Marcelo Pinheiro


Jornalista, editor-chefe do site do Showlivre.com. Colecionador de discos de 7, 10 e 12 polegadas, nas horas vagas ataca de dublê de disc jockey e músico amador

David Bowie em retrato de Gerald Fearnley, mesmo autor da foto da capa do primeiro álbum do artista, de 1967. Foto: Divulgação / Deram Records

O dia em que David Jones virou David Bowie

Transição de codinome artístico envolve receio de perda de direitos autorias, um herói do Velho Oeste e uma famosa faca

Postado em 14/01/2019 por

Na última terça-feira (8), em redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, milhões de fãs ao redor do mundo prestaram homenagens a David Bowie, por ocasião da passagem de seu 72° aniversário de nascimento.

Morto exatamente dois dias após completar 69 anos, em 10 de janeiro de 2016, o músico britânico, um dos artistas mais criativos e influentes para o rock e a música pop do século 20, nasceu no distrito de Brixton, em Londres, e foi batizado David Robert Jones.

No início de sua carreira, profissionalmente desenvolvida desde a adolescência, quando aos 15 anos ele integrou a banda The Kon-Rads, o futuro astro do rock primeiro adotou o nome artístico David Jones.

No entanto, pelo receio de que fosse confundido com o também roqueiro e perdesse direitos autorais para Davy Jones, artista que depois integraria o The Monkees, em 14 de janeiro de 1966, há exatos 53 anos, David Jones passou a definitivamente usar o pseudônimo David Bowie.

Mais que uma simples alcunha, a transição de nome também dá início à visível construção de uma personagem em constante mutação, multifacetada inclusive em outras alcunhas, como o célebre personagem Ziggy Stardust. Não por acaso, o clichê “Camaleão do Rock” é difundido até hoje para se referir a David Bowie.

A motivação do jovem David Jones para a escolha do novo nome artístico demonstra o quanto Bowie era ligado na cultura norte-americana, uma vez que o sobrenome adotado por ele faz referência a um legendário personagem dos Estados Unidos do século 19, James Bowie, um destemido comandante do Exército morto na Batalha do Álamo, uma sangrenta disputa por domínio territorial entre mexicanos e norte-americanos ocorrida no Texas em 1836. O contato de Bowie com o universo do aventureiro não se deu, no entanto, por meio de livros de história, mas graças ao filme The Alamo, lançado, em 1960, pelo diretor John Lyons.

James “Jim” Bowie, herói nacional para muitos norte-americanos, também ficou famoso pela coragem de desafiar opositores municiados de armas de fogo com o uso peculiar de uma faca com lâmina comprida de desenho atipicamente forjado. A faca, posteriormente utilizada como instrumento de caça e para abrir trincheira em ambientes selvagens, é mundialmente conhecida como “Bowie Knife” (veja fotos).

Quando questionado sobre o porque do nome David Bowie, David Robert Jones hora contava a história de The Alamo, hora afirmava gostar da sonoridade do nome da “grande faca americana de matar ursos”. Mas não se deixe enganar: para alívio de muitos fãs, Bowie foi por décadas vegetariano e também defensor do direitos dos animais.

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O cantor e compositor Jards Macalé. Foto: José de Holanda / Divulgação

Novos single e videoclipe de Jards Macalé antecipam álbum que encerra hiato de 20 anos

Lançada nesta sexta-feira (11), ‘Trevas’ é adaptação livre de um poema de Ezra Pound. Disco de inéditas traz parcerias e direção artística de Romulo Fróes

Postado em 11/01/2019 por

Depois do susto pregado nos fãs em fevereiro de 2018, quando foi internado com um grave quadro de infecção pulmonar, recuperado, o cantor e compositor carioca Jards Macalé atravessou o último ano com dedicação máxima à produção de seu novo álbum de inéditas, trabalho que será lançado neste primeiro trimestre de 2019, pelo selo Natura Musical, e que encerra um hiato de 20 anos desde seu último disco autoral,  o álbum O Q Faço é Música, de 1998.

