Marcelo Pinheiro


Jornalista, editor-chefe do site do Showlivre.com. Colecionador de discos de 7, 10 e 12 polegadas, nas horas vagas ataca de dublê de disc jockey e músico amador

Detalha da ilustração de Guido Albery para a capa do álbum de 1969 de Jorge Ben Jor. Foto: Divulgação / Philips

Dez álbuns de MPB que completam 50 anos em 2019 e continuam moderníssimos

Ano de ouro para o nascente gênero, 1969 foi marcado por lançamentos de, entre outros, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Gal Costa e Milton Nascimento

Postado em 09/01/2019 por

Nem mesmo o peso dos dias de terror inaugurados com o recém-decretado Ato Institucional nº 5 pôde conter a força criativa que transformou o ano de 1969 em um dos mais inventivos para a trajetória da nascente MPB – ao leitor que estranhar o termo “nascente”, vale lembrar que o rótulo MPB, sucessor de MPM (Música Popular Moderna), foi cravado três ou quatro anos antes, com o advento dos festivais da canção organizados no eixo Rio/São Paulo e em diversas capitais do País.

Com o decreto do AI-5, que teve como consequência imediata a escalada de episódios de tortura e mortes a opositores do regime então liderado pelo general Costa e Silva, para artistas de opinião mais contundente, taxados pelos militares de “subversivos”, a saída mais segura foi abandonar o Brasil e partir para o exílio no exterior. Decisão recomendada por seus algozes e acatada por Gilberto Gil e Caetano Veloso, que foram presos em 27 de dezembro de 1968 e permaneceram encarcerados por dois meses, quando foram libertos na Quarta-Feira de Cinzas de 1969. Decisão que, entre outros grandes artistas, também norteou a partida de Chico Buarque e de Edu Lobo – respectivamente radicados em Roma, na Itália, e em Los Angeles, nos Estados Unidos – de seu amado País

Antes de saírem de cena, Gil e Caetano, no entanto, colocaram na praça dois LP epônimos que marcaram suas carreiras. O LP de Caetano ficou conhecido como ‘álbum branco’, graças ao despojamento da capa com explícita alusão ao LP lançado pelos Beatles no ano anterior; de arte gráfica não menos inspirada, assinada por Rogério Duarte, o álbum de Gil ganhou o apelido de ‘Cérebro Eletrônico’, título emprestado da faixa que involuntariamente se tornou espécie de carro-chefe do LP.

Para chancelar a constatação de que 1969 foi mesmo um ano mágico para a MPB, selecionamos a seguir, além desses dois álbuns de Gil e Caetano, outros oito títulos que, 50 anos depois, ainda exalam o mesmo frescor de modernidade a eles atribuído com precisão, meio século atrás,  por críticos e ouvintes atentos.

Gal Costa – Gal Costa
Nossa lista começa com cinco dos mais emblemáticos álbuns do tropicalismo. Todos lançados pela Philips e marcados pela produção inventiva de Manoel Barenbein. O primeiro deles, a imponente estreia solo de Gal Costa, álbum epônimo editado dois anos depois de a cantora dividir com o amigo Caetano Domingo, o singelo LP nitidamente influenciado pela bossa nova de João Gilberto, guru de ambos. Neste primeiro álbum solo de Gal, a inspiração da bossa ainda é patente, mas a intérprete que surge dos sulcos do vinil é radicalmente diferente da cantora comedida de outrora. A partir deste álbum, pelo contrário, Gal não hesita em soltar a enorme voz (guinada ainda mais explicita no anárquico álbum seguinte, informalmente chamado de Cultura e Civilização e também lançado em 1969). No repertório, maravilhas como Não Identificado, de Caetano, Namorinho de Portão, de Tom Zé, Vou Recomeçar, de Roberto e Erasmo Carlos, Divino, Maravilhoso, de Caetano e Gil, e Deus é o Amor, uma pequena pérola de Jorge Ben Jor jamais gravada por ele. Entre os artistas escalados para a gravação, um pessoal da pesada, parafraseando Gal, marca presença, com destaque para Lanny Gordin, Rogério Duprat, Jards Macalé e Gilberto Gil.


