Marcelo Pinheiro


Jornalista, editor-chefe do site do Showlivre.com. Colecionador de discos de 7, 10 e 12 polegadas, nas horas vagas ataca de dublê de disc jockey e músico amador

Mauricio Pereira em primeira pessoa: uma imersão na trajetória do cantautor. (Foto: Showlivre.com)

Mauricio Pereira em primeira pessoa: uma imersão na trajetória do cantautor

Em nova edição da série Showlivre.DOC, o saxofonista d’Os Mulheres Negras fala dos anos de formação, da parceria com André Abujamra e de como teve sua carreira solo valorizada por uma nova geração de ouvintes e artistas

Postado em 20/02/2019 por

Ninguém há de contestar que bom-humor e sagacidade são características indissociáveis de Mauricio Pereira. Um breve depoimento do artista, reproduzido abaixo e manifestado aos fãs no último domingo (17), não deixa dúvidas sobre o olhar aguçado e a generosidade contemplativa deste autointitulado cantautor paulistano, que completará 60 primaveras no oitavo dia de novembro deste 2019. Abro aspas para o saxofonista d’Os Mulheres Negras. “Rapaisss… Choveu o mundo ontem aqui em São Paulo na hora do show. E mesmo assim foi um tanto de gente lá no Centro Cultural ver Outono no Sudeste. Chego à conclusão de que meu público, além de fiel, é anfíbio. Muito obrigado a vocês que estiveram lá”, comentou Pereira em sua fanpage no Facebook.

Como pontuou o artista, o show em questão, realizado na tarde do sábado anterior, foi baseado no repertório de Outono no Sudeste, seu mais recente trabalho solo, celebrado pela crítica especializada como um dos títulos mais importantes de 2018. Em setembro do mesmo ano, o repertório do álbum foi esmiuçado por Mauricio Pereira e banda (Amílcar Rodrigues, trumpete, bombardino e flugelhorn, Tonho Penhasco, guitarra, Pedro Montagnana, piano, Henrique Alves, contrabaixo, e Gabriel Basile, bateria) em inspirada apresentação no Estúdio Showlivre (veja, na íntegra, no final desta reportagem).

Semanas depois, acompanhado dos cinegrafistas Raphael de Freitas e Pedro Diaz, além do técnico de som Joy Espíndola, este repórter invadiu o lar doce lar do músico, na Vila Ida, bairro vizinho ao Showlivre.com, na zona oeste de São Paulo, para o registro de uma despojada edição da série Showlire.DOC, que agora resulta em um ping-pong de quase 30 minutos, dividido em três capítulos temáticos. Intitulada Mauricio Pereira em Primeira Pessoa, a nova edição do Showlivre.DOC pode ser vista abaixo, na íntegra, e também está disponível em nosso canal do YouTube e na página do Facebook do Showlire.com.     

Nascido no centro de São Paulo, Mauricio Pereira migrou, ainda na infância, para a Vila Olímpia, bairro da zona sul da capital paulista. Filho de um casal classe-média com indiscriminada afeição por manifestações culturais, Pereira conta que desde cedo foi fisgado pela música. “No final dos anos 1960, conforme eu ia fazendo 6, 7 anos, a música vinha muito pela televisão. Eu via os programas Jovem Guarda, o programa do Chacrinha, o Fino da Bossa, Essa Noite se Improvisa. A música veio pela TV, mas também muito pelo rádio. Em casa tinha rádio no banheiro, no quarto na cozinha. Meu pai ouvia jornal na rádio Eldorado, que tocava muita bossa nova, música sofisticada. O rádio da cozinha tocava de tudo. Tocava Elvis, Lindomar Castilho, sertanejo, rádio-novela, Gil Gomes. Fui criado no caos. A música da minha cabeça era o caos”, recorda.

Formado em Jornalismo pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP, no ambiente acadêmico, vivenciado a partir de 1977, Pereira expandiu a consciência estética de jovem ouvinte sem preconceitos, comportamento que seria pilar de uma das bandas mais autênticas a surgir no Brasil da década de 1980.

