Leonardo Vinhas


Leonardo Vinhas é jornalista, produtor cultural e massoterapeuta (!). Começou a escrever sobre música quando fanzines em papel ainda eram a fonte 'alternativa' de informação e não parou desde então. Já produziu uns discos e festivais, e escreveu para mais publicações que consegue se lembrar.

Detalhe do palco do festival Conexão Latina. Foto: João Henrique Moldenhauer / Agência Conexão Latina

OPINIÃO EM PAUTA
Sobre organizar um festival

O aprendizado que vem quando se decide montar um evento gratuito de três dias com atrações internacionais no cenário nacional atual

Postado em 07/12/2018 por

Em 2018, dei à luz um projeto antigo e querido: fazer um festival dedicado à integração latino-americana. Na verdade, o Festival Conexão Latina foi organizado por mim e por Mayra Rizzo (musicista e diretora da agência Conexão Latina), e sem falsa modéstia, acredito que o trabalho mais pesado tenha cabido a ela e não a mim. Seja como for, os dois labutamos muito, durante 18 meses, para que o evento acontecesse o mais perto possível de como o imaginávamos: gratuito, de fácil acesso, e com outras frentes que não apenas a música.

O festival aconteceu em novembro, e em nossa avaliação, nossas modestas expectativas foram superadas. Ou seja, foi um sucesso, mas não é por autobravata que escrevo este texto – até porque nem tudo saiu como gostaríamos que tivesse saído. Organizar um festival, depois de passar anos frequentando vários deles e trabalhando em outros tantos, traz diferentes aprendizados – sobre música, claro, mas também sobre união, política, administração, carreira e vários outros, e é sobre algumas dessas “lições” que esse texto trata.

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Lyla May e convidados. Foto: João Henrique Moldenhauer e Cibele Amaral

A primeira questão que vale pensar é sobre o termo “festival independente”. É difícil enxergar independência em um evento que está atrelado a grandes marcas ou que precisa do apoio de editais para acontecer. Nada contra nenhuma dessas formas de financiamento – pelo contrário, buscamos ambas. Mas acho que podemos chamar os eventos que predominam no cenário de “festivais de médio porte”, porque independência não é o caso, e até valeria discutir se ela é algo que tem um valor real. Afinal, do que vale ser “independente” e entregar algo ruim?

Isso posto, é com alguma liberdade poética que chamo o Conexão Latina de “festival de médio porte” – mas apenas porque nosso porte era assumidamente pequeno, e se provou um pouco maior na prática. Conseguimos o apoio do programa de fomento à cultura Ibermúsicas, ganhando um edital de circulação que nos permitiu pagar as passagens e o deslocamento do músico argentino Edu Schmidt e de sua banda.

Aliás, sabe porque o Conexão Latina foi um dos únicos dois festivais brasileiros contemplados na seleção do Ibermúsicas? Porque lemos o edital e fizemos nosso projeto de acordo. Pode parecer surpreendente, mas muitos artistas e produtores são desqualificados de editais de fomento à cultura por não respeitarem prazos (geralmente, bastante extensos) de entrega de documentação, por não se atentarem a normas técnicas de redação ou não responderem a todas as questões propostas pelo programa – isso quando os projetos não são mal redigidos mesmo. Não basta a tal “ideia na cabeça”: é preciso muita paciência, tempo e olhar para detalhe, além de planejamento e disposição para lidar com burocracia.

 

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Edu Schmidt e Leonardo Vinhas, co-organizador do Conexão Latina. Fotos: João Henrique Moldenhauer e Cibele Amaral

 

Além do Ibermúsicas, conseguimos o apoio dos locais onde o festival foi realizado – Mundo Pensante, Lab MP e Projeto Alberto Seabra 1128, todos na capital paulista. Eles entraram com quase toda a estrutura de som e iluminação – o que é um grande aporte, acredite. Além disso, o Mundo Pensante/Lab MP arcou com o bar e a alimentação nos dois primeiros dias, além de colaborar com uma pequena verba, e a Projeto Alberto Seabra 1128 forneceu os insumos para a etapa gastronômica que encerraria o evento.

