opinião em PAUTA

Anacrônicas

Pensatas, entrevistas e crônicas sobre coisas que você nunca (ou)viu, e também sobre algumas já conhecidas.


Seu artista preferido é um babaca

Na música de hoje, a divisa entre admiração e repulsa é cada vez mais tênue (ilustração: Luiz Miranda)

Valores pessoais e apreciação artística precisam mesmo andar juntos? Pensar nisso é algo que vale a pena, especialmente nesses tempos de paixões exaltadas

Postado em 5 de novembro de 2018 por

Eu tinha 19 ou 20 anos e fui entrevistar uma das minhas bandas preferidas no período. Eles tinham pertencido à “série B” do rock brasileiro nos anos 80, mas ali, segunda metade dos anos 90, estavam experimentando grande sucesso por conta de um daqueles projetos de marketing travestidos de disco. Eu já escrevia sobre música desde os 16 anos, mas era a primeira vez que eu entrevistaria alguém “famoso” e que eu gostava de verdade.

A conversa aconteceu no camarim após o show, certamente a pior combinação de hora e local para obter algo jornalisticamente interessante. Mesmo assim, o vocalista se mostrou um cara verdadeiramente apaixonado por música e interessado em coisas novas, enquanto o guitarrista (e principal compositor) estava desatento a qualquer coisa que não fosse seu próprio ego. Deu respostas vazias, destratou fãs que atravessavam a conversa, depreciou colegas de banda (inclusive o vocalista em questão) e foi um completo imbecil com a equipe de produção do show.

Voltei para a casa, escrevi meu texto, e na primeira oportunidade que tive, levei os álbuns da banda ao sebo. Não queria ter em casa nada que me lembrasse aquele comportamento pueril do cidadão, não queria nem mesmo pensar que eu havia gastado meu suado dinheiro com algo que ele criara.

Isso, claro, era minha visão de um moleque recém-saído da adolescência, que não tinha maturidade para separar alhos de bugalhos. Os anos se passaram, e não só voltei a ouvir a banda como comprei alguns CDs novamente, fui a muitos shows e os entrevistei mais algumas vezes – nas quais, vale dizer, o padrão de comportamento dos referidos integrantes permaneceu inalterado.

Quando ainda existia um mercado de jornalismo musical, encontrávamos tempo para discutir questões éticas do ofício, como se era viável ou não o jornalista ser amigo de músico. É possível manter o necessário distanciamento quando você tem apreço pelas pessoas cuja obra você está analisando? Essa discussão aconteceu muitas vezes na minha carreira, mas acho que vale adaptar hoje em dia para outra questão: dá para você gostar de uma música feita por alguém que se porta de uma maneira que você acha condenável?

O tema não é bobo. Não é de hoje em que alguns artistas são saudados por seu engajamento ou comportamento fora dos palcos e estúdios, enquanto outros são desprezados ou vilipendiados pelo mesmo motivo. Porém, o engajamento, mesmo que seja importante e bem-vindo em muitos casos, não tem ligação direta com a qualidade da produção artística.

Em um excelente texto na revista eletrônica Movin Up, o jornalista Mauricio Angelo escreveu:

“Pablo Vittar é um artista limitadíssimo, de músicas de qualidade no mínimo questionáveis – mas sem dúvida foi o maior personagem de 2017. Uma coisa não elimina a outra. Anitta, alçada a rainha da emancipação feminina por mostrar sua bunda com celulite na abertura de um clip que se tornou viral (clip este dirigido por um assediador serial como Terry Richardson) não foi capaz de manter sua suposta posição ao se calar no assassinato de Marielle Franco (prontamente cobrada por seu público), mostrando o que qualquer um era capaz de ver: que só se compromete até certo ponto – até o ponto que não prejudique a sua possibilidade de lucro e de alcance.

Liniker é bom mesmo ou só foi amado por ser quem é? Desconfio da segunda opção. As Bahias e a Cozinha Mineira, Rico Dalasam (já comentado aqui), Linn da Quebrada, Gloria Groove, Aretuza Lovi, Ventre, Jaloo, Johnny Hooker, Karol Conká, Letrux, Francisco, El Hombre, até casos como os do Apanhador Só, pegos em sua ânsia de ser ‘feministo’, levados na enxurrada do linchamento de reputações, revelados como abusadores internet afora e que gerou até uma ‘lista de artistas a evitar’”.

Valorizar a postura de um artista não implica em endossar, ou mesmo curtir, sua obra. O mesmo vale para quando você despreza essa postura.