“Era uma época efervescente, porque era o fim da ditadura, e eu conhecei uns caras que me apresentaram coisas de poesia concreta, Paulo Leminski e músicos que tinham um trabalho mais louco. A MPB tinha uns caras mais venenosos, como o Luiz Melodia. Por causa desses caras mais ligados que tinha na faculdade, fui ouvir Beatles de outro jeito, fui entender Dylan e Jimi Hendrix de outro jeito. Eram caras que me davam nome aos bois. Conhecer o trabalho do Leminski foi meio vital para mim. Até por eu ser letrista. Essa coisa de ter um cara denso da poesia radical que ao mesmo tempo está perto da coisa música popular mais simples que toca no rádio. A simplicidade do rádio para mim foi muito forte. E isso está na raiz do trabalho d’Os Mulheres Negras.”

Veja o primeiro capítulo do Showlivre.DOC com Mauricio Pereira:

 

Formado em 1985 e consagrado com o epíteto cravado pela própria dupla de “a terceira menor big-band do mundo”, Os Mulhres Negras surgiu de uma inusitada aproximação entre Pereira e André Abujamra durante um curso de percussão africana ministrado no TBC, o legendário Teatro Brasileiro de Comédia, então arrendado pelo pai de André, o saudoso e gigante ator e dramaturgo Antônio Abujamra.     

Depois de formado jornalista, Pereira conta que emplacou trabalhos na área, como colaborações para o rádio, redator da TV Bandeirantes e revisor do jornal O Estado de S. Paulo, mas encontrou André em um momento de incertezas, porque estava desempregado e um tanto sem rumo.

“Eu não sabia o que fazer da vida. De repente, eu e o André tivemos esse amor à primeira-vista, meio estapafúrdio. Eu estudei um pouquinho de teoria de piano e saxofone quando ainda era adolescente. Minha volta para a música foi batendo tambor, que deu uma coisa de andamento rítmico muito forte pra gente. Eu sempre fui um xereta da África.”  

O interesse de Pereira pela polirritmia africana, bem antes do curso que o aproximou de Abujamra no TBC, veio, no entanto, cerca de cinco anos antes, quando, por meio de um amigo que fez trabalhos para a construtora Camargo Correia na Nigéria, ele teve acesso a fitas K-7 com vários artistas locais. Foi nesta incursão auditiva que o diletante saxofonista conheceu, por exemplo, o afro-beat de Fela Kuti. Durante um intercâmbio na Inglaterra, país que alavancou para o mundo o reggae jamaicano, Pereira foi arrebatado por Bob Marley, que imediatamente entrou para o seu panteão de sumidades da diáspora musical africana, espaço afetivo também povoado por James Brown e Al Green.

Além da “xeretice” em comum aplicada ao rico universo da Mãe-África, a simbiose que resultou na sonoridade singular d’Os Mulheres Negras também passou pelo desprezo do elitismo estético-musical manifestado por Abujamara. “A gente gostava de Chitãozinho e Xororó, Milionário e José Rico do mesmo jeito que gostava de John Cage, rock n’ roll e música de preto. Não tinha rixa entre uma música e outra. A gente não tinha bronca de música comercial. Ouvia as coisas mais loucas e experimentais com o mesmo tesão que ouvia Ray Coniff e Frank Pourcell.”

A constatação de que seus fãs, além de fiéis, também são “anfíbios” deliciosamente converge com um episódio divisor para Mauricio Pereira e André Abujamra. De vida efêmera, mas com o registro de dois álbuns cultuados desde o lançamento, Música e Ciência (1988) e Música Serve Pra Isso (1990), Os Mulheres Negras foram parar na Warner, gigante mundial da indústria fonográfica, graças a um show realizado em uma biblioteca pública de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Em meio à escassa plateia, afugentada do evento por conta de uma chuva tão imponente quanto a do último sábado, havia um interlocutor de grande influência no mercado musical do País, o produtor Pena Schimidt, que abreviou o caminho da dupla para a Warner.   