Gilberto Gil – Cérebro Eletrônico
Emblemático desde o projeto gráfico assinado pelo saudoso Rogério Duarte, o álbum que antecede a partida de Gil para o exílio em Londres também conta com a presença de Lanny Gordin e Rogério Duprat (respectivamente nas guitarras e nos arranjos, é claro), e reúne ainda um duo de craques da música instrumental da época na execução dos nove temas: o baterista Wilson das Neves, que dispensa apresentações, e o contrabaixista Sergio Barroso, ex-integrante do Rio 65 Trio de Dom Salvador e do Trio 3-D de Antonio Adolfo, que também foi curinga de feras como Marcos Valle, Maysa, Wanda Sá e Roberto Menescal. Com faixas arrebatadoras como Volks Volkswagen Blues, Aquele Abraço, Vitrines e Objeto Semi-Identificado, o álbum de Gil se impõe como um dos pontos altos do rebuliço estético proposto pelo tropicalismo. Obrigatório!

Caetano Veloso – Álbum Branco
Também contando com a cozinha de Barroso e Das Neves, a guitarra explosiva de Lanny, os arranjos arrebatadores de Duprat e a direção precisa de Barenbein, o “álbum branco” de Caetano Veloso, título que também antecede a partida do baiano para o exílio em Londres, tem repertório dos mais primorosos. Destaque para as sutilezas e o sabor agreste de faixas como Irene, Empty Boat, Objeto Não Identificado, Os Argonautas e Acrilírico.

Jorge Ben – Jorge Ben
Carinhosamente apelidado pelos fãs de ‘Flamengo’ por causa da incrível arte gráfica do italiano Guido Albery, o álbum epônimo lançado por Jorge Ben, como assim o artista se denominava em 1969, sela o retorno de Ben Jor ao selo Philips e é também o marco zero da impressionante parceria do Babulina com o som energético do Trio Mocotó, formado por Fritz Escovão (voz e cuíca), Nereu Gargalo (pandeiro e voz) e João Parahyba (percussão e voz). A explosão de suingue que resulta do feliz encontro ainda ganhou o padrão Rogério Duprat de sofisticação provocativa nos arranjos. Não por acaso, sem jamais manifestar filiação a qualquer movimento estético, temos aqui um dos melhores registros do tal som universal proposto pelos tropicalistas. Faixas como Take it Easy my Brother Charles, Bebete Vãobora, Criola e Cadê Teresa? seguem conquistando a admiração de fãs no Brasil e ao redor do mundo.


Mutantes – Mutantes
O clichê de que o segundo álbum é sempre um grande desafio para bandas que fizeram excelentes trabalhos de estreia cai por terra quando se ouve na sequência os dois primeiros LPs d’Os Mutantes. Outro tesouro da cepa radical de Manoel Barenbein para a Philips, o segundo registro fonográfico do trio paulistano formado por Arnaldo Baptista (contrabaixo), Sérgio Dias (guitarra) e Rita Lee (voz) conta também com a presença essencial do baterista Dinho Leme. Nas 11 faixas, tesouros do psicodelismo Made in Brasil como 2001 e Qualquer Bobagem (ambas de Tom Zé), Dia 36, Caminhante Noturno, Algo Mais e Não Vá Se Perder Por aí (faixas de autoria do grupo) e uma impagável releitura de Banho de Lua, de Celly Campello.


Marcos Valle – Mustang Côr de Sangue ou Corcel Cor de Mel
Um dos álbuns mais cultuados da discografia de Marcos Valle, Mustang Côr de Sangue também registra algumas das mais inspiradas letras do irmão do compositor, o poeta e fiel parceiro Paulo Sergio Valle. Com críticas cifradas aos excessos cometidos pelos militares, como as denúncias de tortura e desaparecimentos, o LP também escancara a alienação desenfreada da sociedade de consumo. Para além do poder lírico, o disco retrata Marcos em momento dos mais inventivos, fazendo uso de novos instrumentos elétricos e eletrônicos e extrapolando seu suingue com o amálgama de gêneros locais e estrangeiros como o funk, o samba, o baião, a soul music, a bossa, o jazz e o frevo. Alquimia que fica ainda mais sofisticada com a batuta de maestros como Lyrio Panicalli, Laércio de Freitas, Eumir Deodato e Orlando Silveira assinando os arranjos. Essencial!


Elis Regina – Como & Porque
Um dos melhores trabalhos de Elis Regina para a Philips, Como & Porque reúne releituras de clássicos como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, O Sonho, de Egberto Gismonti, Casa Forte, de Edu Lobo, Canto de Ossanha, o afro-samba de Baden e Vinicius, O Barquinho, de Bôscoli e Menescal, e Andança, de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós. Com arranjos de Erlon Chaves e Menescal e produção de Armando Pittigliani, Como & Porque, que tem a imagem da capa assinada pelo também saudoso fotógrafo Paulo Garcez, d’O Pasquim, conta com a elegância do super-grupo que então escoltava Elis, formado por Antonio Adolfo, Hermes Centesini, Menescal, Erlon e Wilson das Neves. Um primor!

