema central desta edição de Quintessência, o 54° de cem álbuns lançados entre 1960 e 1980, justo é traçar uma minibiografia desta artista personalíssima. Nascida em João Pessoa em 13 de dezembro de 1947, de ascendência miscigenada – negra, indígena, árabe e judia – Cátia despontou na cena cultural da capital paraibana no final dos anos 1960, quando surgiu tímida, assombrada com a missão de encarar o público em pequenos festivais locais.

Filha da professora Adélia França, que, segundo Cátia, a “alfabetizou cantando”, aos 4 anos de idade a futura artista ganhou seu primeiro piano de brinquedo que, aos 12, foi vertido em um instrumento de verdade. Em entrevista ao repórter Raphael Vidigal, publicada no site Esquina Musical, em julho de 2016, Cátia recordou o episódio que, às vésperas da adolescência, potencializou suas aspirações artísticas.

“Minha mãe era professora, tem até escola e rua com nome dela na Paraíba. Ela foi a primeira educadora negra. Em casa faltava manteiga, mas tinha livro. Monteiro Lobato, O Pequeno Príncipe. Convivi com isso, a tendência era amar a literatura e até hoje é uma coisa que me transforma. Ganhei um pianinho com 4 anos, não como uma imposição, mas para aprender a amar o instrumento. Com 12, ganhei um piano que tenho até hoje. Minha mãe, com salário de professora, me deu um piano alemão legítimo. Naquela época, quem tinha filho homem queria que ele tocasse violino, filha mulher era pra tocar piano.”

O piano alemão, no entanto, foi só o estopim para a descoberta de outros instrumentos, uma vez que Cátia, para a sorte de nós, ouvintes, frustra o desejo da mãe de que ela aposte em uma formação clássica, de concertista.

Pouco depois, a menina também se aventura pela miríade harmônica do violão, as sutilezas da flauta transversal, os baixos e teclas hipnóticos da sanfona e a prosódia particular da percussão nordestina, expressa, sobretudo, na tradição sincopada da zabumba e do triângulo.

Depois de migrar para o Recife, quando, atendendo ao interesse de sua mãe, ingressa em um colégio interno protestante, mas logo deixa claro para a matriarca o sentimento de deslocamento que a consumia naquele ambiente, com o incentivo de um amigo de Adélia, o jornalista Diógenes Brayner, também reconhecido localmente como grande poeta, Cátia passa a frequentar os meios culturais da capital pernambucana e a emendar o processo de escrita de suas primeiras canções.

Ao ingressar no grupo de folclore da Fundação Artístico-Cultural Manuel Bandeira, faz uma breve viagem por países da Europa. Em 1970, defendendo uma parceria com Brayner, apesar da confessa timidez e temor do público, conquista o IV Festival Paraibano de MPB com a composição Mariana, depois registrada em um compacto duplo com as quatro finalistas do evento.

De volta ao Recife, conhece o dramaturgo e artista brincante Antônio Nóbrega e começa então a estudar teatro. A aproximação com o universo das artes cênicas e a exuberância de seu talento musical naturalmente a colocam na posição de curinga para assinar trilhas sonoras e conduzir a sonoplastia de vários espetáculos.

Da capital pernambucana, Cátia parte para o Rio de Janeiro e se aproxima do dramaturgo Luiz Mendonça, renomado artista da geração de autores e diretores que, nos anos 1970, defendeu um teatro de temática ligada à realidade do povo brasileiro, como Vianinha, Paulo Pontes e Augusto Boal. Colaborando com a companhia de Mendonça, Cátia faz uma imersão, entre 1974 e 1976, na cena teatral do eixo Rio/SP.

Como instrumentista, sonoplasta e diretora musical, deixou sua marca em espetáculos consagrados pelo público e pela crítica, como Lampião no Inferno (escrito por Jairo Lima e montado no Rio de Janeiro, no Teatro Miguel Lemos, em 1975, com Tonico Pereira e o legendário travesti Madame Satã no elenco), Viva o Cordão Encarnado (escrita por Luiz Marinho e montada, também em 1975, no Teatro Aplicado, em São Paulo)  e Canção do Fogo (também de Jairo Lima, apresentada, em 1976, ao público do Teatro Experimental Cacilda Becker, no Rio de Janeiro). Com o grupo de Mendonça, também compõe, em São Paulo, a trilha sonora da peça Feira Livre, baseada em poemas do autor, o dramaturgo Plínio Marcos. No cinema, colabora com a trilha sonora do filme Cristais de Sangue (1975), de Luna Alkalay (em 1983, Cátia também assina a trilha de Paraíba, Mulher Macho, de Tizuka Yamasaki).

