PAUTA
Informação e música em harmonia

OPINIÃO EM PAUTA – A batuta retinta e envenenada de Erlon Chaves

O maestro Erlon Chaves ao piano. Foto: Frame do filme “Erlon Chaves: maestro do veneno”

Menino prodígio da TV, gênio da música e ‘preto abusado’, o saudoso maestro é tema Quintessência – e também de documentário que estreia nesta segunda-feira (19)

Postado em 19/11/2018 por

Com atraso de 96 horas justificado pelo recesso do Dia da República, nesta segunda-feira (19) a coluna Quintessência (sempre publicada às quintas) retoma sua narrativa de reverência à história de 50 álbuns brasileiros lançados entre 1960 e 1980.

O tema desta edição, a sexta de 50 títulos (leia os anteriores), é o emblemático Sabadabadá, LP de Erlon Chaves lançado, pela gravadora Continental, em 1965.

O cantor, pianista, compositor e arranjador paulistano, aliás, também é objeto central de Erlon Chaves: o maestro do veneno, o aguardado documentário de Alessandro Gamo que, enfim, será exibido, pela primeira vez na TV, na noite desta segunda-feira, dia que, para milhões de moradores de alguns municípios do Brasil, antecede um novo recesso de trabalho e de estudos.

Porque hoje teremos o prazer de recordar a história de um grande ícone da negritude que revolucionou a cultura do Brasil, façamos um breve parêntese para dar ênfase ao fato de que amanhã, 20 de novembro, é celebrado o Dia da Consciência Negra.

Data infelizmente ignorada em âmbito nacional por muitas cidades que, pelo direito facultativo de não considerar a efeméride um feriado, também reafirmam o quanto o racismo e a indiferença à tragédia imposta a quase sete milhões de irmãos africanos são traços velados neste Brasil paradoxal, ainda exaltado por seu famigerado mito de democracia racial.

Realidade escancarada, para ficarmos num exemplo recente, na sandice de quem agora relativiza nosso passado escravagista com o discurso de que o correto seria existir um “Dia da Consciência Humana e não um Dia da Consciência Negra”; gente que, em pleno 2018, ignora que o 20 de novembro fecha o consenso altivo de milhões de descendentes de africanos escravizados no Brasil que, por respeito ao sofrimento e a luta de seus ancestrais, não reconhecem o 13 de maio como um símbolo de libertação de seu povo, muito pelo contrário. Não por acaso, o 20 de novembro, a data escolhida em detrimento ao Dia da Abolição, é marcada pelo dever de exaltação à memória e ao legado aguerrido de Zumbi.

Quintessência, espaço também afeito à valorização da história e da memória cultural do País, aproveita o gancho da passagem dos 323 anos da morte do heroico líder do Quilombo dos Palmares para, na esteira do lançamento do documentário e da recente passagem, no último dia 14 de novembro, dos 44 anos da morte de Erlon Chaves, para enaltecer a travessia relâmpago deste brilhante artista, morto aos 40 anos e consagrado, no rádio, na TV e na indústria fonográfica, como um dos mais imponentes personagens da negritude brasileira no ambiente da música popular do século 20.

Os mais iniciados na trajetória multifacetada de Erlon estão certamente ansiosos para conferir a exibição noturna, às 22h35, no Canal Curta!, da primeira sessão do documentário Erlon Chaves: o maestro do veneno. Façamos então um breve respiro para falar do filme, que pude conferir dias atrás.

Antes, veja, em 20.9.1970, o emocionante encontro entre Wilson Simonal, a diva Sarah Vaughan, o Som Três de Cesar Camargo Mariano, Sabá e Toninho Pinheiro e a Orquestra Tupi, regida pelo maestro Erlon Chaves

Sem o menor receio de dar spoiler, aposto que Erlon Chaves: o maestro do veneno dificilmente irá frustrar a expectativa dos fãs do maestro. O grande mérito do filme, para atingir a credibilidade que logo pude constatar, não restarão dúvidas no porvir de sua trajetória, é a longa e paciente pesquisa empreendida por Alessandro Gamo ao longo dos últimos anos.

Nessa imersão em busca da verdade de seu personagem, o diretor joga luz sobre dois episódios centrais na vida de Erlon Chaves e até então turvos para um sem-número de fãs que, ao longo dos últimos anos, municiados de factoides replicados online em blogs e até mesmo em jornais e revistas supostamente confiáveis, passaram recibo para versões mitológicas sobre esse par de narrativas simbólicas, que dimensionam a complexidade dramática dos últimos anos da vida do ex-líder da Banda Veneno, talento igualmente generoso com seus pares, que também abrilhantou a discografia de artistas tão exuberantes quanto ele, como Elis Regina, Wilson Simonal e Marku Ribas.