“O Peninha já tinha garimpado em São Paulo Titãs, Ira!, Inocentes, Ultraje, bandas que ele havia levado pra Warner e a Warner gravou. E ele foi ver o show da gente – não sei como é que chegou na orelha dele –, acabou o show, ele deu um cartãozinho e falou ‘apareçam lá’. Fomos conversar e a gente estava apavorado. Lembro que na sala de espera a gente até brigou. ‘Pô, eles vão dar um monte de dólar pra gente, a gente vai se vender, a gente vai ficar burro, embotado da criatividade, eles vão pentear o cabelo da gente’.”

Veja o segundo capítulo do Showlivre.DOC com Mauricio Pereira:

 

Além dos 30 anos do lançamento de Música e Ciência, em 2018 Mauricio Pereira também celebrou os 20 anos de lançamento de Mergulhar na Surpresa, seu álbum de estreia como “cantautor” em carreira solo. Gravado em três dias de forma despojada, com a instrumentação dividida com o pianista Daniel Szafran, o álbum também contou com colaborações de amigos como Skowa, Mário Manga, Paulo Lepetit e Tonho Penhasco. Hoje cultuado o álbum, no entanto, não trouxe maiores expectativas de continuidade para o artista, condição superada somente cerca de uma década depois com uma movimentação revisionista do valor da obra de Pereira, personagem cultuado por uma nova geração de artistas.

“A gente (Mauricio e Daniel) estava meio deprimido com a parada. Eu cheguei a anunciar meu saxofone num classificado de jornal. Estava fazendo mil biscates. Por conta dessa coisa de me formar jornalista, quando a coisa fica mais dura – e quase sempre ela está para um artista independente – eu vou buscar trampo fora. Mas começou a aparecer um cenário de gente interessada em canção. E eles começaram a falar o meu nome, por volta de 2005. E foram gentes que meu ouviram depois do Mulheres Negras. Isso que é mais louco, porque a maioria me conhecia pelo Mulheres e não pelo trabalho de canções dos anos 1990. Em 2007, eu lancei o Pra Marte. No fundo, achava que seria meu último disco. Então me dei muita liberdade de fazer o Pra Marte. E liberdade para mim não é algo muito escandaloso. Liberdade, para mim, é baixo, bateria, guitarra e um cara cantando. Stones, né? Tem algumas canções fortes ali. Conforme eu fui ficando mais velho, as músicas foram ficando mais fortes, o formal também, mas canção é que nem pneu: você vai gastando, amaciando; sapato é assim também. Lancei o disco em 2007. Em 2010, o Metá Metá gravou Trovoa. O Metá Metá era uma banda que estava muito forte no cenário independente. E isso levou a música pra mão de muita gente. Levou pra mão do Marcus Preto, que levou pra Maria Gadú e depois levou pr’A Banda Mais Bonita da Cidade. Trovoa foi trazendo meu nome aos poucos, e aproveitei isso. Então, hoje estamos em 2018 e ainda estou fazendo meu público. Estou usando as redes sociais para chegar no público que me conhece pelo Metá Metá, pelo Mulheres, pelo boca a boca. É um caminho muito mais lento do que o do Terno, do meu filho (o compositor e guitarrista Tim Bernardes, vocalista da banda paulistana) porque eles nasceram num momento em que já estão na cena, têm a maneira de pensar esse intercâmbio. Eles tem 20 e poucos anos. Eu vou fazer 60. Hoje sou mesmo um cantautor mais velho.”        

Veja o capítulo final do Showlivre.DOC com Mauricio Pereira: 

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MAIS

No último dia 12, Mauricio Pereira lançou um combo que reúne os álbuns Mergulhar na Supresa e Outono no Sudeste. Saiba mais

Nesta quarta-feira (20), Mauricio Pereira estará no teatro Guarany, em Santos, no litoral sul paulista, para ministrar, a partir das 20h, a palestra O Show Como Espetáculo. Saiba mais.

Veja a apresentação de Mauricio Pereira no Estúdio Showlivre. Ouça também o álbum no Spotify.

David Bowie em retrato de Gerald Fearnley, mesmo autor da foto da capa do primeiro álbum do artista, de 1967. Foto: Divulgação / Deram Records

O dia em que David Jones virou David Bowie

Transição de codinome artístico envolve receio de perda de direitos autorias, um herói do Velho Oeste e uma famosa faca

Postado em 14/01/2019 por

Na última terça-feira (8), em redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, milhões de fãs ao redor do mundo prestaram homenagens a David Bowie, por ocasião da passagem de seu 72° aniversário de nascimento.