Os Originais do Samba – Os Originais do Samba
Estreia das mais inspiradas do gênero mais popular do Brasil no final dos anos 1960, o primeiro álbum d’Os Originais do Samba, lançado pela RCA Victor em 1969, conta com direção artística do craque Wilson Miranda e reúne pérolas do suingue de diferentes períodos, como Sei Lá, Mangueira, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola, Larga Meu Pé, Reumatismo, de Ataulfo Alves, Canto Chorado, de Billy Blanco, O Rapaz do Violão, de Dida, e uma versão matadora de Cadê Tereza, lançada naquele  mesmo ano por Jorge Ben Jor. Pra quem “conhece” o grupo pela participação do saudoso Mussum, mas não se aprofundou na discografia do Originais do Samba, temos aqui um título obrigatório.


Wilson Simonal – Alegria! Alegria! Vol.4
Último capítulo da “quadrilogia” emplacada por Wilson Simonal na deliciosa fase Pilantragem, Alegria! Alegria! Vol. 4 fecha com chave de ouro a mistura irresistivelmente dançante explorada pelo genial cantor com o auxilio luxuoso do Som Três de Cesar Camargo Mariano (piano e orgão Hammond B-3), Sabá (contrabaixo) e Toninho Pinheiro (bateria). Com arranjos de Cesar, Antonio Adolfo, Erlon Chaves e do maestro Lyrio Panicalli, que também assina a direção musical do álbum, Alegria! Alegria! Vol.4 traz registros impecáveis de Simonal na interpretação de faixas como Porque Hoje é Domingo (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), Olho D’Água (Nonato Buzar e Paulinho Tapajós), Quem Mandou (Eduardo Souto e Sérgio Bittencourt), Que Maravilha e País Tropical (Jorge Ben Jor). Um barato!


Milton Nascimento – Courage
Feito especialmente para o público norte-americano, Courage escancara a universalidade da música de Milton Nascimento. Gravado no legendário Van Gelder Studios, em Nova Jersey, o álbum foi produzido por ninguém menos que Creed Taylor, responsável por um sem-número de títulos históricos do jazz lançados por gravadoras como Verve, A&M e CTI Records, seu próprio selo. Com arranjos de Eumir Deodato, Courage contou com a presença de outros grandes figurões da indústria fonográfica dos EUA, entre eles, o pianista Herbie Hancock e o flautista Hubert Laws. Consagrado naquele país, o percussionista brasileiro Airto Moreira também enriquece as teias instrumentais de faixas como Travessia (Bridges), Rio Vermelho, Morro Velho, Catavento e Canção do Sal. Beleza em estado bruto!

MAIS
Se você curte MPB, não pode deixar de conferir a lista que preparamos com os melhores shows de artistas do gênero no Estúdio Showlivre. Entre os destaques, Mariana Aydar, Bia Ferreira, Melvin Santhana e Saulo Duarte.

 

O trompetista norte-americano Miles Davis. Foto: Divulgação / Blue Note

Miles, Coltrane e Brubeck: projeto do Sesc apresenta releituras de clássicos do jazz

Shows na unidade 24 de Maio, em SP, serão baseados nos álbuns ‘Kind of Blue’, ‘Time Out e A Love Supreme’

Postado em por

A história do jazz moderno no século 20 não seria a mesma sem os caminhos de vanguarda propostos por álbuns divisores como Time Out, o imponente trabalho lançado pelo pianista Dave Brubeck em 1959, Kind of Blue, a obra-prima emplacada naquele mesmo ano pelo trompetista Miles Davis, e A Love Supreme, o monumental álbum de cunho espiritual lançado pelo saxofonista John Coltrane em 1964. Oportunidade rara, nos dias 17, 18 e 19 de janeiro, os fãs de jazz da capital paulista terão a chance de ver esses três trabalhos executados na íntegra por músicos locais que sofreram grande influência dessa trinca de ases do jazz norte-americano. As apresentações serão realizadas na unidade 24 de Maio do Sesc, sediada no centro de São Paulo.