Claro, falo, primeiro, da prisão do maestro por agentes da ditadura Médici como resposta enérgica à sua insolente passagem na etapa final do Festival Internacional da Canção de 1970 (evento ironicamente também idealizado por ele), quando, durante a apresentação de Eu Também Quero Mocotó, canção inédita do amigo Jorge Ben Jor, Erlon, acompanhado dos quase 40 músicos de sua Banda Veneno e regido pelo maestro Rogério Duprat, hilariantemente vestindo um macacão de frentista de posto de gasolina, ousou fazer as vezes de um sex symbol negroide, cercado de backing vocals que o beijavam e envolviam seu corpo em movimentos lascivos.

Disparate imperdoável, o gesto insolente de Erlon foi, na visão primitiva de quem ali despudoradamente escancarava seu ímpeto racista, passível de uma cana relâmpago no cárcere da temida Ilha das Cobras. Desaparecido por três dias, para o terror dos amigos, o maestro foi então submetido a um “corretivo” de 72h de reclusão e reiterada tortura psicológica. Expedientes considerados justos para retaliar o inesperado comportamento de um “preto abusado, que não sabia seu lugar”, como provavelmente julgou parte majoritária do público conservador presente no FIC de 1970, gente “de bem” que, mesmo entoando a plenos pulmões a música de Jorge Ben cantada por Erlon, acionou o gatilho racista que legitimou a bárbarie imposta ao líder da Banda Veneno, big-band que, para esses mesmos cretinos, devia também causar espécie por sua aflorada manifestação coletiva de negritude. Em dias de controle comportamental com uso frequente de atrocidades chanceladas pelo AI-5 e então orquestradas pelo general Médici, o gesto de Erlon e seu potencial agregador eram ameaças alarmantes à normatividade hipócrita da convergência entre tradição, família e propriedade. Triáde supostamente cristã que fazia vistas grossas para a tortura, o extermínio e toda sorte de atrocidades cometidas pelos militares.

A segunda narrativa nebulosa, enfim esclarecida e cravada com o relato conclusivo de uma fonte testemunhal ouvida por Gamo, esclarece o que de fato ocorreu na controversa morte do líder da Banda Veneno, supostamente ocorrida em meio a uma discussão na rua Tucumã, no Flamengo. No bate-boca, rezava a lenda, Erlon defendia o amigo Wilson Simonal com tamanha ênfase que sua indignação o teria levado a um infarto fulminante – versão, aliás, derrubada havia um bom tempo, mesmo que sem o trunfo da citada fonte, por jornalistas e pesquisadores, mas que ainda perpetua em alguns textos encontrados na internet.

Não por acaso, a teia de depoimentos construída por Gamo – que dispensa personagens alheios ao convívio com o maestro, como críticos musicais contemporâneos ou estudiosos tardios da obra de Erlon – é totalmente centrada em figuras que, desde a infância do personagem central, estiveram bem próximas do maestro.

Ponto positivo também para a acertada escolha de o próprio diretor permanecer neutro na narrativa e não “costurar” os depoimentos com desnecessárias locuções em off complementares ao que se está sendo visto e ouvido.

No fiel da balança, o norte fidedigno e isento perseguido por Gamo em muito contribuiu para dimensionar que nem mesmo a inserção em meios sociais exclusivíssimos e o reconhecimento profissional do raro talento personificado na figura altiva e brilhante do maestro paulistano foram capazes de blindar Erlon da sina de outros tantos brasileiros pretos estigmatizados pelo secular passado de negação de equidade humana na existência seus ancestrais, segregados à margem e cruelmente explorados por sua cor de pele.

Veja Elis Regina ensaiando Upa Neguinho, de Edu Lobo, para uma série de apresentações no Olympia, em Paris, em novembro de 1969. Na ocasião, a cantora excursionou por vários países com um quinteto liderado por Erlon Chaves (o maestro aparece solando seu vibrafone aos 1’57”) que incluía, Roberto Menescal (guitarra), Wilson das Neves (bateria), Antônio Adolfo (piano) e Jurandir Meirelles (contrabaixo). 


Samba-jazz, pilantragem e hit-parade envenenado
Para os não iniciados na trajetória musical de Erlon Chaves, falaremos agora do clássico álbum Sabadabadá, de 1965.