Alento para os admiradores mais ansiosos, Macalé, que completará 76 anos em 3 de março, antecipou nesta sexta-feira (11) o primeiro single do novo trabalho. Intitulada Trevas, a canção é uma adaptação livre do poema Canto I, de Ezra Pound, a partir da tradução dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, a trinca de ases da poesia concreta.

Trevas é sobre o Brasil do futuro. Chegamos ao poço mais fundo, chegamos ao limite, chegamos ao Brasil de 2019″comenta Macalé na apresentação à imprensa do novo single, que também ganhou um videoclipe. Apinhado de referências ao artista visual Helio Oiticica, grande amigo de Macalé, ao poeta modernista Oswald de Andrade, ao cineasta marginal Andrea Tonacci e ao canônico escritor irlândes James Joyce, o clipe foi co-dirigido a quatro mãos, pelo poeta e designer Gabriel Kerhart e o cineasta Gregorio Gananian, também diretor de Inaudito, sensível documentário sobre a vida e obra do guitar-hero tropicalista Lanny Gordin. Gananian, aliás,  já havia trabalhado com Macalé na co-direção, ao lado de Chico França, do espetáculo Sinfonia D Jards (leia reportagem no final deste texto). Apresentada em 2012 no Teatro Oficina, em São Paulo, a retrospectiva da carreira de Macao, como o músico também é conhecido, contou com a presença de Lanny, parceiro decisivo para a sonoridade de Jards Macalé, o emblemático álbum de estreia do compositor carioca, lançado em 1972.

De letra soturna, como sugere o título, Trevas contou com direção musical do próprio Macalé, direção artística de Romulo Fróes e produção musical de Kiko Dinucci e Thomas Harres, respectivamente responsáveis pelos mesmos papeis na feitura do aguardado novo álbum. O trabalho também reúne parcerias e colaborações de grandes talentos de nossa música popular contemporânea, como Ava Rocha, Tim Bernardes, Clima, Rodrigo Campos e Thomas Harres.

No novo álbum, os fãs também terão a alegria de ver retomada a histórica dobradinha Macalé / Capinam, que assinam novas parcerias. Ao lado do poeta baiano, vale lembrar, Macao escreveu quatro das mais emblemáticas canções de seu álbum de estreia: Farinha do Desprezo78 rotaçõesMeu amor, Me Agarra e Geme e Treme e Chora e Mata e a emocionante Movimento dos Barcos. No final dos anos 1960, José Carlos Capinam também foi sócio de Macalé  na fundação da produtora cultural Tropicarte.

Em setembro de 2016, com o lançamento do box Jards Macalé Anos 1970, entrevistei o artista, pela segunda vez, para a extinta revista Brasileiros. Entre os quatro CDs reunidos na caixa, 14 faixas inéditas foram então reveladas pelo produtor Marcelo Froes, do selo Discobertas, responsável pelo lançamento. Entre as relíquias, assim como Trevas, três canções eram adaptações de poemas de alguns dos autores prediletos de Macalé. São elas: Luz (Ezra Pound), Transformar o Mundo (Bertolt Brecht) e Pasar La Vida (Gregório de Matos). Na ocasião, o artista explicou como se dava o processo de transmutação de poemas em canções. “Durante a leitura, esses textos chamavam minha atenção não só pela beleza da escrita, mas também pela melodia natural que havia nesses poemas. Foi isso que me levou ao desejo de musicá-los.”

Trevas
A sonoridade crua e densa da nova composição, impregnada de texturas de guitarra fuzz de Gui Held (não por acaso, discípulo e parceiro de Lanny em alguns projetos) funde elementos de rock com trechos de dissonante influência bossanovista, escola primeira de Macao. Além da presença concisa de Kiko Dinucci (violão), Thomas Harres (bateria) e Pedro Dantas (contrabaixo), chama atenção um inusitado artifício usado pelo autor de Trevas. Para dar ênfase à frase “chegamos ao limite da água mais funda, debaixo d’água”, o artista sugeriu a captação de sua voz com a utilização de uma bacia cheia d’agua para que ele cantasse os versos com a cabeça submersa no recipiente plástico. O resultado é instigante. Ligando esse gesto ao contundente depoimento utilizado por Macalé para explicar o sentido de Trevas, não é exagero atribuir ao improviso vocal uma conotação cifrada do temor de ver redivivos expedientes de tortura que aterrorizaram a ele e seus pares nos anos 1970.