Ainda assim, um bom montante era necessário para cobrir custos de deslocamento dos demais músicos, despesas de promoção (que vão da confecção de cartazes à gestão das redes sociais), hospedagem de site, alimentação e outros tantos. Se alguém disser que fez festival com “custo zero”, esteja certo: essa pessoa está mentindo desavergonhadamente.

“E cachês e salários dos músicos e da equipe?”, você pode perguntar. Bem, chegou uma hora que ficou claro para nós, organizadores, que não lucraríamos com o evento, e seriam necessários sorte e habilidade para que não tomássemos prejuízo. Aí entra um baita dilema.

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Molina e Yangos. Fotos: João Henrique Moldenhauer e Cibele Amaral

Tocar música é um trabalho e tem que ser pago. Pronto. Mas como conseguir isso com um evento grátis e de orçamento restritíssimo? Conversamos abertamente com os músicos, e eles se dispuseram a tocar sem cachê, por acreditarem na proposta do festival. Para nós, como produtores, foi tocante – mas também um tanto desconfortável, por acreditar que eles mereciam mais que nossa gratidão.

Propusemos, nos três dias, a ideia de evento colaborativo, no qual cada espectador daria uma contribuição caso se sentisse à vontade para tanto. Chegou-se a um certo montante, mas que não configurou nenhum acréscimo significativo na receita do festival. O pouco excedente foi repassado aos músicos. Todo o resto da equipe – designers, assistentes de produção, fotógrafos e os dois organizadores – não tiveram remuneração.

Vale a pena fazer um festival nessas condições? Pelos resultados obtidos, eu não tenho dúvida de que valeu. Principalmente porque tanto a pré-produção quanto o evento propriamente dito comprovaram, na prática, que existe essa conexão latina, que tem muita gente mais interessada em união do que em polarização, e que está disposta a usar a música ou a educação como plataforma para aproximar as culturas latino-americanas (e por conseguinte, as pessoas). Também porque a enorme maioria do público era de completos desconhecidos – gente que compareceu por acreditar na premissa e na qualidade do evento, e não na brodagem com os organizadores.

Claro que também passamos pelas picuinhas do meio – gente que fala entusiasmadamente que vai “dar todo o apoio” e “fazer parcerias” mas desaparece na hora H, artista com rancor porque não foi convidado a tocar e coisas assim. Mas são pontos pequenos demais para merecerem mais que este parágrafo.

Vivenciar a experiência de armar um festival internacional com poucos recursos e com uma pauta um tanto ambiciosa foi uma espécie de intensivão sobre os meandros da produção cultural de médio porte hoje, a relação entre arte e consumo, e o que existe de verdade atrás de muitos dos discursos do meio. Obviamente, a segunda edição do festival será feita levando em conta os aprendizados dessa primeira – e como diz Fernando Rosa, organizador do El Mapa de Todos, “festival só encontra sua cara definitiva a partir da quinta edição”.

 

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Artistas, público e staff reunidos no encerramento do Festival Conexão Latina. Fotos: João Henrique Moldenhauer e Cibele Amaral

 

O B 52s em registro do começo dos anos 1980, em sua formação original. Foto: Reprodução / Facebook B 52s Oficial

OPINIÃO EM PAUTA
B-52s e uma liçãozinha para a geração lacração

Um breve retrospecto no legado do quinteto comprova o pioneirismo da maior banda queer da história

Postado em 21/11/2018 por

Não há nenhuma efeméride especial para recordar dos B-52s hoje, em pleno 2018. Mas talvez não exista tempo melhor para recordar sobre a banda que agora. Afinal, trata-se de uma banda que conseguiu fazer muito por uma causa… sem transformar a dita “causa” no único eixo da sua exposição pública.