Editado pela gravadora Continental o LP – elegante desde a capa branca estampada com um cata-vento azul e vermelho – é um dos clássicos do chamado samba-jazz ou bossa-jazz, subgênero instrumental mais afeito à modernidade harmônica da bossa do que literalmente da herança rudimentar – e não menos valiosa – do decano samba.

Rótulos às favas (como diria João Gilberto, “tudo é samba”), façamos então um breve resumo dos caminhos que levaram o maestro Erlon Chaves conceber Sabadabadá, essa pequena obra-prima.

Nascido em São Paulo, em 9 de dezembro de 1933, filho de um ascensorista conhecido como “Seu Chaves”, e de uma entregadora de café, a popular “Dona Irene”, desafiando a origem humilde e confirmando a aposta dos pais, Erlon foi dessas crianças prodigiosas em logo demonstrar sua vocação artística e teve a sorte de muito cedo poder explorar seu potencial.

Aos 4 anos de idade, debutou em um programa infantil, o Clube Papai Noel, da Rádio Difusora de São Paulo, onde fez grande sucesso e foi incentivado a ter uma breve iniciação ao piano. Adolescente, ao vencer o concurso “A Mais Bela Voz Colegial”, Erlon chama a atenção do diretor Walter Avancini, que o apresenta a Mario Fanucchi, diretor artístico da TV Tupi. Naquela nascente história da TV no País, Erlon imediatamente é convidado a atuar na TV Tupi, onde canta em vários programas da emissora e também atua como dublador.

Mesmo menor de idade, aos 16, também avança madrugada a dentro tocando seu piano em clubes e boates da região central de São Paulo. Inferninhos frequentemente monitorados por Seu Chaves, que ao soar do último acorde do piano, escoltava o fascinante garoto de volta pra casa.

Em 1950, aos 17 anos, Erlon conclui os estudos de piano e intensifica suas incursões na noite paulistana em boates e gafieiras. Em paralelo, abrindo caminho para a formação de regente, estuda Harmonia com os maestros Luís Arruda Paes, Renato de Oliveira e Rafael Pugliese. Também em 1950, entra para o cast da TV Excelsior, da qual, inclusive, foi autor do famoso jingle.

Em 1959, pela RCA Victor, é editado seu primeiro álbum, Erlon Chaves e Sua Orquestra em Tempo de Samba (ouça).

Mas a guinada para um reconhecimento popular de grandes êxitos deu-se de fato com sua partida para o Rio de Janeiro, em 1964, quando passou a colaborar para a TV Rio, na qual foi diretor musical e ganhou, inclusive, um programa musical intitulado Embalo.

Foi na esteira desse reconhecimento em âmbito nacional que veio à tona Sabadabadá. Além da batuta sofisticada de Erlon, o álbum teve os arranjos interpretados por um time de feras: no contrabaixo acústico, José Antônio Alves, o Zezinho; no saxofone barítono, Apóstolo Secco; na bateria, Clineu Gonçalves, o Pirituba; na guitarra, Carlos Castilho; no saxofone-tenor, Hector Costita; no saxofone-alto, Adalberto Kuntz; na flauta transversal, Renato Augusto Menconi, o Mazzola; no trombone, Raul de Souza; e no trompete, José Lídio Cordeiro, o Papudinho.

Apinhado de standards da nascente bossa nova, Sabadabadá reúne deliciosas releituras, de, entre outras, Balanço Zona Sul, de Tito Madi, Reza, de Edu Lobo e Ruy Guerra, Opinião, de Zé Keti, e Inútil Paisagem, de Aloysio de Oliveira e Tom Jobim. Além de registrar seu piano classudo em todas as faixas, Erlon também assina duas composições autorais, Na Base do Improviso e o tema que intitula o álbum.

Veja o trailer de Erlon Chaves: o maestro do veneno, de Alessandro Gamo

 

Passada a fase samba-jazz, Erlon empreendeu aventuras não menos admiráveis: foi um dos artífices do som da Pilantragem, “movimento” consagrado com o apelo irresistível do encontro entre Wilson Simonal e o Som Três de Cesar Camargo Mariano; deixou a Europa atônita ao liderar a banda de Elis Regina e circular por diversos países; namorou Vera Fischer; assinou inspiradas trilhas sonoras de cinema, como as de O Grande Assalto (1967), de Cícero Adolpho Chadler, O Matador Profissional (1969), de Jece Valadão, Os Raptores (1969), de Aurélio Teixeira (1969), e Procura-se uma Virgem, de Paulo Gil Soares.