Lobão talvez seja o exemplo mais óbvio para ilustrar essa questão.. Para uns, ele é o “reaça” caricato, melhor que nenhum outro para ilustrar a sua própria composição “O Rock Errou”; para outros, ele é o último roqueiro brasileiro “com colhões” e não comprometido com “as políticas de esquerda”. Seja qual for a versão que mais corresponde à verdade (ou a versão que você tem especial prazer em desprezar), a pergunta é: o quanto isso te influencia na apreciação da obra dele?

Para mim, não influencia nada. Considero Lobão um compositor mediano, capaz de acertar algumas cestas de três pontos (Revanche, El Desdichado, Meu Abismo, Meu Abrigo, Essa Noite Não) e também de passar muito longe do aro (Girassóis da Noite, Presidente Mauricinho, Universo Paralelo, Dedededéu). Há muito tempo não mostra uma composição digna de nota, e seu mais recente disco é uma coletânea de covers do rock brasileiro.

No acústico MTV, Lobão apresenta Essa Noite, Não, uma das cestas de três pontos

Caso você se aventure a ouvir esse disco – e já adianto que ele é autoindulgente, exagerado e caricato – vai conseguir ouvi-lo como simplesmente um disco, ou seu juízo de valor sobre a persona pública do Lobo vai interferir? A música pode existir independentemente de quem a criou?

Pensar nisso é algo que vale a pena, especialmente nesses tempos de paixões exaltadas e divisivas, onde todos os lados caçam bruxam e também viram alvo, e qualquer posição que não seja extremada é vista, com rancor, como “isenção”.

Vamos sair um pouco da arte para refrescar o raciocínio. Digamos que alguém que você ama está em uma situação de saúde gravíssima, e poucos médicos são capacitados a tratá-la. Você encontra um que é capacitado, mas é um babaca egomaníaco e desprovido de educação. Ao fim, ele realiza uma cirurgia com maestria, e a pessoa que você ama se recupera totalmente, sem sequelas. O cirurgião não deixou de ser um cretino tampouco o trabalho dele passa a ser invalidado.

Obviamente, você tem direito de ouvir – e ler, assistir, frequentar – o que quiser. Mas acredito que vale a pena ter essa reflexão em mente nesse tempo de extremismos e condenações públicas online. Assim como vale lembrar a máxima que o jornalista André Forastieri não cansa de reiterar: “Artistas sempre vão nos decepcionar”.

Dé Dé Dé Dé Déu, composição de Lobão que “passou longe do aro”

 


Leonardo Vinhas é jornalista, produtor cultural e massoterapeuta (!). Começou a escrever sobre música quando fanzines em papel ainda eram a fonte 'alternativa' de informação e não parou desde então. Já produziu uns discos e festivais, e escreveu para mais publicações que consegue se lembrar.

O cantor e compositor Roger Waters, em apresentação paulistana da turnê Us & Them. Foto: Reprodução / Facebook oficial

O rock n’ roll é político, sim

Do rebolado de Elvis à delinquência de Chuck Berry, o rock sempre foi contestador. Então não peça seu dinheiro de volta porque um artista se posicionou politicamente

Postado em 15/10/2018 por

O que rock tem a ver com política? Tudo, amigo.

Antes de você achar que vem uma discussão partidária (o que não é o caso aqui), vamos resgatar algumas ideias do conceito essencial da política, definida há alguns milênios por Aristóteles. O filósofo dizia que “o homem é um animal político”. Ok, alguém já deve ter citado essa para você no Facebook. Mas provavelmente não citou que, segundo o mesmo Aristóteles, aquele que “ama a guerra pode ser comparado a um pássaro que voa só”. E o tal amante da guerra seria alguém “sem tribo, sem lei, sem coração”. Esse seria o ser “apolítico”.

Politiká, do grego, se referia à polis, a tudo que é “público”. E público, caso você tenha esquecido, é algo que é “acessível a todo mundo”. Como a música. Como o rock’n’roll. Ser apolítico é se fechar em um mundinho e se agarrar a ele com unhas e dentes.

Então, rock sempre foi político, mesmo quando alienado. Era político desde quando Elvis tinha que ser filmado da cintura para cima pelas câmeras de TV, porque seu rebolado era considerado “indecente”; desde quando Chuck Berry – negro, pobre e delinquente – conseguiu unir plateias brancas e negras em um Estados Unidos ainda tomado por leis de segregação racial; desde quando Little Richard aparecia maquiadíssimo e uivando ao piano antes da década de 1960 começar.

Daria para ficar o resto do dia citando exemplos, e isso recorrendo apenas aos ditos “clássicos” do rock’n’roll. Mesmo o rock mais frívolo, mais “nóis quer é encher a cara mesmo”, se confirma como político quando você entende que está decidindo conscientemente mandar tudo à merda, se alienar e partir pra gandaia. Isso para não mencionar as vertentes que tinham em seu DNA as letras e o discurso político, como o folk e boa parte do rock dos anos 1960, o punk inglês, a primeira leva do hardcore norte-americano. E isso que estamos falando apenas de rock. Se trouxermos ska, reggae, rap e outros gêneros para a roda, o leque aumenta de um jeito que playlist alguma do Spotify daria conta de cobrir.