Um pouquinho de história beeem resumida: os B-52s (ou, até 2008, B-52’s, com apóstrofo) eram um quinteto que nasceu em meio a uma bebedeira em um bar. Os irmãos Cindy e Ricky Wilson, mais os amigos Fred Schneider, Kate Pierson e Keith Strickland tomaram várias em um restaurante chinês em Athens (no Estado da Geórgia, EUA), começaram uma jam ali mesmo, viram que dava liga e decidiram montar uma banda. Treze anos depois, seriam um dos maiores nomes do pop mundial, cometendo vários bons discos ao longo do caminho. Entre idas e vindas, a banda faz shows até hoje, e nem mesmo a idade (Kate, a mais velha, completou 70 este ano) os impede de seguir em frente.

Os B-52s foram um dos primeiros ícones queer da história da música pop. Sua sexualidade ambígua, o visual espalhafatoso (perucas coloridas, vestidos e paletós que pareciam saídos de um desenho animado) e as performances estridentes chamavam atenção, tanto quanto sua música veloz, mininalista e dançante.

As letras tinham um humor malandro, que podia apontar a falsificação de dinheiro como a melhor maneira de sair da crise (Legal Tender), distopias realistas demais (Channel Z), trepar num refúgio de estrada (Love Shack) ou até sobre festas psicodélicas em companhia da vida marinha (Rock Lobster).

Veja um dos registros ao vivo de melhor qualidade do B 52s. Disponível no YouTube, o show foi realizado em Dortmund, na Alemanha, em 14 de maio de 1983.

Embora não trouxessem nenhuma referência homoafetiva direta, foram imediatamente adotados pelas comunidades LGBT do hemisfério ocidental. Para se ter uma ideia, o ativista gay Aaron Fricke batizou sua autobiografia de Reflections of a Rock Lobster, em referência ao primeiro sucesso da banda, Rock Lobster. No livro, Fricke conta que tomou coragem para se assumir homossexual ainda no ensino médio, em plena era Reagan, graças à música dos B-52s. E Gus Van Sant não batizou seu emblemático filme Garotos de Programa, que consagrou River Phoenix, em referência a uma canção dos georgianos por acaso (o título original é My Own Private Idaho).

Uma tragédia viria a reforçar essa associação: Ricky Wilson, guitarrista e então principal compositor do grupo, faleceu em 1985 por complicações decorrentes da AIDS, até então tratada por parte da sociedade como “uma doença de gays”.  Wilson era o único que tornava pública sua homossexualidade, e a banda falou abertamente sobre a doença nos anos que se seguiram ao seu falecimento. Se a comunidade LGBT já se identificava, passaram a ter neles vozes seguras, sem meias-palavras, sobre uma doença que gerava muito preconceito e ideias equivocadas. Schneider e Strickland se assumiriam gays na década de 1990, e Kate levaria ainda alguns anos para tornar pública sua bissexualidade (Cindy é hetero). Mas os B-52s já tinham “representatividade” desde sempre.

“Ninguém nos perguntava se éramos gays até 1992”, declarou Keith Strickland ao site Pitchfork, que após a morte de Ricky assumiu o posto de principal compositor. “Era quase subversivo que não falássemos a respeito. Estávamos apenas tentando ser nós mesmos. Ser gay era apenas uma parte disso. É bem isso o que queríamos que o mundo fosse, sabe? Você só vive sua vida e a orientação sexual é apenas uma parte dela. Acho que era, tipo, mais revolucionário por causa disso. As pessoas ou se ligavam a nós nesse nível ou simplesmente não se ligavam. Algumas pessoas sacavam, outras não, mas nós certamente nunca tentamos esconder. Nossa música e nossa imagem meio que falavam por si – essa era a afirmação. Estávamos dizendo que era OK ser diferente simplesmente vivendo”.