Na quinta-feira (17), Débora Gurgel (piano), Edu Ribeiro (bateria), Nailor Proveta (saxofone) e Paulo Paulelli (contrabaixo) reformulam o quarteto que, sob o comando de Dave Brubeck, trouxe à tona standards como Take Five e Blue Rondo a La Turk. Na sexta-feira (18), Cássio Ferreira (saxofone), Leandro Cabral (piano), Alex Buck (bateria) e Brino Migotto (contrabaixo), encaram a difícil tarefa de reproduzir a elevada atmosfera alcançada por Coltrane nos quatro movimentos da suíte devocional batizada de A Love Supreme. No sábado (19), Walmir Gil (trompete), Rodrigo Ursaia e Vitor Alcântara (saxofones), Sidiel Vieira (contrabaixo) e Cuca Teixeira (bateria) revisitam os cinco temas (So What, Freedie Freeloader, Blue in Green, All Blues e Flamenco Sketch) que tornaram o sessentão Kind of Blue um dos álbuns mais influentes da história do jazz.

Com ingressos populares, de R$ 9 a R$ 30, os shows serão realizados no palco do teatro do 1° subsolo do Sesc 24 de Maio. O projeto foi idealizado pelo produtor cultural Lupa Santiago, também um dos mais importantes guitarristas da cena contemporânea de jazz brasileiro.

MAIS

Ouça o álbum Kind of Blue  

Ouça o álbum A Love Supreme 

Ouça o álbum Time Out 

Veja apresentação de Jonathan Ferr e seu trio no Estúdio Showlivre. O pianista carioca é celebrado como um dos grandes talentos do jazz brasileiro recente

Veja apresentação da Nômade Orquestra no Estúdio Showlivre. Majoritariamente formada por músicos do ABC Paulista, a big-band é uma das mais respeitadas do cenário atual e já lançou dois álbuns pelo selo britânico Far Out Recordings

 

 

 

 

 

 

O cantor e compositor carioca Luiz Melodia. Foto: Divulgação / Site Oficial

O talento de Luiz Melodia em dez vídeos raros e emocionantes

Morto em agosto de 2017, o Poeta do Estácio completaria 68 anos nesta segunda-feira (7). Seleção inclui registros divulgados entre as décadas de 1970 e 1990

Postado em 07/01/2019 por

Nesta segunda-feira (7), Luiz Melodia completaria 68 anos. Morto em 4 de agosto de 2017, aos 66 anos, o cantor e compositor foi vitimado por um câncer de medula óssea e deixou saudade para milhões de fãs, além, é claro, de familiares como sua ex-mulher, a produtora cultural e sua empresária, Jane Reis, e seu filho, o rapper Mahal Reis.

Intérprete e compositor de talento e elegância ímpares, conhecido como “Poeta do Estácio”, Luiz Carlos dos Santos, nome de batismo de Luiz Melodia, nasceu, em 7 de janeiro de 1951, no Morro de São Carlos, um dos berços do samba carioca, erigido nas encostas do bairro do Estácio, na zona norte do Rio de Janeiro.

E foi justamente no Morro de São Carlos que aconteceu a descoberta de sua enorme vocação para a música. Melodia, jovem esquálido e de voz potente e sedutora, tinha apenas 19 anos quando recebeu ali a ilustre visita do também poeta Waly Salomão.

Astuto, o bom baiano subiu o morro atrás de segredo dos mais quentes: chegou lá por recomendação de sua amiga Rose, habituée das rodas de samba do São Carlos que ficou fascinada ao conhecer a leva de brilhantes composições apresentadas pelo jovem músico local.

Estarrecido com a força criativa de Luiz, que já havia se aventurado em grupinhos de rock como Os Instantâneos e Os Filhos do Sol, Waly saiu em campanha de projeção do nome do compositor, inserindo o rapaz nos meios influentes da zona sul carioca.

Não tardou para a novidade ser reverberada por outro grande poeta, o também jornalista piauiense, Torquato Neto, em sua coluna Geleia Geral do jornal Última Hora. Logo, escoltado por seu inseparável violão, Luiz passou a frequentar encontros musicais nas casas de Suzana de Moraes, filha de Vinicius, e do “maldito” Jards Macalé, que tornar-se-ia um de seus melhores amigos.

Mas a maior vitrine alcançada por Melodia naquele ano de 1971 foi mesmo o show Fa-Tal – Gal a Todo Vapor. Bastou uma apresentação de Pérola Negra, feita pessoalmente pelo próprio autor por recomendação de Waly, para que Gal se apaixonasse pela canção e emprestasse sua voz pungente a uma interpretação carregada de emoção naquele novo show.