Com sua prisão e a ordem expressa de permanecer 30 dias afastado do ofício, o jeito alegre e insolente de Erlon, no entanto, dá lugar a um personagem introspectivo e assombrado com seu futuro. Com o advento da Banda Veneno, o supergrupo que emplacou álbuns campeões de venda com versões do hit-parade mundial, o maestro encontra ao menos uma válvula de escape para manifestar seu descomunal talento.

A quem interessar possa, tudo que foi narrado aqui pode ser conferido com bem mais propriedade no documentário de Alessandro Gamo (confira as datas e horários das reprises). Quintessência, no entanto, não se furta ao direito de deixar um instante de reverência ao saudoso maestro Erlon – parafraseando Flávio Cavalcanti, de quem ele foi curinga, fazendo papel dobrado, de orquestrador e jurado, no programa televisivo A Grande Chance.

Ouça a íntegra de Sabadabadá

 

Boas audições e até a próxima Quintessência!

 

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A abolição colocada em xeque nas reflexões de artistas no Estúdio Showlivre

Compilação mostra obras nas quais artistas colocam em pauta mensagens de empoderamento negro. (Foto: Aline Oliveira/ Showlivre)

Veja apresentações que exaltam a participação negra na música e contesta a abolição no Estúdio Showlivre

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Passados 130 anos desde que Princesa Isabel assinou o decreto que aboliu a escravidão no País, é consenso entre a negritude brasileira de que em 13 de maio, data até recentemente celebrada nos livros de história como um momento divisor, não há o que se comemorar.

Não por acaso, em 20 de novembro de 2003 foi instituído o Dia da Consciência Negra, em memória da morte, em 1695, de Zumbi dos Palmares, símbolo máximo do Movimento Negro local, que liderou, ao lado de sua companheira, Dandara, o quilombo criado na Serra da Barriga, então pertencente à capitania de Pernambuco, hoje situada no estado de Alagoas.

Segundo o censo realizado pelo IBGE em 2010, 50,7% da população do País é preta ou parda. No entanto, em pleno ano de 2018, essa condição demográfica majoritária está longe de significar igualdade em princípios básicos de cidadania, como o acesso à condições minimamente dignas de vida e de ascensão e projeção social por meio do estudo e do trabalho. Algo que se reflete na baixíssima visibilidade com que a população negra do País é retratada em produções televisivas, cinematográficas e em peças publicitárias que circulam na TV e nos veículos da mídia impressa.

Dado ainda mais vergonhoso e aterrador: segundo o mais recente Atlas da Violência, divulgado em 2017 pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum de Segurança Pública, jovens negros com baixo acesso à escolaridade representam 71 de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil. O extermínio dessa população, majoritariamente composta de cidadãos entre 15 e 29 anos, é o vértice mais sombrio do racismo velado – quando não escancarado – que ainda permeia nossa sociedade.

Cultuada durante séculos como uma espécie de redentora dos negros do País, a Princesa Isabel é contestada hoje como protagonista da luta dos negros por liberdade e reconhecimento de seus direitos civis. Em vez disso, seu gesto de assinar o decreto da Lei Áurea é defendido por historiadores e lideranças do Movimento Negro como uma tentativa de cooptar a luta de abolicionistas como Joaquim Nabuco, André Rebouças e Luís Gama, José do Patrocínio e Dragão do Mar, para tentar dar sobrevida ao poder da coroa portuguesa, às vésperas de ser capitulada pelo Movimento Republicano.

Nunca é demais lembrar que em quase 400 anos de Império, o Brasil foi elevado ao posto do País que mais escravizou africanos em todo o mundo, um contingente de 5 milhões de seres humanos expatriados, privados de seu livre arbítrio e submetidos, desde o primeiro dia de “libertação”, aos expedientes mais sórdidos de violência institucional.

Para reverberar essas reflexões, Leonan Oliveira, repórter do Showlivre, esmiuçou os arquivos da casa para selecionar participações de dez artistas que defenderam pontos de vista contundentes sobre a realidade do povo negro no Brasil durante suas passagens pelos programas Estúdio Showlivre e Palco Showlivre. Confira a lista e inscreva-se em nosso canal do Youtube para acessar mais de 20 mil vídeos do nosso acervo.