Numa época de tantos discursos, discussões agressivas sobre quem tem “lugar de fala” e músicos que calcam na “lacração” toda a sua sustentação, vale muito a pena reexaminar a carreira do B-52s. Uma banda que usava a atração em vez do choque, que cooptava pela alegria e não pela exclusão. E mais que tudo, que fazia arte – suas canções eram, sim, pop acessível, mas impressionantes a ponto de seguirem vigentes há décadas, influenciarem muita gente (o movimento riot grrrl, R.E.M., Deerhunter, The Gossip, Scissor Sisters, boa parte da “new wave” brasileira e até do pop japonês), a terem angariado fãs como John Lennon (que elogiou a banda em sua última entrevista), Nile Rodgers (que viria a coproduzir os álbuns Cosmic Thing e Good Stuff), Frank Zappa e William Burroughs.

B-52s_Agosto-1980 B-52s e uma liçãozinha para a geração lacração

O B 52s em foto de divulgação da gravadora Warner, em agosto de 1980, ocasião em que foi lançado ‘Wild Planet’, o segundo álbum da banda. Foto: Divulgação / Warner

Você pode argumentar que o Queen também se encaixava nesse perfil – e estaria parcialmente certo, já que Freddie Mercury também inspirou muita gente mais por seus atos e seu modo de vida que pelo discurso. Mas o Queen enquanto banda não se encaixava nisso: por mais que fossem músicos notáveis e excelentes compositores, Roger Taylor, John Deacon e Brian May eram ofuscados pela persona gigante de seu frontman. Por isso a ousadia de definir o B-52s como a maior banda queer da história.

O papo aqui não é especificamente sobre a questão LGBT – poderia ser sobre direitos humanos, questões ambientais, políticas públicas, entre tantos outros. O interessante é notar quão grande foi o impacto dos B-52s, e ver que isso foi conseguido sem transformar seu modo de vida em ferramenta mercadológica ou discurso de exclusão.

MAIS
Em 1985, o B 52’s foi um dos destaques da primeira edição do Rock in Rio. A apresentação pode ser vista, na íntegra, no YouTube. Assista ao vídeo.

 

Confira também os textos dos outros colunistas do Showlivre.com 

Registro Dissonante, coluna de Renato Thibes sobre afinidades eletivas enter rock, pop, cinema, literatura
Quintessência, na coluna de Marcelo Pinheiro, a história de 50 álbuns primordiais da música brasileira de 1960 a 1980
Engrenagem Pop, tudo que movimenta o universo do mais popular gênero musical, na coluna de Leonan Oliveira
Pódio Musical, conexões afetivas entre a música, o cinema e as séries de TV, no ranking particular de Gabriel Alves

 

 

 

 

Na música de hoje, a divisa entre admiração e repulsa é cada vez mais tênue (ilustração: Luiz Miranda)

OPINIÃO EM PAUTA
Seu artista preferido é um babaca

Valores pessoais e apreciação artística precisam mesmo andar juntos? Pensar nisso é algo que vale a pena, especialmente nesses tempos de paixões exaltadas

Postado em 05/11/2018 por

Eu tinha 19 ou 20 anos e fui entrevistar uma das minhas bandas preferidas no período. Eles tinham pertencido à “série B” do rock brasileiro nos anos 80, mas ali, segunda metade dos anos 90, estavam experimentando grande sucesso por conta de um daqueles projetos de marketing travestidos de disco. Eu já escrevia sobre música desde os 16 anos, mas era a primeira vez que eu entrevistaria alguém “famoso” e que eu gostava de verdade.

A conversa aconteceu no camarim após o show, certamente a pior combinação de hora e local para obter algo jornalisticamente interessante. Mesmo assim, o vocalista se mostrou um cara verdadeiramente apaixonado por música e interessado em coisas novas, enquanto o guitarrista (e principal compositor) estava desatento a qualquer coisa que não fosse seu próprio ego. Deu respostas vazias, destratou fãs que atravessavam a conversa, depreciou colegas de banda (inclusive o vocalista em questão) e foi um completo imbecil com a equipe de produção do show.

Voltei para a casa, escrevi meu texto, e na primeira oportunidade que tive, levei os álbuns da banda ao sebo. Não queria ter em casa nada que me lembrasse aquele comportamento pueril do cidadão, não queria nem mesmo pensar que eu havia gastado meu suado dinheiro com algo que ele criara.