Produzido pelo poeta baiano, então sob o pseudônimo Waly Sailormoon, o espetáculo tornou-se grande sucesso de público no Teatro Thereza Rachel, em Copacabana, ganhou registro no LP Fa-Tal – Gal a todo vapor e colocou de vez o nome de Luiz Melodia na boca da juventude carioca (a alcunha artística do ascendente artista foi, aliás, adotada em reverência a seu pai, o sambista Osvaldo Melodia, um dos bambas do Morro de São Carlos).

Em 1973, por recomendação do instrumentista e arranjador baiano Perinho Albuquerque, prontamente acatada pelo sagaz diretor artístico da Philips, Roberto Menescal, Melodia entrou em estúdio para lançar seu cultuado álbum de estreia, Pérola Negra.

Em matéria do repórter Marco Aurélio Canônico publicada no jornal Folha de S. Paulo e comemorativa aos 40 anos do lançamento de Pérola Negra, Melodia relembrou aquele momento mágico e divisor, tempo de grandes transformações em sua vida. “Eu não tinha a fissura de ser artista. Gostava de tocar e de cantar, mas não pensava em ganhar a vida com música. Tive a felicidade de estar na hora e no local certos”, revelou.

Outro fator determinante para o sucesso imediato de Luiz Melodia foi o fato de ele estar então representado pelo empresário Guilherme Araújo, nome forte na indústria fonográfica e célebre por dar voz aos tropicalistas: “Eu tinha, de certa forma, costas bem quentes: ele (Guilherme) tinha todo mundo, o Caetano, o Gil, a Gal. Me tornei o caçula, tinha todo um aparato que confiei e foi consistente”, recordou Melodia ao repórter da Folha de S. Paulo.

Mas o sucesso imediato de Luiz Melodia não se deveu ao fato de ele estar esteticamente alinhado com as proposicões cerebrais dos tropicalistas. Longe de pretensões teóricas rigorosamente calculadas, seu singelo e arrebatdor álbum de estreia intuitivamente apresentava texturas acústicas que ora flertavam com estruturas do blues, outrora com a cadência energética do rock e com a síncopa do samba. Havia em Pérola Negra, o álbum, elementos antropofágicos de sobra, mas que se revelavam com sutileza muito distante das ações panfletárias e do rebuliço estético propostos pela trupe de Gil e Caetano.

Fato que evidenciou grande personalidade do compositor e que foi elevado às melhores consequências em Maravilhas Contemporâneas, seu segundo álbum, de 1976. Coordenado por João Araújo, o “poderoso chefão” da Som Livre e pai do futuro astro do rock Cazuza, o álbum foi lançado pelo selo global e produzido por Guto Graça Mello. Nele, é patente o acerto de escolhas de Melodia, que reuniu um time da pesada para o registro. A começar pelo par de arranjadores, Oberdan Magalhães, líder da Banda Black Rio (que também toca sax alto, tenor e flauta transversal, com exceção de Juventude Transviada, cuja flauta foi gravada por Pestana), e o multi-instrumentista Perinho Albuquerque.

Se Pérola Negra já havia escancarado o dom tamanho do compositor e letrista, em Maravilhas Contemporâneas essas facetas são ainda mais evidentes em faixas como CongênitoVeleiro Azul, o clássico instantâneo Juventude Transviada, grande sucesso de 1976, impulsionado por sua inclusão na trilha da novela Pecado Capital, e Questão de Posse. 

Pouco depois de lançar Maravilhas Contemporâneas, Melodia sofre um acidente automobilístico que o afasta dos palcos por quase um ano, adiando para 1977 o lançamento do álbum em uma agenda de shows celebrados por seus fãs e pela crítica musical. Em 1978, com o lançamento de Mico de Circo, o artista emplaca outro sucesso arrebatador, sua interpretação de A Voz do Morro, de Zé Keti.

Entre álbuns inéditos e de releituras de seu repertório, Luiz Melodia lançaria depois outros dez títulos. Em destaque estão álbuns como Felino (1983), Claro (1987) e Pintando o Sete (1991), este último consagrado com uma sublime releitura de Codinome Beija-Flor, de Cazuza e Ezequiel Neves.

Em 2007, com Estação Melodia, o artista prestou tributo a alguns de nossos maiores sambistas, entre eles Cartola (Tive Sim), Geraldo Pereira (Cabritada Mal-Sucedida), Ismael Silva (Contraste), Haroldo Lobo e Wilson Batista (Recado Que Maria Mandou). Em Estação Melodia, retrato inconteste de um grande intérprete, menino Luiz também reverenciou seu pai, ao interpretar a canção Não me Lembro à Toa.