Morto exatamente dois dias após completar 69 anos, em 10 de janeiro de 2016, o músico britânico, um dos artistas mais criativos e influentes para o rock e a música pop do século 20, nasceu no distrito de Brixton, em Londres, e foi batizado David Robert Jones.

No início de sua carreira, profissionalmente desenvolvida desde a adolescência, quando aos 15 anos ele integrou a banda The Kon-Rads, o futuro astro do rock primeiro adotou o nome artístico David Jones.

No entanto, pelo receio de que fosse confundido com o também roqueiro e perdesse direitos autorais para Davy Jones, artista que depois integraria o The Monkees, em 14 de janeiro de 1966, há exatos 53 anos, David Jones passou a definitivamente usar o pseudônimo David Bowie.

Mais que uma simples alcunha, a transição de nome também dá início à visível construção de uma personagem em constante mutação, multifacetada inclusive em outras alcunhas, como o célebre personagem Ziggy Stardust. Não por acaso, o clichê “Camaleão do Rock” é difundido até hoje para se referir a David Bowie.

A motivação do jovem David Jones para a escolha do novo nome artístico demonstra o quanto Bowie era ligado na cultura norte-americana, uma vez que o sobrenome adotado por ele faz referência a um legendário personagem dos Estados Unidos do século 19, James Bowie, um destemido comandante do Exército morto na Batalha do Álamo, uma sangrenta disputa por domínio territorial entre mexicanos e norte-americanos ocorrida no Texas em 1836. O contato de Bowie com o universo do aventureiro não se deu, no entanto, por meio de livros de história, mas graças ao filme The Alamo, lançado, em 1960, pelo diretor John Lyons.

James “Jim” Bowie, herói nacional para muitos norte-americanos, também ficou famoso pela coragem de desafiar opositores municiados de armas de fogo com o uso peculiar de uma faca com lâmina comprida de desenho atipicamente forjado. A faca, posteriormente utilizada como instrumento de caça e para abrir trincheira em ambientes selvagens, é mundialmente conhecida como “Bowie Knife” (veja fotos).

Quando questionado sobre o porque do nome David Bowie, David Robert Jones hora contava a história de The Alamo, hora afirmava gostar da sonoridade do nome da “grande faca americana de matar ursos”. Mas não se deixe enganar: para alívio de muitos fãs, Bowie foi por décadas vegetariano e também defensor do direitos dos animais.

MAIS
Ouça o primeiro álbum solo de David Bowie

Se você curte rock, não pode deixar de conferir a retrospectiva com as melhores apresentações do gênero no Estúdio Showlivre em 2018

O cantor e compositor Jards Macalé. Foto: José de Holanda / Divulgação

Novos single e videoclipe de Jards Macalé antecipam álbum que encerra hiato de 20 anos

Lançada nesta sexta-feira (11), ‘Trevas’ é adaptação livre de um poema de Ezra Pound. Disco de inéditas traz parcerias e direção artística de Romulo Fróes

Postado em 11/01/2019 por

Depois do susto pregado nos fãs em fevereiro de 2018, quando foi internado com um grave quadro de infecção pulmonar, recuperado, o cantor e compositor carioca Jards Macalé atravessou o último ano com dedicação máxima à produção de seu novo álbum de inéditas, trabalho que será lançado neste primeiro trimestre de 2019, pelo selo Natura Musical, e que encerra um hiato de 20 anos desde seu último disco autoral,  o álbum O Q Faço é Música, de 1998.

Alento para os admiradores mais ansiosos, Macalé, que completará 76 anos em 3 de março, antecipou nesta sexta-feira (11) o primeiro single do novo trabalho. Intitulada Trevas, a canção é uma adaptação livre do poema Canto I, de Ezra Pound, a partir da tradução dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, a trinca de ases da poesia concreta.