Preta Rara – Falsa Abolição


Bia Ferreira – Cota Não é Esmola


Nina Oliveira – Dandara


Gog – Carta à Mãe África


Rincon Sapiência – Negin Di Kebra pt. 2


Luedji Luna – Cabô


Karol Koncá – Sandália


Emicida – I Love Quebrada


MC Linn da Quebrada – Bixa Preta


Liniker e Os Caramelows – Zero


Xênia França – Preta Yayá


Dois Africanos – Eu Sou de Lá


Doralyce – Mulheres

OPINIÃO EM PAUTA – ‘Bohemian Rhapsody’: quando a camisa da banda entorta varal

Rami Malek (Freddie Mercury) e Gwilym Lee (Brian May) em cena do filme de Bryan Singer. Foto: Divulgação / 20th Century Fox

A cinebiografia de Freddie Mercury e memórias afetivas grandiloquentes dividem espaço em mais um registro dissonante

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No futebol, a expressão “camisa que entorta varal” se refere a time grande, tradicional e cheio de história, cuja camisa é considerada “pesada”. Isso quer dizer que ela praticamente entra em campo sozinha, decide jogos só com suas cores e seu distintivo, provoca respeito imediato. Por exemplo: a final da Libertadores entre River e Boca está arrebentando varais por toda a América do Sul.

O conceito pode muito bem ser aplicado no meio musical para se referir a bandas mundialmente famosas que lotam estádios e arrastam milhares de fãs por onde passam. São monstros sagrados cada vez mais raros, mas aquele varal improvisado que o pessoal estende na rua para vender a camiseta da banda ainda entorta bastante por aí. Aproveite enquanto Paul McCartney e os Rolling Stones ainda estão vivos.

Fui ao cinema ver Bohemian Rhapsody, a recém-lançada cinebiografia do Freddie Mercury, cercado de baixas expectativas geradas por críticas negativas. Cinebiografias, assim como adaptações de livros, são sempre um prato cheio para fãs terem do que reclamar. Elas jamais serão 100% fiéis, sempre vai faltar alguma coisa, sempre não foi bem assim que aconteceu, sempre é difícil entender que se trata de uma adaptação, de um filme com começo, meio e fim, e não de um retrato exato da vida real. Neste caso específico, o pessoal não perdoou nem o primeiro trailer lançado.

Não que o filme não tenha seus defeitos, ele é cheio de clichês de cinebiografias, além de soluções óbvias como usar Who Wants To Live Forever quando Freddie descobre ter AIDS. Brian May e Roger Taylor são produtores do filme, então muita coisa deve ter sido controlada ali. As drogas, por exemplo, ficaram em segundo plano. Mas a sexualidade do protagonista, que não aparecia no trailer, está toda lá.

Talvez entorpecido por tantas fake news conduzindo a trajetória do mundo na vida real, eu não ligo mais para o que é real ou não em uma adaptação cinematográfica. Eu simplesmente me deixo levar. E o filme do Bryan Singer me levou diretamente para um lugar que eu estava ignorando e que foi muito real: a minha própria infância.

O Queen foi a primeira banda da qual eu gostei na vida. Eu era criança nos anos 1980 e fui diretamente impactado por aquela fase mágica de Rock in Rio e Live Aid que o filme retrata tão bem. Aquele Rock in Rio que eu vi pela TV foi tão marcante que moldou não só o meu caráter musical, mas o de toda uma geração.

O Queen foi a maior banda de sua época e Freddie Mercury sabia comandar uma plateia de estádio como ninguém. Ele fazia o que queria com aquelas milhares de pessoas e eu sempre considerei isso algo que vai além do talento e do carisma. É um superpoder, um dom sobrenatural. Um magnetismo natural que líderes religiosos, políticos e todo mundo que tem por função controlar as massas sonham em ter. Os demais integrantes do Queen ajudavam bastante, como vemos na cena em que Brian May (Gwilym Lee) cria We Will Rock You. Ele queria dar ao público a chance de participar ativamente da música. A magia do Queen era essa: o público fazia parte do espetáculo.

Então foi o Queen que me fez gostar de banda grande, dessas que lotam estádio e param a cidade. Depois deles, eu iria me apaixonar pelo U2, outra banda que sempre soube dominar uma multidão. Curiosamente, naquele mesmo Live Aid em que o Queen se destacou como maior banda do mundo, o U2 se apresentava em franca ascensão, prestes a tomar o trono.

Todo meu respeito aos artistas menores, esses bravos guerreiros em suas jornadas pelos palcos acanhados e intimistas desse mundo. Espero continuar prestigiando vocês pelo resto da vida – até porque vai chegar o dia em que a idade não vai me permitir encarar a multidão de uma banda grande. Mas é ela, a banda grande, que faz o coração bater mais forte. Foi ela que, em tese, fez todo artista ainda desconhecido pegar um instrumento pela primeira vez. É ela que conduz milhares de pessoas ao mesmo culto, no mesmo ritmo, cantando a mesma canção.