“A mim, pessoalmente, se tivesse me contado sua ideia, certamente teria tentado dissuadi-lo de realizá-la, por talvez achar redundante e ingênua a tentativa de emular o trecho da letra”, comentou Romulo Fróes na mesma apresentação à imprensa. “Mas o fato é que esse procedimento não apenas injetou um veneno que Macalé tanto queria para essa parte, como criou novas metáforas nada ingênuas. Foi mais um dos muitos ensinamentos que Macalé nos presenteou de modo nada didático, durante todo o processo do disco. Coisas de um artista verdadeiro”, conclui Fróes.

Ainda sem título anunciado, o novo álbum de Macalé foi um dos projetos selecionados na edição 2017 do edital Natura Musical, que tem apoio da Lei Rouanet. Segundo Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional, a realização do projeto é motivo de orgulho para o núcleo de incentivo à música da Natura. “O patrocínio do programa a este novo trabalho do Jards reverencia todo o legado que o artista ajudou a construir para a música brasileira e aposta no que a ousadia dele é capaz de impulsionar. Jards tem o dom de instigar, provocar e inquietar. E essa injeção de vida é mais do que necessária para este momento e para o futuro da música.”

Quem conhece a dimensão única da arte de Jards Macalé sabe que é impossível discordar de Fernanda. Que venha então o álbum, para saciar a ansiedade dos fãs!

Assista ao videoclipe de Trevas 

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DJ Marky subverte o uso das pick-ups em apresentação no Showlivre ELM. Foto: Aline Oliveira

Remix de DJ Marky dá nova roupagem a ‘Praise You’, mega-hit lançado por Fatboy Slim em 1998

Releitura foi feita a convite do artista britânico e apresenta o toque inconfundível do drum n’ bass do DJ e produtor brasileiro

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Quem viveu adolescência ou juventude na última década do século 20 certamente recorda: em 1998, um dos hits mais onipresentes em rádios, TVs e pistas de dança foi, sem dúvida, Praise You, faixa que, ao lado de Rockafeller Skank, outro sucesso estrondoso, fez do álbum You’ve Come a Long Way, Babe, do DJ Fatboy Slim, um dos campeões de venda daquele ano.

Vinte anos depois, Praise You ganha nova roupagem com um remix feito por outro legendário craque dos toca-discos, o brasileiro, de trânsito mundial, DJ Marky. Com BPM desacelerado e o inconfundível tratamento drum n’ bass de Marky, o single foi lançado pela Stink Records, selo mundialmente distribuído pela BMG, em 28 de dezembro de 2018. Amigo do DJ britânico desde o começo dos anos 2000, quando eram comuns os encontros da dupla em festivais ao redor do mundo, Marky foi especialmente convidado por Fatboy Slim para produzir o remix. Confira abaixo o resultado.

Presente no mercado fonográfico desde os anos 1980, quando então integrava a banda Housemartins, do grudento hit Build, Fatboy Slim primeiro enveredou pela música eletrônica ao criar o quarteto Beats International, ainda sob o nome de batismo, Norman Cook. Em 1996, com o lançamento de Better Living Through Chemistry, o DJ e produtor assume a alcunha de Fatboy Slim e torna-se um dos mais populares expoentes do Big Beat, subgênero da música eletrônica (também difundido por artistas como Chrystal Method, Prodigy e Chemical Brothers) que promove uma infalível mistura de elementos dançantes: bases de funk setentista, baixos sintetizados de disco-boogie, batidas de hip-hop, beats pesados de drum machines e efeitos lisérgicos de sintetizadores frequentemente usados por artistas de acid house.