Trevas é sobre o Brasil do futuro. Chegamos ao poço mais fundo, chegamos ao limite, chegamos ao Brasil de 2019″comenta Macalé na apresentação à imprensa do novo single, que também ganhou um videoclipe. Apinhado de referências ao artista visual Helio Oiticica, grande amigo de Macalé, ao poeta modernista Oswald de Andrade, ao cineasta marginal Andrea Tonacci e ao canônico escritor irlândes James Joyce, o clipe foi co-dirigido a quatro mãos, pelo poeta e designer Gabriel Kerhart e o cineasta Gregorio Gananian, também diretor de Inaudito, sensível documentário sobre a vida e obra do guitar-hero tropicalista Lanny Gordin. Gananian, aliás,  já havia trabalhado com Macalé na co-direção, ao lado de Chico França, do espetáculo Sinfonia D Jards (leia reportagem no final deste texto). Apresentada em 2012 no Teatro Oficina, em São Paulo, a retrospectiva da carreira de Macao, como o músico também é conhecido, contou com a presença de Lanny, parceiro decisivo para a sonoridade de Jards Macalé, o emblemático álbum de estreia do compositor carioca, lançado em 1972.

De letra soturna, como sugere o título, Trevas contou com direção musical do próprio Macalé, direção artística de Romulo Fróes e produção musical de Kiko Dinucci e Thomas Harres, respectivamente responsáveis pelos mesmos papeis na feitura do aguardado novo álbum. O trabalho também reúne parcerias e colaborações de grandes talentos de nossa música popular contemporânea, como Ava Rocha, Tim Bernardes, Clima, Rodrigo Campos e Thomas Harres.

No novo álbum, os fãs também terão a alegria de ver retomada a histórica dobradinha Macalé / Capinam, que assinam novas parcerias. Ao lado do poeta baiano, vale lembrar, Macao escreveu quatro das mais emblemáticas canções de seu álbum de estreia: Farinha do Desprezo78 rotaçõesMeu amor, Me Agarra e Geme e Treme e Chora e Mata e a emocionante Movimento dos Barcos. No final dos anos 1960, José Carlos Capinam também foi sócio de Macalé  na fundação da produtora cultural Tropicarte.

Em setembro de 2016, com o lançamento do box Jards Macalé Anos 1970, entrevistei o artista, pela segunda vez, para a extinta revista Brasileiros. Entre os quatro CDs reunidos na caixa, 14 faixas inéditas foram então reveladas pelo produtor Marcelo Froes, do selo Discobertas, responsável pelo lançamento. Entre as relíquias, assim como Trevas, três canções eram adaptações de poemas de alguns dos autores prediletos de Macalé. São elas: Luz (Ezra Pound), Transformar o Mundo (Bertolt Brecht) e Pasar La Vida (Gregório de Matos). Na ocasião, o artista explicou como se dava o processo de transmutação de poemas em canções. “Durante a leitura, esses textos chamavam minha atenção não só pela beleza da escrita, mas também pela melodia natural que havia nesses poemas. Foi isso que me levou ao desejo de musicá-los.”

Trevas
A sonoridade crua e densa da nova composição, impregnada de texturas de guitarra fuzz de Gui Held (não por acaso, discípulo e parceiro de Lanny em alguns projetos) funde elementos de rock com trechos de dissonante influência bossanovista, escola primeira de Macao. Além da presença concisa de Kiko Dinucci (violão), Thomas Harres (bateria) e Pedro Dantas (contrabaixo), chama atenção um inusitado artifício usado pelo autor de Trevas. Para dar ênfase à frase “chegamos ao limite da água mais funda, debaixo d’água”, o artista sugeriu a captação de sua voz com a utilização de uma bacia cheia d’agua para que ele cantasse os versos com a cabeça submersa no recipiente plástico. O resultado é instigante. Ligando esse gesto ao contundente depoimento utilizado por Macalé para explicar o sentido de Trevas, não é exagero atribuir ao improviso vocal uma conotação cifrada do temor de ver redivivos expedientes de tortura que aterrorizaram a ele e seus pares nos anos 1970.