O último álbum lançado por Luiz Melodia foi Zérima. Editado em 2014, o trabalho rendeu ao saudoso Melô a honraria de Melhor Cantor de MPB no Prêmio da Música Brasileira daquele ano. Em agosto de 2018, um ano depois da triste partida desse artista essencial, Zérima foi lançado em DVD e em álbum ao vivo, que pode ser ouvido abaixo no Spotify.

 

 

Para matar as saudades deste artista singular de nossa música, e também celebrar a passagem de seu 68° aniversário de nascimento, apresentamos a seguir uma seleção de dez raros registros audiovisuais de Luiz Melodia. São videoclipes originais de época e excertos de shows produzidos entre as décadas de 1970 e 1990.

Entre os registros, duas exceções que merecem marcar presença em nossa lista: um registro de Gal Costa, em 1973, no programa Gente, na atração da Rede Globo de TV, então apresentada por Jô Soares, a cantora interpreta Presente Cotidiano, composição gravada em seu LP Índia e que seria registrada pelo autor somente em 1979, no álbum Mico de Circo; veja também um raro take em Super 8 de Luiz Melodia, feito pelo cineasta e fotógrafo Mario Luiz Thompson em Porto da Barra, na Bahia – embora sem data informada, pelo cabelo de Melodia e pelos veículos flagrados no 8mm, o vídeo certamente foi gravado no decorrer da segunda metade dos anos 1970.

Juventude Transviada

Ébano

Presente Cotidiano (Gal Costa, 1973)

Revivendo


Dores de Amores

Luiz Melodia em Super 8 de Mário Luiz Thompson

Decisão

Presente Cotidiano

Pérola Negra

MAIS
Se você curte MPB, não pode deixar de conferir a seleção de melhores shows do gênero na temporada 2018 do Estúdio Showlivre.

Em seu perfil no Twitter, Keith Richards anuncia que, nesta terça-feira (18) em que completa 75 anos, irá ao ar uma entrevista que concedeu para o blog SiriusXM, de Theodora Richards, sua filha. Foto: Kevin Mazur / Reprodução Twitter Oficial

‘Pergunte ao Keith’: guitarrista dos Stones, que hoje completa 75 anos, responde a fãs em seu site

‘Você acredita em alienígenas?’, ‘se pudesse ter apenas uma guitarra, qual seria e por quê?’, são algumas das dúvidas. Saiba mais e ouça versões brasileiras da banda britânica

Postado em 18/12/2018 por

Você faria um álbum solo de blues? Você ainda curte tocar velhas canções? Porque você dificilmente usa pedais na guitarra? Você acredita em alienígenas? Se você pudesse ter apenas uma guitarra, qual seria e por quê?

Desde 2016, essas e outras dúvidas enviadas por fãs fazem parte do acervo de mais de cem vídeos e depoimentos de áudios registrados por Keith Richards em uma divertida seção de seu site batizada de Ask Keith (em português, Pergunte ao Keith).

Sobre a última questão, ter de escolher apenas uma guitarra, resposta previsível, o rolling stone fala de sua relação “matrimonial” com um dos legendários modelos criados por Leo Fender. “Teria que ficar com minha Telecaster. Isso porque a conheço muito bem… Não sei se ela é ‘ele’ ou ‘ela’, talvez um tipo de hermafrodita, mas se tivesse que ter apenas uma eu ficaria com a Telecaster, porque somos realmente casados”, brinca Richards.

Dias atrás, viralizou na internet a informação de que Richards, notório por seu longo histórico de excessos, deu ponto final ao consumo desenfreado de álcool. A informação, na verdade, data de março de 2018 e foi revelada em reportagem ao jornal irlandês The Independent.

Promessa da boca pra fora ou não, fato é que, desafiando estatísticas de sobrevivência a toda sorte de abusos de álcool e drogas, o legendário guitarrista dos Rolling Stones completa 75 anos nesta terça-feira (18).

Sem jamais perseguir a estética de “guitar-hero” que consagrou virtuosos como Jimmy Page, Jimi Hendrix ou Eric Clapton, Richards, no entanto, cravou seu nome na história da música como um dos mais influentes guitarristas na seara do bom e velho rock n’ roll.

Com uma mão direita carregada de ritmo e uma mão esquerda prolífica na criação de riffs antológicos, como os de (I Can’t Get No) Satisfaction, Start me Up, Brown Sugar, Rocks Off e Honky Tonky Woman, Richards jamais precisou de solos firulentos ou bends estridentes para afirmar seu estilo personalíssimo como sinônimo de rock em estado bruto. Lição de despojamento aprendida, é claro, com Chuck Berry, seu grande heroi.