Em 2018, DJ Marky fez um set matador no Electronic Live Music Showlivre. Assista ao vídeo na íntegra.

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John, Ringo, Paul e George em registro de 1963. Foto: Divulgação / Parlophone Records

Beatlemania: há 55 anos, John, Paul, George e Ringo lançavam o primeiro álbum nos EUA

LP apresentava a banda como o ‘o grupo vocal n° 1 da Inglaterra’ e, mesmo tirado de circulação nove meses depois, vendeu 1,3 milhão cópias

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Na manhã de 7 de fevereiro de 1964, cerca de cinco mil fãs e 200 jornalistas tomaram de assalto os corredores e o saguão do aeroporto internacional JFK, em Nova York, para recepcionar um Boeing 707 da companhia aérea Pan Am que, partindo do aeroporto de Heathrow, em Londres, trazia os quatro integrantes dos Beatles para a primeira turnê da banda nos Estados Unidos.

Era o começo da beatlemania. Fenômeno mundial que, no entanto, teve como episódio anterior e embrionário um lançamento fonográfico realizado em 10 de janeiro de 1964, há exatos 55 anos, quando passou a ser comercializado nos Estados Unidos Introducing… The Beatles, uma versão reduzida de Please Please Me (o álbum de estreia da banda, lançado na Inglaterra em 1963), editada pelo selo Vee-Jay Records. Com 12 faixas, duas a menos que a versão original (ficaram de fora P.S. I Love You e Baby It’s You), o LP entrou para a história como o primeiro álbum do quarteto britânico a ser editado no mercado fonográfico norte-americano.

Na capa do LP, além da foto de produção, digamos, precária (veja abaixo), chama a atenção o equivocado subtítulo “o grupo vocal n° 1 da Inglaterra”. A despeito das complexas harmonias vocais defendidas pelos quatro rapazes de Liverpool, a sonoridade revolucionária apresentada por John, Paul, George e Ringo talvez merecesse destaque ainda maior, mas, com o benefício que temos hoje do distanciamento histórico que coloca as coisas em seu devido lugar, é razoável considerar perdoável o reducionismo cometido 55 anos atrás pela Vee-Jay.

usa_introducing-the-beatles Beatlemania: há 55 anos, John, Paul, George e Ringo lançavam o primeiro álbum nos EUA

Capa da versão estéreo do álbum Introducing… The Beatles, lançado há exatos 55 anos. Foto: Divulgação / Vee-Jay Records

 

Vacilo maior, afinal, cometeu a Capitol Records, subsidiária da EMI nos EUA, esta última, a gigante multinacional que detinha a distribuição mundial da Parlophone, o selo inaugural dos Beatles. Desde o lançamento de Please, Please Me no Reino Unido, a Capitol desdenhava do potencial mercadológico de apresentar a banda ao público jovem norte-americano, permitindo que o licenciamento da obra fosse primeiro assumido pela Vee-Jay Records, selo baseado em Chicago, criado pelo casal Vivian Carter e James C. Bracken (daí o “VJ” da marca) e especializado em jazz, rhythm & blues e rock n’ roll. Com a resposta imediata dos fãs, que correram às lojas para garantir suas cópias de Introducing… The Beatles, dez dias depois, a Capitol se redimiu do deslize histórico ao lançar a toque de caixa o álbum Meet The Beatles!.

Nos três meses seguintes, impulsionados pela turnê norte-americana dos “fab four”, os dois títulos mantiveram respectivamente o segundo e o primeiro posto das paradas de discos mais vendidos nos EUA. Sorte menor, no entanto, teve a Vee-Jay Records. Depois de um imbróglio jurídico com a gigante EMI, em 15 de outubro de 1964, a gravadora de Detroit perdeu o direito de distribuir o LP. Em nove meses de comercialização, o saldo foi, no entanto, positivo: o pequeno selo fez circular mais de 1,3 milhão cópias do LP. Menos pior para o casal Viivan e James que, além de entrar para a história da música do século 20, pôde também financiar outros projetos de sua gravadora.