Isso, claro, era minha visão de um moleque recém-saído da adolescência, que não tinha maturidade para separar alhos de bugalhos. Os anos se passaram, e não só voltei a ouvir a banda como comprei alguns CDs novamente, fui a muitos shows e os entrevistei mais algumas vezes – nas quais, vale dizer, o padrão de comportamento dos referidos integrantes permaneceu inalterado.

Quando ainda existia um mercado de jornalismo musical, encontrávamos tempo para discutir questões éticas do ofício, como se era viável ou não o jornalista ser amigo de músico. É possível manter o necessário distanciamento quando você tem apreço pelas pessoas cuja obra você está analisando? Essa discussão aconteceu muitas vezes na minha carreira, mas acho que vale adaptar hoje em dia para outra questão: dá para você gostar de uma música feita por alguém que se porta de uma maneira que você acha condenável?

O tema não é bobo. Não é de hoje em que alguns artistas são saudados por seu engajamento ou comportamento fora dos palcos e estúdios, enquanto outros são desprezados ou vilipendiados pelo mesmo motivo. Porém, o engajamento, mesmo que seja importante e bem-vindo em muitos casos, não tem ligação direta com a qualidade da produção artística.

Em um excelente texto na revista eletrônica Movin Up, o jornalista Mauricio Angelo escreveu:

“Pablo Vittar é um artista limitadíssimo, de músicas de qualidade no mínimo questionáveis – mas sem dúvida foi o maior personagem de 2017. Uma coisa não elimina a outra. Anitta, alçada a rainha da emancipação feminina por mostrar sua bunda com celulite na abertura de um clip que se tornou viral (clip este dirigido por um assediador serial como Terry Richardson) não foi capaz de manter sua suposta posição ao se calar no assassinato de Marielle Franco (prontamente cobrada por seu público), mostrando o que qualquer um era capaz de ver: que só se compromete até certo ponto – até o ponto que não prejudique a sua possibilidade de lucro e de alcance.

Liniker é bom mesmo ou só foi amado por ser quem é? Desconfio da segunda opção. As Bahias e a Cozinha Mineira, Rico Dalasam (já comentado aqui), Linn da Quebrada, Gloria Groove, Aretuza Lovi, Ventre, Jaloo, Johnny Hooker, Karol Conká, Letrux, Francisco, El Hombre, até casos como os do Apanhador Só, pegos em sua ânsia de ser ‘feministo’, levados na enxurrada do linchamento de reputações, revelados como abusadores internet afora e que gerou até uma ‘lista de artistas a evitar’”.

Valorizar a postura de um artista não implica em endossar, ou mesmo curtir, sua obra. O mesmo vale para quando você despreza essa postura.

Lobão talvez seja o exemplo mais óbvio para ilustrar essa questão.. Para uns, ele é o “reaça” caricato, melhor que nenhum outro para ilustrar a sua própria composição “O Rock Errou”; para outros, ele é o último roqueiro brasileiro “com colhões” e não comprometido com “as políticas de esquerda”. Seja qual for a versão que mais corresponde à verdade (ou a versão que você tem especial prazer em desprezar), a pergunta é: o quanto isso te influencia na apreciação da obra dele?

Para mim, não influencia nada. Considero Lobão um compositor mediano, capaz de acertar algumas cestas de três pontos (Revanche, El Desdichado, Meu Abismo, Meu Abrigo, Essa Noite Não) e também de passar muito longe do aro (Girassóis da Noite, Presidente Mauricinho, Universo Paralelo, Dedededéu). Há muito tempo não mostra uma composição digna de nota, e seu mais recente disco é uma coletânea de covers do rock brasileiro.

No acústico MTV, Lobão apresenta Essa Noite, Não, uma das cestas de três pontos

Caso você se aventure a ouvir esse disco – e já adianto que ele é autoindulgente, exagerado e caricato – vai conseguir ouvi-lo como simplesmente um disco, ou seu juízo de valor sobre a persona pública do Lobo vai interferir? A música pode existir independentemente de quem a criou?