“A mim, pessoalmente, se tivesse me contado sua ideia, certamente teria tentado dissuadi-lo de realizá-la, por talvez achar redundante e ingênua a tentativa de emular o trecho da letra”, comentou Romulo Fróes na mesma apresentação à imprensa. “Mas o fato é que esse procedimento não apenas injetou um veneno que Macalé tanto queria para essa parte, como criou novas metáforas nada ingênuas. Foi mais um dos muitos ensinamentos que Macalé nos presenteou de modo nada didático, durante todo o processo do disco. Coisas de um artista verdadeiro”, conclui Fróes.

Ainda sem título anunciado, o novo álbum de Macalé foi um dos projetos selecionados na edição 2017 do edital Natura Musical, que tem apoio da Lei Rouanet. Segundo Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional, a realização do projeto é motivo de orgulho para o núcleo de incentivo à música da Natura. “O patrocínio do programa a este novo trabalho do Jards reverencia todo o legado que o artista ajudou a construir para a música brasileira e aposta no que a ousadia dele é capaz de impulsionar. Jards tem o dom de instigar, provocar e inquietar. E essa injeção de vida é mais do que necessária para este momento e para o futuro da música.”

Quem conhece a dimensão única da arte de Jards Macalé sabe que é impossível discordar de Fernanda. Que venha então o álbum, para saciar a ansiedade dos fãs!

Assista ao videoclipe de Trevas 

MAIS
Leia a reportagem Diários de Macalé, um relato deste repórter sobre os bastidores dos quatro dias de filmagens, no Rio de Janeiro, destinadas ao espetáculo Sinfonia D Jards 

Se você curte MPB, não pode deixar de conferir nossa retrospectiva com os melhores shows do gênero no Showlivre em 2018

 

 

 

 

   

 

DJ Marky subverte o uso das pick-ups em apresentação no Showlivre ELM. Foto: Aline Oliveira

Remix de DJ Marky dá nova roupagem a ‘Praise You’, mega-hit lançado por Fatboy Slim em 1998

Releitura foi feita a convite do artista britânico e apresenta o toque inconfundível do drum n’ bass do DJ e produtor brasileiro

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Quem viveu adolescência ou juventude na última década do século 20 certamente recorda: em 1998, um dos hits mais onipresentes em rádios, TVs e pistas de dança foi, sem dúvida, Praise You, faixa que, ao lado de Rockafeller Skank, outro sucesso estrondoso, fez do álbum You’ve Come a Long Way, Babe, do DJ Fatboy Slim, um dos campeões de venda daquele ano.

Vinte anos depois, Praise You ganha nova roupagem com um remix feito por outro legendário craque dos toca-discos, o brasileiro, de trânsito mundial, DJ Marky. Com BPM desacelerado e o inconfundível tratamento drum n’ bass de Marky, o single foi lançado pela Stink Records, selo mundialmente distribuído pela BMG, em 28 de dezembro de 2018. Amigo do DJ britânico desde o começo dos anos 2000, quando eram comuns os encontros da dupla em festivais ao redor do mundo, Marky foi especialmente convidado por Fatboy Slim para produzir o remix. Confira abaixo o resultado.

Presente no mercado fonográfico desde os anos 1980, quando então integrava a banda Housemartins, do grudento hit Build, Fatboy Slim primeiro enveredou pela música eletrônica ao criar o quarteto Beats International, ainda sob o nome de batismo, Norman Cook. Em 1996, com o lançamento de Better Living Through Chemistry, o DJ e produtor assume a alcunha de Fatboy Slim e torna-se um dos mais populares expoentes do Big Beat, subgênero da música eletrônica (também difundido por artistas como Chrystal Method, Prodigy e Chemical Brothers) que promove uma infalível mistura de elementos dançantes: bases de funk setentista, baixos sintetizados de disco-boogie, batidas de hip-hop, beats pesados de drum machines e efeitos lisérgicos de sintetizadores frequentemente usados por artistas de acid house.

Em 2018, DJ Marky fez um set matador no Electronic Live Music Showlivre. Assista ao vídeo na íntegra.

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Se você curte música eletrônica, não pode deixar de conferir nossa retrospectiva com os dez melhores DJ sets apresentados no Showlivre ELM.