Assista ao vídeo que documenta a chegada dos Beatles em Nova York na manhã de 7 de fevereiro de 1964.


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Catavento


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No Estúdio Showlivre, músicos da banda The Jordans falam do encontro que tiveram com os Beatles em 1966

Detalha da ilustração de Guido Albery para a capa do álbum de 1969 de Jorge Ben Jor. Foto: Divulgação / Philips

Dez álbuns de MPB que completam 50 anos em 2019 e continuam moderníssimos

Ano de ouro para o nascente gênero, 1969 foi marcado por lançamentos de, entre outros, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Gal Costa e Milton Nascimento

Postado em 09/01/2019 por

Nem mesmo o peso dos dias de terror inaugurados com o recém-decretado Ato Institucional nº 5 pôde conter a força criativa que transformou o ano de 1969 em um dos mais inventivos para a trajetória da nascente MPB – ao leitor que estranhar o termo “nascente”, vale lembrar que o rótulo MPB, sucessor de MPM (Música Popular Moderna), foi cravado três ou quatro anos antes, com o advento dos festivais da canção organizados no eixo Rio/São Paulo e em diversas capitais do País.

Com o decreto do AI-5, que teve como consequência imediata a escalada de episódios de tortura e mortes a opositores do regime então liderado pelo general Costa e Silva, para artistas de opinião mais contundente, taxados pelos militares de “subversivos”, a saída mais segura foi abandonar o Brasil e partir para o exílio no exterior. Decisão recomendada por seus algozes e acatada por Gilberto Gil e Caetano Veloso, que foram presos em 27 de dezembro de 1968 e permaneceram encarcerados por dois meses, quando foram libertos na Quarta-Feira de Cinzas de 1969. Decisão que, entre outros grandes artistas, também norteou a partida de Chico Buarque e de Edu Lobo – respectivamente radicados em Roma, na Itália, e em Los Angeles, nos Estados Unidos – de seu amado País

Antes de saírem de cena, Gil e Caetano, no entanto, colocaram na praça dois LP epônimos que marcaram suas carreiras. O LP de Caetano ficou conhecido como ‘álbum branco’, graças ao despojamento da capa com explícita alusão ao LP lançado pelos Beatles no ano anterior; de arte gráfica não menos inspirada, assinada por Rogério Duarte, o álbum de Gil ganhou o apelido de ‘Cérebro Eletrônico’, título emprestado da faixa que involuntariamente se tornou espécie de carro-chefe do LP.

Para chancelar a constatação de que 1969 foi mesmo um ano mágico para a MPB, selecionamos a seguir, além desses dois álbuns de Gil e Caetano, outros oito títulos que, 50 anos depois, ainda exalam o mesmo frescor de modernidade a eles atribuído com precisão, meio século atrás,  por críticos e ouvintes atentos.

Gal Costa – Gal Costa
Nossa lista começa com cinco dos mais emblemáticos álbuns do tropicalismo. Todos lançados pela Philips e marcados pela produção inventiva de Manoel Barenbein. O primeiro deles, a imponente estreia solo de Gal Costa, álbum epônimo editado dois anos depois de a cantora dividir com o amigo Caetano Domingo, o singelo LP nitidamente influenciado pela bossa nova de João Gilberto, guru de ambos. Neste primeiro álbum solo de Gal, a inspiração da bossa ainda é patente, mas a intérprete que surge dos sulcos do vinil é radicalmente diferente da cantora comedida de outrora. A partir deste álbum, pelo contrário, Gal não hesita em soltar a enorme voz (guinada ainda mais explicita no anárquico álbum seguinte, informalmente chamado de Cultura e Civilização e também lançado em 1969). No repertório, maravilhas como Não Identificado, de Caetano, Namorinho de Portão, de Tom Zé, Vou Recomeçar, de Roberto e Erasmo Carlos, Divino, Maravilhoso, de Caetano e Gil, e Deus é o Amor, uma pequena pérola de Jorge Ben Jor jamais gravada por ele. Entre os artistas escalados para a gravação, um pessoal da pesada, parafraseando Gal, marca presença, com destaque para Lanny Gordin, Rogério Duprat, Jards Macalé e Gilberto Gil.