Em paralelo ao teatro, Cátia, que, na Paraíba, já havia trabalhado como secretária, vendedora de livros, professora de música e repórter, também tenta emplacar, sem sucesso, uma carreira na TV carioca: “Cheguei com medo, mas não desesperada. Procurei a TV Globo com uma carta de apresentação, e tudo que consegui foi um convite para fazer ponta em uma novela. Tentei então o jornalismo e comecei a sentir que as coisas aqui não seriam fáceis”, recordou, em 1980, na entrevista à Elizabeth Costa.

Em reportagem anterior, não creditada, mas publicada na mesma revista Música, em março de 1978, Cátia relembra que assim que chegou ao Rio de Janeiro colaborou, como instrumentista, em shows de Zé Ramalho, Amelinha e Sivuca. Nesses primeiros dias de “Sul Maravilha”, como o Sudeste do País era então chamado pelos irmãos nordestinos, também tentou a sorte em um dos mais famosos shows de calouros do País, o programa do apresentador Flávio Cavalcanti. Selecionada para a final, assinou um contrato com a Rádio Difusora de Caxias, percebendo um diminuto cachê mensal de 300 cruzeiros, a moeda da época. Exaurida com o sofrível deslocamento de quase quatro horas de ônibus, ida e volta, Cátia desiste de cumprir o prazo inicial de dois meses.

Em junho de 1977, acompanhada de Vital Farias e Zé Ramalho, faz uma temporada de grande sucesso no auditório do Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), com o show Pessoal da Paraíba. Pouco depois, também na capital fluminense, no Parque Lage, emplaca um espetáculo colaborativo com outros ases de sua geração: Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, Mirabô, Marlui Miranda e Xangai, além dos amigos Vital Farias e Zé Ramalho.

No ano seguinte, ainda no Rio, divide palco com Nara Leão e Dominguinhos e adere ao Movimento Aberto de Arte, idealizado pelo cantor e compositor cearense Tharcísio Rocha. Na reportagem de 1978 à revista Música, Cátia fala sobre a experiência, então em curso.

“O Movimento Aberto foi criado para dar vez aos compositores novos. Funciona como uma amostragem e, em termos de receptividade, o trabalho está indo bem. Agora estou transando apresentações em universidades, mostrando o meu trabalho, que é um reflexo da consciência que tomei. Jogo uma linguagem que eu conheço, da minha terra. Mostro embolada, xote, baião. E eu tenho feito os trabalhos em cima de José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto. Porque ambos têm muito a ver comigo, já que um é paraibano e o outro pernambucano.”

 

katia-de-frança-gereba-e-capenga_vocalista-e-violonista_baixista-do-grupo-bendengó_2 As canções 'queimadas de sol, negras e profundamente nordestinas' de Cátia de França

Cátia de França e os amigos Gereba e Capenga, respectivamente vocalista e violonista e baixista do grupo Bendegó. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal

 

Aproveitando o gancho da citação ao gigante poeta pernambucano, voltemos, pois, ao tema central deste episódio de Quintessência. Muitos ouvintes que já tiveram a felicidade de conhecer o álbum não devem saber, mas o título 20 Palavras ao Redor do Sol foi sabiamente emprestado por Cátia de Graciliano Ramos*, não o escritor, mas o sublime poema-tributo de João Cabral endereçado ao amigo alagoano e publicado no livro Terceira Feira, em 1961. A citação pinçada por Cátia está presente no primeiro quadrante da poesia, em que João afirma: “Falo somente como o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do Sol que as limpa do que não é faca”.

Em 20 Palavras ao Redor do Sol, influências literárias de cronópios da cultura nordestina, como Cabral, Graciliano, José Lins, são verbalizadas, em uníssono, com a exuberância musical de talentos do mesmo Nordeste, como os paraibanos Zé Ramalho e Sivuca e os pernambucanos Dominguinhos e Bezerra da Silva (em sua faceta percussiva de Rei do Coco). Na prosódia singular produzida por Cátia, também ressoam as “vozes” de dois virtuosos músicos cariocas, o grande Chico Batera e o guitarrista Lulu Santos, então integrante do grupo de rock progressivo Vímana.