Todo esse contexto está aqui para dizer que toda essa celeuma pós-turnê do Roger Waters em terras nacionais mostram que o consumidor (palavra importante, voltaremos logo a ela) de rock sabe muito pouco sobre o que está comprando.

Você não precisa saber que Eric Waters, pai de Roger, morreu na Segunda Guerra enfrentando os nazistas, porque esse é o tipo de informação da qual só um fã dedicado, ou um nerd de música (no bom sentido), vai atrás. Entretanto, é estranho pagar umas boas centenas de reais por um espetáculo cuja natureza você ignora. Além da carga política de muitas letras, Waters está há décadas usando sua imagem pública para falar de diferentes causas internacionais, arcando com o preço que uma atitude tão aberta pode lhe custar. A turnê atual, Us & Them (“nós & eles”), é anunciada pela imprensa e pelo próprio músico como uma turnê que alerta e critica o que Waters vê, com justificada razão, como um retorno do pensamento extremista pelo mundo. Tudo isso está presente em qualquer matéria que tenha sido escrita sobre Waters antes de sua vinda ao Brasil. Então, não dá para dizer que você se sente enganado por chegar ao show e encontrar mensagens políticas, né?

Bem, dá sim, porque nesse mundo que transforma tudo em mercadoria, um show é percebido pela maioria das pessoas como mais um produto a ser consumido. E para essas pessoas, um show não é arte, tampouco cultura: é entretenimento, e tem que ser do jeito que elas esperam que seja. De fato, chegamos a um mundo onde a música (e todas as artes) parecem ter o mesmo peso (e o mesmo valor) que uma refeição fast food para seus “consumidores”.

Esmiuçar isso é assunto para outra coluna. Mas, mesmo nessa lógica de consumo, é de se esperar que alguém que vá assistir a uma adaptação cinematográfica ou teatral de Romeu e Julieta saiba, ao menos, que se trata de uma tragédia. Você consegue imaginar alguém saindo puto da projeção ou da peça, a ponto de exigir o dinheiro de volta, porque o casal morre no final? Ou, pior ainda: alguém sair do cinema exigindo ser reembolsado porque o filme não terminou como ele esperava?

Não perceber a dimensão política da obra de Roger Waters, com ou sem Pink Floyd, é desconhecer o artista. Não perceber o rock como uma música política é desconhecer o próprio gênero.

Ainda assim, não dá para generalizar e atribuir ao estilo “posições”. Vi uma postagem em rede social em que o cidadão – músico, integrante de uma banda badalada no meio indie – dizia que “não existe rock de direita”.

Existe sim, amigão. Aos montes. Assim como existe rock sexista, racista, machista, escatológico, herético, religioso, careta, sectário, gregário, ofensivo, reacionário, e mais um monte de outras possibilidades. Quer exemplos? O southern rock dos EUA, que rendeu boas bandas como o Lynyrd Skynrd, tem uma notória associação com a cultura redneck mais tacanha e racista. E a música oi, que está diretamente ligada ao neonazismo? E você vai me dizer que o AC/DC é uma banda que “respeita a figura feminina”? E ainda temos o populismo de uma cacetada de artistas que, ao vivo, regem a plateia com palavras de ordem e comandos diretos (“are you readyyyyy?”, “sai do chão”, “quero ouvir todo mundo cantando”), presente em quase todas as bandas de arena e aspirantes a tanto.

Claro, você pode escolher não dar trela a nenhuma dessas bandas ou desses estilos. Ou pode ouvir a música dissociando-a voluntariamente do “contexto” (difícil, mas não impossível). Pode até acreditar que caras que empunham bandeiras de igualdade e justiça social são tão bacanudos como suas mensagens fazem crer, mesmo que não sejam bem isso. (Só a título de ilustração: em uma entrevista para a Rolling Stone, Tom Morello deixou escapar que não sabia se sua empregada de origem latino-americana era sindicalizada ou mesmo se ela estava legalmente nos EUA. Detalhe: à época, Morello fazia alguns shows em prol dos direitos dos imigrantes…)

Enfim, o rock sempre teve caráter político, mesmo quando hipócrita ou alienado, e dificilmente deixará de tê-lo, porque é uma música que se dispõe a dialogar com as pessoas, e não ficar ensimesmada. E continua sendo uma música viva, vibrante e intensa. Então, aceite que ele é, sim, político. Mas deixe-o fora do seu tacanhismo partidário.