Pensar nisso é algo que vale a pena, especialmente nesses tempos de paixões exaltadas e divisivas, onde todos os lados caçam bruxam e também viram alvo, e qualquer posição que não seja extremada é vista, com rancor, como “isenção”.

Vamos sair um pouco da arte para refrescar o raciocínio. Digamos que alguém que você ama está em uma situação de saúde gravíssima, e poucos médicos são capacitados a tratá-la. Você encontra um que é capacitado, mas é um babaca egomaníaco e desprovido de educação. Ao fim, ele realiza uma cirurgia com maestria, e a pessoa que você ama se recupera totalmente, sem sequelas. O cirurgião não deixou de ser um cretino tampouco o trabalho dele passa a ser invalidado.

Obviamente, você tem direito de ouvir – e ler, assistir, frequentar – o que quiser. Mas acredito que vale a pena ter essa reflexão em mente nesse tempo de extremismos e condenações públicas online. Assim como vale lembrar a máxima que o jornalista André Forastieri não cansa de reiterar: “Artistas sempre vão nos decepcionar”.

Dé Dé Dé Dé Déu, composição de Lobão que “passou longe do aro”

 

O cantor e compositor Roger Waters, em apresentação paulistana da turnê Us & Them. Foto: Reprodução / Facebook oficial

OPINIÃO EM PAUTA
O rock n’ roll é político, sim

Do rebolado de Elvis à delinquência de Chuck Berry, o rock sempre foi contestador. Então não peça seu dinheiro de volta porque um artista se posicionou politicamente

Postado em 15/10/2018 por

O que rock tem a ver com política? Tudo, amigo.

Antes de você achar que vem uma discussão partidária (o que não é o caso aqui), vamos resgatar algumas ideias do conceito essencial da política, definida há alguns milênios por Aristóteles. O filósofo dizia que “o homem é um animal político”. Ok, alguém já deve ter citado essa para você no Facebook. Mas provavelmente não citou que, segundo o mesmo Aristóteles, aquele que “ama a guerra pode ser comparado a um pássaro que voa só”. E o tal amante da guerra seria alguém “sem tribo, sem lei, sem coração”. Esse seria o ser “apolítico”.

Politiká, do grego, se referia à polis, a tudo que é “público”. E público, caso você tenha esquecido, é algo que é “acessível a todo mundo”. Como a música. Como o rock’n’roll. Ser apolítico é se fechar em um mundinho e se agarrar a ele com unhas e dentes.

Então, rock sempre foi político, mesmo quando alienado. Era político desde quando Elvis tinha que ser filmado da cintura para cima pelas câmeras de TV, porque seu rebolado era considerado “indecente”; desde quando Chuck Berry – negro, pobre e delinquente – conseguiu unir plateias brancas e negras em um Estados Unidos ainda tomado por leis de segregação racial; desde quando Little Richard aparecia maquiadíssimo e uivando ao piano antes da década de 1960 começar.

Daria para ficar o resto do dia citando exemplos, e isso recorrendo apenas aos ditos “clássicos” do rock’n’roll. Mesmo o rock mais frívolo, mais “nóis quer é encher a cara mesmo”, se confirma como político quando você entende que está decidindo conscientemente mandar tudo à merda, se alienar e partir pra gandaia. Isso para não mencionar as vertentes que tinham em seu DNA as letras e o discurso político, como o folk e boa parte do rock dos anos 1960, o punk inglês, a primeira leva do hardcore norte-americano. E isso que estamos falando apenas de rock. Se trouxermos ska, reggae, rap e outros gêneros para a roda, o leque aumenta de um jeito que playlist alguma do Spotify daria conta de cobrir.

Todo esse contexto está aqui para dizer que toda essa celeuma pós-turnê do Roger Waters em terras nacionais mostram que o consumidor (palavra importante, voltaremos logo a ela) de rock sabe muito pouco sobre o que está comprando.