Por isso, a sequência de Bohemian Rhapsody no Live Aid com Rami Malek imitando os trejeitos de Freddie Mercury como um fã na frente do espelho diante de uma plateia ensandecida recriada em computador me emocionou tanto quanto os melhores shows que vi esse ano. Não me lembro de ter visto, no cinema, uma representação tão honesta da catarse provocada por um grande show ao vivo. Ao final da minha sessão, a plateia aplaudiu.

Trata-se de um filme que deve ser visto no cinema, em tela grande, do tamanho que o Queen merece. Meu primeiro filme no cinema foi o campeão de bilheteria E.T., minha primeira banda do coração foi o Queen, então desconfio que serei eternamente refém dos maiores espetáculos da Terra. Muito grato por ter vivido essa época e iniciado minha trajetória de fã com experiências tão grandiosas.

Movimento Black Rio é declarado ‘Patrimônio Cultural Imaterial do RJ’

Registro do fotojornalista Almir Veiga, do ‘Jornal do Brasil’, reproduzido no livro ‘1976 Movimento Black Rio’. Foto: Divulgação / José Olympio

Projeto de Lei aprovado pela Alerj reconhece o caráter de integração social das festas de soul e funk que, nos anos 1970, reuniam milhares de jovens negros

Postado em 15/11/2018 por

Na última quarta-feira (7), a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou o Projeto de Lei 4392/2018, de autoria do deputado estadual Waldeck Carneiro (PT-RJ), que declara o Movimento Black Rio como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio de Janeiro.

Tendo como embrião um baile com seleção musical de artistas negros e realizado pelo jovem produtor Ozéas Moura dos Santos no dia 11 de novembro de 1969 no Clube Astória, o Movimento Black Rio fez surgir na capital fluminense um sentimento inédito de irmandade e altivez, fenômeno experimentado pela juventude negra local  ao longo de toda década de 1970.

Majoritariamente musical, a cena era difundida em bailes como Soul Grand Prix, Dynamic Soul, Soul Maior, Baile da Pesada, Cash Box, Black Power e Furacão 2000,  que reuniam até 15 mil pessoas e eram marcados pelo culto à soul music e ao funk de ícones da cultura negra norte-americana como James Brown, Aretha Franklin, Stevie Wonder e Curtis Mayfield.

Mesmo com a suspeição do regime militar em curso no País de que aquela movimentação oferecia riscos de insurreição, a influência do Black Rio resistiu ao cerco da ditadura e se espalhou em periferias de vários estados do País.

“A ditadura monitorava bailes, discotecários, produtores, artistas, em busca de uma explicação para o que acontecia naquelas manifestações da cultura negra. O Black Rio merece ser colocado no seu devido lugar na história cultural do Estado do Rio de Janeiro por sua contribuição para a formação de uma geração que não tinha opções de lazer. Mais ainda porque isso se dava numa época em que o acesso à cultura era para poucos. O baile realizado pelo jovem Ozéas Moura dos Santos foi a pedra fundamental do que se tornaria Black Rio, Black Minas, Black São Paulo, Black Bahia”,  afirmou o deputado Waldeck Carneiro, no texto em que defendeu seu Projeto de Lei, apresentado em 13 de setembro último na Alerj e agora aprovado.

Para além da música tocada nos bailes, o Movimento Black Rio também motivou o surgimento de bandas e artistas solo que, na esteira de pioneiros como a banda Dom Salvador & Abolição, Tim Maia, Tony Tornado, Cassiano, Hyldon e Gerson King Combo, defenderam a continuidade de novos subgêneros musicais, como o samba-funk e o samba-soul. Entre esses artistas, estão nomes consagrados, como a Banda Black Rio, o grupo União Black, as cantoras Sandra de Sá e Lady Zu, e os compositores Carlos Dafé e Serginho Meriti.

Em 2012, reformulada por William Magalhães, filho do ex-líder, o saxofonista e arranjador Oberdan Magalhães (1945 – 1984), a Banda Black Rio foi destaque no Estúdio Showlivre. Na ocasião, o grupo lançava o álbum Supernova Samba-Funk, editado somente na Inglaterra, pelo Far Out Recordings. Confira abaixo o show.

Em 2016, celebrando os 40 anos de consolidação do movimento, os jornalistas Octávio Sebadelhe e Luiz Felipe de Lima Peixoto publicaram, pela editora José Olympio, o livro-reportagem 1976 – Movimento Black Rio.

Na ocasião, publiquei uma reportagem sobre o lançamento na extinta revista CULTURA!Brasileiros. O conteúdo não está mais online, mas pode ser conferido abaixo, na íntegra.