“Como guitarrista, sei o que posso fazer. Para mim, não importa o que fazem os b.b. kings, eric claptons e mick taylors, porque eles fazem o que fazem, mas eu sei que eles não podem fazer o que eu faço. Eles podem tocar quantas notas quiserem sob o Sol, mas não conseguem segurar o ritmo, baby. Eu sei o que posso fazer e o que não posso. Tudo que faço é fortemente baseado no ritmo, porque é nisso que eu sou melhor. Eu tentei ser um grande guitarrista e, como Chuck Berry, falhei”, brincou Richards certa vez.

Em julho último, foram completados 56 anos desde a primeira apresentação dos Rolling Stones. Para alegria dos fãs, como bem sabemos, a banda mais longeva da história do rock continua na ativa. O relato abaixo, compilado por Richards na autobiografia Vida (Editora Globo, 2010) dá uma idéia de como foi o primeiro show da banda britânica e porque eles não abrem mão de continuar difundindo em alto e bom som o legado dos Stones.

“Um show! A banda do Alexis Korner tinha fechado uma data para fazer um programa da BBC ao vivo, no dia 12 de julho de 1962, e ele perguntou se a gente podia ir tocar no lugar dele, no Marquee. (…) Mick, Brian e eu, o núcleo dos Stones, tocamos nosso repertório básico: Dust my Broom, Baby What’s Wrong?, Doing the Crawdaddy, Confessin the Blues‘ e Got my Mojo Working. A gente se sentou lá, começou a tocar e de repente estávamos todos sorrindo: ‘Ooh, yeah!’. Essa sensação vale mais do que qualquer coisa no mundo.”

Nos 75 de Keith Richards, para demonstrar o quanto a influência dos Rolling Stones é também longeva no Brasil, destacamos, a seguir, três versões sessentistas de clássicos da banda britânica; duas em “bom” português, outra no idioma original.

Desnecessário desejar  (afinal, existe até um meme com a deliciosa chacota “que mundo restará para Keith Richards quando suas filhas partirem?”), mas vida longa ao mestre da Telecaster!

Os Baobás – Pintada de Preto

The Brazilian Bitles – Não Tem Jeito

The Youngsters – I Wanna Be Your Man

 

 

 

 

 

O instrumentista, compositor e arranjador Arthur Maia empunha seu fiel-escudeiro, o contrabaixo elétrico. Foto: Divulgação / Facebook Oficial

A versatilidade e o talento ímpar de Arthur Maia em 40 canções e temas instrumentais

Dono de um suingue irresistível, contrabaixista, morto aos 56 anos, brilhou ao lado de, entre outros, Caetano, Gil, Milton, Erasmo, Gal e Ney Matogrosso

Postado em 17/12/2018 por

No mesmo 13 de dezembro de 2018 (a última quinta-feira) em que, com um atraso de 15 dias, soubemos da partida do gigante maestro Waltel Branco*, o contrabaixista carioca Arthur Maia (outro craque da nossa música, que assim como Waltel construiu trajetória das mais exuberantes e colaborativas tanto na seara da canção quanto na dos sons instrumentais) fazia um show no Festival Acordes do Amanhã. Realizada em Icaraí, em Niteroi, a apresentação reuniu Maia e os músicos Chicão Freitas (guitarra), Calebe (saxofone), Felipe Martins (bateria) e Marquinho (teclado). Nem ele nem os amigos do quarteto ou o público sequer podiam suspeitar, mas o contrabaixista fazia ali sua última apresentação. Dois dias depois do show, no sábado (14), Arthur Maia sairia de cena, de forma súbita, em decorrência de uma parada cardíaca. O artista tinha 56 anos. Foi socorrido, mas a fatalidade não pôde ser evitada pela equipe médica.

Desde a primeira infância, influenciado por um tio músico, tomou gosto pela bateria e foi presenteado com um kit infantil. Chegou a avançar nos estudos do instrumento, mas, no alvorecer da adolescência, influenciado pelo tal tio, ninguém menos que Luizão Maia, um dos maiores contrabaixistas do País, o jovem Arthur deixa de lado os sons percussivos de pratos e tambores aos 17 anos para começar a moldar, na prosódia pulsante das quatro (ou cinco) cordas elétricas de seu contrabaixo, o enorme e suingado talento que parecia emanar de alguma célula hereditária vinda de Luizão.