Você não precisa saber que Eric Waters, pai de Roger, morreu na Segunda Guerra enfrentando os nazistas, porque esse é o tipo de informação da qual só um fã dedicado, ou um nerd de música (no bom sentido), vai atrás. Entretanto, é estranho pagar umas boas centenas de reais por um espetáculo cuja natureza você ignora. Além da carga política de muitas letras, Waters está há décadas usando sua imagem pública para falar de diferentes causas internacionais, arcando com o preço que uma atitude tão aberta pode lhe custar. A turnê atual, Us & Them (“nós & eles”), é anunciada pela imprensa e pelo próprio músico como uma turnê que alerta e critica o que Waters vê, com justificada razão, como um retorno do pensamento extremista pelo mundo. Tudo isso está presente em qualquer matéria que tenha sido escrita sobre Waters antes de sua vinda ao Brasil. Então, não dá para dizer que você se sente enganado por chegar ao show e encontrar mensagens políticas, né?

Bem, dá sim, porque nesse mundo que transforma tudo em mercadoria, um show é percebido pela maioria das pessoas como mais um produto a ser consumido. E para essas pessoas, um show não é arte, tampouco cultura: é entretenimento, e tem que ser do jeito que elas esperam que seja. De fato, chegamos a um mundo onde a música (e todas as artes) parecem ter o mesmo peso (e o mesmo valor) que uma refeição fast food para seus “consumidores”.

Esmiuçar isso é assunto para outra coluna. Mas, mesmo nessa lógica de consumo, é de se esperar que alguém que vá assistir a uma adaptação cinematográfica ou teatral de Romeu e Julieta saiba, ao menos, que se trata de uma tragédia. Você consegue imaginar alguém saindo puto da projeção ou da peça, a ponto de exigir o dinheiro de volta, porque o casal morre no final? Ou, pior ainda: alguém sair do cinema exigindo ser reembolsado porque o filme não terminou como ele esperava?

Não perceber a dimensão política da obra de Roger Waters, com ou sem Pink Floyd, é desconhecer o artista. Não perceber o rock como uma música política é desconhecer o próprio gênero.

Ainda assim, não dá para generalizar e atribuir ao estilo “posições”. Vi uma postagem em rede social em que o cidadão – músico, integrante de uma banda badalada no meio indie – dizia que “não existe rock de direita”.

Existe sim, amigão. Aos montes. Assim como existe rock sexista, racista, machista, escatológico, herético, religioso, careta, sectário, gregário, ofensivo, reacionário, e mais um monte de outras possibilidades. Quer exemplos? O southern rock dos EUA, que rendeu boas bandas como o Lynyrd Skynrd, tem uma notória associação com a cultura redneck mais tacanha e racista. E a música oi, que está diretamente ligada ao neonazismo? E você vai me dizer que o AC/DC é uma banda que “respeita a figura feminina”? E ainda temos o populismo de uma cacetada de artistas que, ao vivo, regem a plateia com palavras de ordem e comandos diretos (“are you readyyyyy?”, “sai do chão”, “quero ouvir todo mundo cantando”), presente em quase todas as bandas de arena e aspirantes a tanto.

Claro, você pode escolher não dar trela a nenhuma dessas bandas ou desses estilos. Ou pode ouvir a música dissociando-a voluntariamente do “contexto” (difícil, mas não impossível). Pode até acreditar que caras que empunham bandeiras de igualdade e justiça social são tão bacanudos como suas mensagens fazem crer, mesmo que não sejam bem isso. (Só a título de ilustração: em uma entrevista para a Rolling Stone, Tom Morello deixou escapar que não sabia se sua empregada de origem latino-americana era sindicalizada ou mesmo se ela estava legalmente nos EUA. Detalhe: à época, Morello fazia alguns shows em prol dos direitos dos imigrantes…)

Enfim, o rock sempre teve caráter político, mesmo quando hipócrita ou alienado, e dificilmente deixará de tê-lo, porque é uma música que se dispõe a dialogar com as pessoas, e não ficar ensimesmada. E continua sendo uma música viva, vibrante e intensa. Então, aceite que ele é, sim, político. Mas deixe-o fora do seu tacanhismo partidário.