Ao longo de 40 minutos e cinco segundos, por meio de joias como O Bonde, faixa de abertura, Quem Vai Quem Vem, tema subsequente, a canção que nomina o álbum, Kukukaya – Jogo da Asa da Bruxa (também sucesso na voz da conterrânea amiga Elba Ramalho), Coito das Araras (gravada por Amelinha) e Eu Vou Pegar o Metrô (parceria com Lourival Lemes), 20 Palavras ao Redor do Sol consagra a poética agreste, negra, queimada pelo Astro Rei e profundamente nordestina de Cátia de França, que impõe seu álbum como uma das mais belas estreias da música popular produzida no País na década de 1970. Experiência que também pode ser percebida no LP posterior da artista, o não menos inspirado Estilhaços, lançado em 1980, pela mesma Epic/CBS. Arrebatamento garantido ou sua insensibilidade de volta.

Boas audições e até a próxima Quintessência!

Ouça o álbum 20 Palavras ao Redor do Sol

 

*MAIS
Leia, na íntegra, o poema Graciliano Ramos, de João Cabral de Melo Neto

Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca:
de toda uma crosta viscosa,
resto de janta abaianada,
que fica na lâmina e cega
seu gosto da cicatriz clara.

Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre:
que reduz tudo ao espinhaço,
cresta o simplesmente folhagem,
folha prolixa, folharada,
onde possa esconder-se na fraude.

Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga
em que só cabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.

Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho:
que é quando o sol é estridente,
a contrapelo, imperioso,
e bate nas pálpebras como
se bate numa porta a socos.

 

Da esq. para a dir., John Sterry, Andy Gill e Thomas McNeice. Foto: Divulgação / Gill Music Ltd.

Ícone do pós-punk, Gang of Four volta ao Brasil para três shows em SP

Banda britânica volta ao País, pela terceira vez, e se apresenta em unidades do Sesc na capital paulista e em Ribeirão Preto

Postado em 30/10/2018 por

Uma das bandas mais influentes da cena britânica dos anos 1970, a Gang of Four, volta ao Brasil, pela terceira vez, para duas noites de shows em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro, no Sesc Pompeia, e única apresentação, no dia 24, na unidade de Ribeirão Preto.

Com passagens em 2006, no festival Campari Rock, pouco depois de voltar à ativa e encerrar um hiato de sete anos , e em 2011, quando se apresentou no Festival Cultura Inglesa, o Gang of Four volta ao País com trazendo apenas um integrante da formação original, o guitarrista, compositor e vocalista Andy Gill.

Em 2012, em passagem individual, Gill participou do tributo à Legião Urbana em que o ator Wagner Moura substituiu Renato Russo, o ex-líder da banda, morto em outubro de 2006, em decorrência de AIDS. A participação de Gill no tributo resultou de um convite feito por Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, respectivamente baterista e guitarrista do grupo brasiliense.

Fãs da Legião Urbana que também conhecem a discografia do Gang of Four certamente entenderam as razões do convite. Formada em 1976, em Leeds, no norte da Inglaterra, o grupo liderado por Gill é uma das maiores referências do pós-punk, sub-gênero criado no final dos anos 1970 e de estética perseguida por Russo em parte significativa das composições da Legião Urbana, sobretudo em álbuns inaugurais, como Legião Urbana (1985) e Dois (1986).

Com uma improvável estética que fundia letras politizadas a elementos aparentemente díspares, como as guitarras minimalistas do punk rock, a cozinha à frente do dub jamaicano e os grooves hipnóticos do funk, o Gang of Four abriu caminho para um sem-número de bandas influenciadas pela vanguarda estilística do grupo, registrada em clássicos do pós-punk britânico como os dois primeiros álbuns, Entertainment! e Solid Gold. Mesmo distintas em sonoridade, bandas como R.E.M, Red Hot Chilli Peppers, Rage Against The Machine, Nirvana e Morphine, manifestaram inspiração no Gang of Four.

O culto à banda britânica culminou, no começo dos anos 2000, no surgimento de bandas explicitamente devotas do Gang of Four, como The Rapture, Block Party, Strokes e Franz Ferdinand. Fenômeno que potencializou a redescoberta da banda por uma nova geração de ouvintes, uma vez que, em paralelo, também ocorria a ascensão da cultura de downloads de arquivos em mp3.

Além de faixas de Entertainement (1979) e Solid Gold (1981), as duas apresentações em São Paulo contarão com releituras de álbuns como Songs of The Free (1982)Shrinkwrapped (1995), Content (2010) e do mais novo EP da banda, o recém-lançado Complict. Nos dois shows, Andy Gill dividirá o palco com John “Gaoler” Sterry (voz), Thomas McNeice (contrabaixo) e Tobias Humble (bateria). Em 13 de novembro, o ingressos começam a ser vendidos online e, no dia 14, estarão disponíveis nas bilheterias das unidades do Sesc. Para o público da cidade do interior paulista, as vendas terão iníco em 6 e 7 de novembro. Confira mais detalhes no site oficial do Sesc.