Gilberto Gil – Cérebro Eletrônico
Emblemático desde o projeto gráfico assinado pelo saudoso Rogério Duarte, o álbum que antecede a partida de Gil para o exílio em Londres também conta com a presença de Lanny Gordin e Rogério Duprat (respectivamente nas guitarras e nos arranjos, é claro), e reúne ainda um duo de craques da música instrumental da época na execução dos nove temas: o baterista Wilson das Neves, que dispensa apresentações, e o contrabaixista Sergio Barroso, ex-integrante do Rio 65 Trio de Dom Salvador e do Trio 3-D de Antonio Adolfo, que também foi curinga de feras como Marcos Valle, Maysa, Wanda Sá e Roberto Menescal. Com faixas arrebatadoras como Volks Volkswagen Blues, Aquele Abraço, Vitrines e Objeto Semi-Identificado, o álbum de Gil se impõe como um dos pontos altos do rebuliço estético proposto pelo tropicalismo. Obrigatório!

Caetano Veloso – Álbum Branco
Também contando com a cozinha de Barroso e Das Neves, a guitarra explosiva de Lanny, os arranjos arrebatadores de Duprat e a direção precisa de Barenbein, o “álbum branco” de Caetano Veloso, título que também antecede a partida do baiano para o exílio em Londres, tem repertório dos mais primorosos. Destaque para as sutilezas e o sabor agreste de faixas como Irene, Empty Boat, Objeto Não Identificado, Os Argonautas e Acrilírico.

Jorge Ben – Jorge Ben
Carinhosamente apelidado pelos fãs de ‘Flamengo’ por causa da incrível arte gráfica do italiano Guido Albery, o álbum epônimo lançado por Jorge Ben, como assim o artista se denominava em 1969, sela o retorno de Ben Jor ao selo Philips e é também o marco zero da impressionante parceria do Babulina com o som energético do Trio Mocotó, formado por Fritz Escovão (voz e cuíca), Nereu Gargalo (pandeiro e voz) e João Parahyba (percussão e voz). A explosão de suingue que resulta do feliz encontro ainda ganhou o padrão Rogério Duprat de sofisticação provocativa nos arranjos. Não por acaso, sem jamais manifestar filiação a qualquer movimento estético, temos aqui um dos melhores registros do tal som universal proposto pelos tropicalistas. Faixas como Take it Easy my Brother Charles, Bebete Vãobora, Criola e Cadê Teresa? seguem conquistando a admiração de fãs no Brasil e ao redor do mundo.


Mutantes – Mutantes
O clichê de que o segundo álbum é sempre um grande desafio para bandas que fizeram excelentes trabalhos de estreia cai por terra quando se ouve na sequência os dois primeiros LPs d’Os Mutantes. Outro tesouro da cepa radical de Manoel Barenbein para a Philips, o segundo registro fonográfico do trio paulistano formado por Arnaldo Baptista (contrabaixo), Sérgio Dias (guitarra) e Rita Lee (voz) conta também com a presença essencial do baterista Dinho Leme. Nas 11 faixas, tesouros do psicodelismo Made in Brasil como 2001 e Qualquer Bobagem (ambas de Tom Zé), Dia 36, Caminhante Noturno, Algo Mais e Não Vá Se Perder Por aí (faixas de autoria do grupo) e uma impagável releitura de Banho de Lua, de Celly Campello.