 

 

John, Ringo, Paul e George em registro de 1963. Foto: Divulgação / Parlophone Records

Beatlemania: há 55 anos, John, Paul, George e Ringo lançavam o primeiro álbum nos EUA

LP apresentava a banda como o ‘o grupo vocal n° 1 da Inglaterra’ e, mesmo tirado de circulação nove meses depois, vendeu 1,3 milhão cópias

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Na manhã de 7 de fevereiro de 1964, cerca de cinco mil fãs e 200 jornalistas tomaram de assalto os corredores e o saguão do aeroporto internacional JFK, em Nova York, para recepcionar um Boeing 707 da companhia aérea Pan Am que, partindo do aeroporto de Heathrow, em Londres, trazia os quatro integrantes dos Beatles para a primeira turnê da banda nos Estados Unidos.

Era o começo da beatlemania. Fenômeno mundial que, no entanto, teve como episódio anterior e embrionário um lançamento fonográfico realizado em 10 de janeiro de 1964, há exatos 55 anos, quando passou a ser comercializado nos Estados Unidos Introducing… The Beatles, uma versão reduzida de Please Please Me (o álbum de estreia da banda, lançado na Inglaterra em 1963), editada pelo selo Vee-Jay Records. Com 12 faixas, duas a menos que a versão original (ficaram de fora P.S. I Love You e Baby It’s You), o LP entrou para a história como o primeiro álbum do quarteto britânico a ser editado no mercado fonográfico norte-americano.

Na capa do LP, além da foto de produção, digamos, precária (veja abaixo), chama a atenção o equivocado subtítulo “o grupo vocal n° 1 da Inglaterra”. A despeito das complexas harmonias vocais defendidas pelos quatro rapazes de Liverpool, a sonoridade revolucionária apresentada por John, Paul, George e Ringo talvez merecesse destaque ainda maior, mas, com o benefício que temos hoje do distanciamento histórico que coloca as coisas em seu devido lugar, é razoável considerar perdoável o reducionismo cometido 55 anos atrás pela Vee-Jay.

usa_introducing-the-beatles Beatlemania: há 55 anos, John, Paul, George e Ringo lançavam o primeiro álbum nos EUA

Capa da versão estéreo do álbum Introducing… The Beatles, lançado há exatos 55 anos. Foto: Divulgação / Vee-Jay Records

 

Vacilo maior, afinal, cometeu a Capitol Records, subsidiária da EMI nos EUA, esta última, a gigante multinacional que detinha a distribuição mundial da Parlophone, o selo inaugural dos Beatles. Desde o lançamento de Please, Please Me no Reino Unido, a Capitol desdenhava do potencial mercadológico de apresentar a banda ao público jovem norte-americano, permitindo que o licenciamento da obra fosse primeiro assumido pela Vee-Jay Records, selo baseado em Chicago, criado pelo casal Vivian Carter e James C. Bracken (daí o “VJ” da marca) e especializado em jazz, rhythm & blues e rock n’ roll. Com a resposta imediata dos fãs, que correram às lojas para garantir suas cópias de Introducing… The Beatles, dez dias depois, a Capitol se redimiu do deslize histórico ao lançar a toque de caixa o álbum Meet The Beatles!.

Nos três meses seguintes, impulsionados pela turnê norte-americana dos “fab four”, os dois títulos mantiveram respectivamente o segundo e o primeiro posto das paradas de discos mais vendidos nos EUA. Sorte menor, no entanto, teve a Vee-Jay Records. Depois de um imbróglio jurídico com a gigante EMI, em 15 de outubro de 1964, a gravadora de Detroit perdeu o direito de distribuir o LP. Em nove meses de comercialização, o saldo foi, no entanto, positivo: o pequeno selo fez circular mais de 1,3 milhão cópias do LP. Menos pior para o casal Viivan e James que, além de entrar para a história da música do século 20, pôde também financiar outros projetos de sua gravadora.

Assista ao vídeo que documenta a chegada dos Beatles em Nova York na manhã de 7 de fevereiro de 1964.


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Gross 


Catavento


All You Need is Love 


No Estúdio Showlivre, músicos da banda The Jordans falam do encontro que tiveram com os Beatles em 1966