Um grito de altivez no salão*

por Marcelo Pinheiro

Nestes tempos obtusos, em que a ascensão do conservadorismo no País faz surgir personagens esdrúxulos como Fernando Holiday – jovem negro, egresso do Movimento Brasil Livre (MBL), que foi eleito vereador por São Paulo com um discurso de combate ao “vitimismo” dos negros, fim das cotas raciais e revogação do Dia da Consciência Negra, celebrado no último dia 20 –, é mais que bem-vinda a chegada às livrarias de um trabalho como 1976 Movimento Black Rio, livro-reportagem dos jornalistas Zé Octávio Sebadelhe e Luiz Felipe de Lima Peixoto.

Publicado pela editora José Olympio, com apoio do projeto Natura Musical, o trabalho de fôlego, que será lançado em São Paulo nesta quinta-feira (24) também integra uma série de ações da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro em celebração aos 40 anos do Movimento Black Rio. Ao longo de 252 páginas, a dupla de jornalistas reconstitui, com o auxílio de muitos personagens que viveram o período, a história desse fenômeno jovem consolidado com a profusão de bailes majoritariamente frequentados pela negritude carioca.

A efervescência em torno de festas que reuniam até 20 mil pessoas foi tão inspiradora que fez surgir uma cena local de bandas e compositores que amalgamavam os ensinamentos do funk e da soul music norte-americana com gêneros da música popular brasileira, como o samba e o baião. Maior expoente dessa mistura, a Banda Black Rio lançou em 1977 seu primeiro LP, Maria Fumaça (ouça), um clássico das fusões retroalimentadas pela cultura dos bailes, principal alicerce do movimento que deu aos jovens negros do Rio de Janeiro um sentimento inédito de altivez.
Nesse contexto, além da Banda Black Rio, surgiram artistas municiados do mesmo ímpeto de amplificar a soul music à brasileira criada por antecessores como Tim MaiaToni TornadoHyldonCassiano e o grupo Dom Salvador & Abolição. Na nova safra, destaque para União BlackCarlos DaféGerson King ComboDon BetoBeto ScalaLady ZuMárcia MariaTony BizarroSerginho MeritiCopa 7Junior MendesAlmir RicardiSandra de Sá e a dupla Robson Jorge e Lincoln Olivetti. Com ritmo explosivo, eles fizeram a trilha sonora dos blacks, como se autointitulavam os simpatizantes do movimento.

Mal documentada, tema de muitas reportagens preconceituosas feitas na época, a trajetória desses personagens é contada com propriedade no livro. No texto de apresentação da obra, Peixoto pontua argumentos que eram recorrentes para deslegitimar a importância do movimento, como a influência estrangeira e a aparente frivolidade de uma articulação movida a festança.

“A história do Black Rio se encaixa, de certa maneira, numa situação parecida com os escassos registros históricos da cultura negra nacional, obliterados pela amnésia reinante da memória imaterial, característica comum deste País. Pouco se sabe sobre o que foi a influência do soul americano nos subúrbios do Rio de Janeiro no início dos anos 1970. Alguns afirmam não ter sido um movimento autêntico, organizado. Outros alegam que foi apenas um momento em que a juventude negra resolveu dançar uma música diferente”, diz Peixoto.

Pelo conturbado contexto histórico em que surgiu, o jornalista reitera a importância do Black Rio. “Num período ditatorial, a representatividade desse movimento não teve parâmetros. Os negros daqui se mostraram contextualizados num âmbito internacional, estavam em sintonia com o que acontecia pelo mundo. E, através dessa identidade de raça, o Movimento Black Rio se tornou um fenômeno sociológico e político incomparável. Um divisor de águas.”

A crítica de superficialidade da proliferação dos bailes no subúrbio carioca chegou a motivar um protesto do sambista Candeia, manifestado na música Sou Mais Samba (veja vídeo), lançada em 1977. Provocativo, na letra, o partideiro ironiza: “Esse som que vem de fora não me apavora / Nem rock nem rumba / Pra acabar com o tal de soul / Basta um pouco de macumba”. Na última estrofe, depois de afirmar “quem presta à roda de samba não fica imitando estrangeiro”, Candeia pondera: “Calma, calma minha gente / Pra que tanto bambambã / Pois os blacks de hoje em dia são os sambistas de amanhã”. O manifesto anti-Black Rio de Candeia, que contou com a colaboração de Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara, é documentado no 15° dos 28 capítulos do livro.