Marcos Valle – Mustang Côr de Sangue ou Corcel Cor de Mel
Um dos álbuns mais cultuados da discografia de Marcos Valle, Mustang Côr de Sangue também registra algumas das mais inspiradas letras do irmão do compositor, o poeta e fiel parceiro Paulo Sergio Valle. Com críticas cifradas aos excessos cometidos pelos militares, como as denúncias de tortura e desaparecimentos, o LP também escancara a alienação desenfreada da sociedade de consumo. Para além do poder lírico, o disco retrata Marcos em momento dos mais inventivos, fazendo uso de novos instrumentos elétricos e eletrônicos e extrapolando seu suingue com o amálgama de gêneros locais e estrangeiros como o funk, o samba, o baião, a soul music, a bossa, o jazz e o frevo. Alquimia que fica ainda mais sofisticada com a batuta de maestros como Lyrio Panicalli, Laércio de Freitas, Eumir Deodato e Orlando Silveira assinando os arranjos. Essencial!


Elis Regina – Como & Porque
Um dos melhores trabalhos de Elis Regina para a Philips, Como & Porque reúne releituras de clássicos como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, O Sonho, de Egberto Gismonti, Casa Forte, de Edu Lobo, Canto de Ossanha, o afro-samba de Baden e Vinicius, O Barquinho, de Bôscoli e Menescal, e Andança, de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós. Com arranjos de Erlon Chaves e Menescal e produção de Armando Pittigliani, Como & Porque, que tem a imagem da capa assinada pelo também saudoso fotógrafo Paulo Garcez, d’O Pasquim, conta com a elegância do super-grupo que então escoltava Elis, formado por Antonio Adolfo, Hermes Centesini, Menescal, Erlon e Wilson das Neves. Um primor!

Os Originais do Samba – Os Originais do Samba
Estreia das mais inspiradas do gênero mais popular do Brasil no final dos anos 1960, o primeiro álbum d’Os Originais do Samba, lançado pela RCA Victor em 1969, conta com direção artística do craque Wilson Miranda e reúne pérolas do suingue de diferentes períodos, como Sei Lá, Mangueira, de Hermínio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola, Larga Meu Pé, Reumatismo, de Ataulfo Alves, Canto Chorado, de Billy Blanco, O Rapaz do Violão, de Dida, e uma versão matadora de Cadê Tereza, lançada naquele  mesmo ano por Jorge Ben Jor. Pra quem “conhece” o grupo pela participação do saudoso Mussum, mas não se aprofundou na discografia do Originais do Samba, temos aqui um título obrigatório.


Wilson Simonal – Alegria! Alegria! Vol.4
Último capítulo da “quadrilogia” emplacada por Wilson Simonal na deliciosa fase Pilantragem, Alegria! Alegria! Vol. 4 fecha com chave de ouro a mistura irresistivelmente dançante explorada pelo genial cantor com o auxilio luxuoso do Som Três de Cesar Camargo Mariano (piano e orgão Hammond B-3), Sabá (contrabaixo) e Toninho Pinheiro (bateria). Com arranjos de Cesar, Antonio Adolfo, Erlon Chaves e do maestro Lyrio Panicalli, que também assina a direção musical do álbum, Alegria! Alegria! Vol.4 traz registros impecáveis de Simonal na interpretação de faixas como Porque Hoje é Domingo (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar), Olho D’Água (Nonato Buzar e Paulinho Tapajós), Quem Mandou (Eduardo Souto e Sérgio Bittencourt), Que Maravilha e País Tropical (Jorge Ben Jor). Um barato!


Milton Nascimento – Courage
Feito especialmente para o público norte-americano, Courage escancara a universalidade da música de Milton Nascimento. Gravado no legendário Van Gelder Studios, em Nova Jersey, o álbum foi produzido por ninguém menos que Creed Taylor, responsável por um sem-número de títulos históricos do jazz lançados por gravadoras como Verve, A&M e CTI Records, seu próprio selo. Com arranjos de Eumir Deodato, Courage contou com a presença de outros grandes figurões da indústria fonográfica dos EUA, entre eles, o pianista Herbie Hancock e o flautista Hubert Laws. Consagrado naquele país, o percussionista brasileiro Airto Moreira também enriquece as teias instrumentais de faixas como Travessia (Bridges), Rio Vermelho, Morro Velho, Catavento e Canção do Sal. Beleza em estado bruto!

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