Ironia do destino, Arthur Maia partiu com somente um ano a mais de vida que o tio. Morto em 2005, Luizão Maia, contrabaixista presente em muitos clássicos de Elis Regina e grande parceiro de Cesar Camargo Mariano, não resistiu a um terceiro derrame cerebral e partiu naquele ano aos 55. Velado desde o começo da noite de sábado, o corpo de Arthur Maia foi sepultado neste domingo (16), às 15h, no Cemitério Parque da Colina, também em Niterói.

Com atuações profissionais desde 1980 quando, aos 18 anos, participou do álbum Arca de Noé, de Vinicius de Moraes, Maia também colaborou no início da carreira com a Banda Black Rio, fazendo o papel de reserva do também craque Jamil Joanes. Ao lado do baterista Pascoal Meirelles, músico renomado desde os tempos de samba-jazz, no anos 1960, Arthurzinho, como era chamado carinhosamente pelos amigos, foi um dos fundadores do combo Cama de Gato e tornou-se curinga de gente graúda como Caetano Veloso, Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Marisa Monte e Milton Nascimento. Em 1987, três anos antes de lançar Maia (listado abaixo), seu primeiro álbum solo, Arthur Maia lança um álbum epônimo com a banda de rock Egotrip (ouça), que tinha entre os integrantes o baterista Pedro Gil, filho de Gilberto Gil (a criança eternizada na capa de Expresso 2222), morto em um acidente automobilístico em 199o.

Para dimensionar o talento, a pluralidade e o suingue irresistível de Arthur Maia, listamos, a seguir, 40 canções e temas instrumentais que contaram com sua participação. Além dos nomes já citados, a lista também reúne artistas diversos como Erasmo Carlos e Mulheres Negras; Celso Fonseca e Ney Matogrosso; Cassiano e Romero Lubambo.  A compilação também inclui álbuns completos de Gil, um dos artistas com quem Arthur mais atuou, a quem ele chamava de “Professor” (como pude testemunhar quando entrevistei o baiano, em 2009), do Cama de Gato, além de trabalhos solos do contrabaixista.

*   Na próxima quinta-feira (20), o maestro paranaense Waltel Branco será homenageado na coluna Quintessência. Não Perca! 

Milton Nascimento – Yauaretê (1987)

Ney Mato Grosso – Vivo (1999)

Marisa Monte – Balança Pema (1994)

Caetano Veloso e Gilberto Gil – Nossa Gente (1993)

Lulu Santos – Cobra Criada (1988)

Caetano Veloso – A Luz de Tieta (1996)

Erasmo Carlos – Sinto Muito (2003)

Gilberto Gil – Quanta (álbum completo, 1997)

Luiz Melodia – Mistério do Planeta (1991)

Leo Gandelman – Mr. Funk Samba (1996)

João de Aquino – Patuá (1991)

Cama de Gato – Pé De Moleque (ao vivo no Free Jazz, 1996)

Gal Costa – Alkahool (1991)

Juarez Moreira – Wave (2005)

Caetano Veloso – Zumbi (2000)

João Bosco – Flor de Ingazeira (2000)

Flavio Venturini – O Quem de Ser (1994)

Os Mulheres Negras – Só Tetele (1990)

Martinho da Vila – Planetário (1990)

Arthur Maia – Maia (1990)

Gilberto Gil – Kaya n’ Gandaia (2002)

Celso Fonseca (2001)

Gil e Milton – Sebastian (2000)

Bebeto – Surf e Coca-Cola (1985)

Mú Carvalho – Variação Sobre o Tema Odeon (2013)

Paula Lima – Cirandar (2001)

Djavan – Oceano (1989)

Toninho Horta – Luisa (1988)

Caetano Veloso – Fora da Ordem (1991)

Cassiano – Cedo ou Tarde (1998)

Cama de Gato – Cama de Gato (1986)

Romero Lubambo & Pamela Driggs – Ruta 66 (2002)

Arthur Maia – Arthur Maia (album completo, 1996)

Pascoal Meirelles – Anna (álbum completo, 1987)

Carlinhos Brown – A Namorada (1996)

Moraes Moreira – Triscou, Pegou (1999)

Gilberto Gil – Unplugged (1994)

Arthur Maia – To Nico (composição de 2007 dedicada ao amigo Nico Assumpção, morto, aos 46 anos, em 2001)

Arthur Maia – Little Sunflower (composição de Freddie Hubbard apresentada no Festival Acordes do Amanhã, em 13.12.2018, Icaraí, Niteroi, no último show de Arthur)

Arthur Maia – Palco (solo registrado em 2011, no Recife, e divulgado por Gil em homenagem ao amigo)