O embate “samba versus soul” chegou a contar com a inusitada opinião do sociólogo Gilberto Freyre, que, em artigo publicado no Jornal do Brasil, alertou “a nação para o perigo da mistura de negros norte-americanos com os brasileiros negros que possuem um movimento chamado Black Rio, com a finalidade de transformar a música negra – o samba, principalmente – em música de protesto”.

Na introdução de 1976 Movimento Black Rio, Sebadelhe reafirma o equívoco de menosprezar as intenções de jovens negros que, ao contrário do que pensavam os que compartilhavam da opinião da velha-guarda do samba e do autor de Casa-Grande & Senzala, não tinham como mote único o hedonismo alienante da dança.

“O Movimento Black Rio teve características tão peculiares que não apenas mudaria as formas de produção cultural da cidade, mas também os hábitos de convivências e as relações do lugar. Essa particularidade uniu jovens negros de outros estados com o mesmo propósito: o direito de se expressar livremente, absorver, produzir cultura e se divertir. Surgia uma mocidade que questionaria veementemente estatutos e modelos arcaicos da civilização brasileira, traços de uma sociedade forjada em severos conceitos da era da escravidão.”

Além da importância textual, o livro também apresenta ao leitor uma rica pesquisa iconográfica, com filipetas, cartazes e fotografias em preto e branco que evidenciam o sentimento de feliz irmandade que havia entre os adeptos da cena difundida em festas promovidas por equipes como Baile da Pesada, Soul Grand Prix, Dynamic Soul, Soul Maior, Cash Box, Black Power e Furacão 2000.

Neste mês de celebração ao espírito aguerrido de Zumbi dos Palmares, temos aqui um livro essencial tanto para
desinformados, como o vereador Fernando Holiday, quanto para a negritude que sempre defendeu o direito de trazer à tona sua história e preservá-la.

“Ragatanga”: entenda a música mais enigmática dos anos 2000

Ragatanga é o maior sucesso do grupo Rouge, formado por Li Martins, Aline, Lu Andrade, Fantine e Karin. (Foto: Divulgação)

Faixa conta com um trecho ‘em língua estranha’. Saiba de onde vêm as palavas e o que elas significam!

Postado em 14/11/2018 por

Toda criança e adolescente dos anos 2000 cantou e dançou MUITO ao som de “Ragatanga”, o maior hit do grupo Rouge. Embora todo mundo conhecesse, tinha um pequeno detalhe: ninguém sabia direito a letra e qual era seu significado do refrão da canção.

A parte do “aserehe ra de re” gerou diversas teorias da conspiração para tentar entender o real significado da música. Enquanto para alguns o trecho seria uma invocação de algo ruim ou um idioma desconhecido, para outros a as palavras (sem sentido) só foram colocadas em ordem para ter uma boa sonoridade e fazer todo mundo dançar.

A questão é que depois de intensas pesquisas, um fã da música (que foi originalmente gravada em espanhol pelo grupo Las Ketchup) resolveu compartilhar com o mundo que “Ragatanga”, na verdade fazia TODO SENTIDO DO MUNDO: a música fala do Diego que, ao entrar em uma festa, escuta sua música favorita (em inglês) e mesmo sem saber o idioma, canta junto.

Entenda:

A música começa com “Olha lá quem vem virando a esquina / Vem Diego com toda a alegria, festejando”. Diego é nosso personagem principal que está “com a lua em seus olhos, roupa de água marinha e seu jeito de malandro”, ou seja, Diego chegou chegando ao lugar.

E o DJ que já conhece, toca o som da meia noite, pra Diego a canção mais desejada” Isso quer dizer que nosso amigo Diego já chega dançando e é notado pelo DJ, que conhece Diego e toca sua música favorita: a faixa “Rapper’s Delight”, do trio de hip hop Sugarhill Gang.

Ouça:

 

O refrão da música é na verdade:

“I said a hip hop the hippie the hippie
to the hip hip hop, a you dont stop
the rock it to the bang bang boogie say up jumped the boogie
to the rhythm of the boogie, the beat”

 

A sonoridade destas frases soa conhecida para você? Então…como Diego não fez um cursinho de inglês (e essa é sua música favorita), ele canta como ele imagina que é. Ou seja, o refrão de “Ragatanga” é na verdade a tentativa falha de Diego cantar em inglês.

Agora, compare com a faixa das meninas:

Mais ativas do que nunca, as integrantes do grupo Rouge estão de volta e, até o momento, emplacaram hits como Bailando Dona da Minha Vida. O mais recente, lançado em agosto deste ano, acumulou cerda de 10 milhões de visualizações em menos de três meses. Assista: